Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social ) como todo o corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e retrata uma realidade, que lhe é exterior. Tudo o que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo o que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia
(Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia de Linguagem)
Alguns comentários sobre o meio e a mensagem na internet.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

"Zé Ninguém" - O Boneco de Ventrílogo - Wilhelm Reich





“o fascismo” é a atitude emocional básica do homem oprimido da civilização autoritária da máquina, com sua maneira mística e mecanicista de encarar a vida. É o caráter mecanicista e místico do homem moderno que cria os partidos fascistas, e não vice-versa”. (Wilhelm Reich)

O caráter da catarse geral do “Outono Brasileiro” precisa ser investigado em várias frentes, procurei levar o debate para questões objetivas, da estrutura da Economia, com seus reflexos na Política, em cinco textos:

Busquei entender a lógica por trás da rebelião, acredito que avancei um pouco no tema, aliás, os textos vão entrando numa cadeia comum de elaboração que vem desde a época da série Crise 2.0.

Porém, a questão não se resolve somente com uma análise objetiva ou estrutural, ela deve, necessariamente, descer para um outro nível, mais subjetivo, que é o entendimento psicológico que envolve uma explosão social de massas. Nestes dias retomei a leitura do Médico e Político, nascido no território do império Austro-Húngaro, Wilhelm Reich, que produziu, para mim, um dos melhores textos analíticos sobre o fenômeno do Fascismo, de como surge e suas principais características, em particular a catarse de massas, de movimento contra tudo e todos, que esconde um profundo reacionarismo político.

Recortei o prefácio à terceira edição do seu livro Psicologia de Massas do Fascismo, pois lá ele conseguiu sintetizar de forma magistral a questão do fascismo e sua relação com o homem “médio”. O termo central que ele denomina o tal Homem, o ”Zé Ninguém” , nos parece muito apropriado ao nosso “Gigante Toddynho”, a análise de seu caráter é exata, não tem o que tirar. Resolvi reproduzir a parte essencial do texto, o link acima tem o livro completo, importantíssimo para uma compreensão mais ampla do que atualmente enfrentamos.

Basta lembrar que a culta e racional sociedade alemã se deixou levar pelo fascismo, as razões de fundo são brilhantemente analisadas por Reich, o que demonstra que não há nada de novo ou inovador na revolta do “Gigante” dos “bem informados”, “plugados”, as questões são bem mais irracionais e perversas, mas é preciso ler o todo e entender as partes do problema. Os parágrafos iniciais são mais densos, pois sinteticamente , Reich, pontua sua tese, depois se torma mais direto e nos põe em plena Alemanha pré-Hitler.

Leiamos o que nos diz Reich.

Prefácio à 3ª Edição em Língua Inglesa,Corrigida e Aumentada de Psicologia de Massas do Fascismo de Wilhelm Reich

Uma longa e árdua prática terapêutica com o caráter humano levou-me à conclusão de que, na avaliação das reações humanas é necessário considerar três níveis diferentes da estrutura biopsíquica, Estes níveis da estrutura do caráter são, conforme tive ocasião de expor na minha obra Análise do Caráter, depósitos, com funcionamento próprio, do desenvolvimento social. No nível superficial da sua personalidade, o homem médio é comedido, atencioso, compassivo, responsável, consciencioso. Não haveria nenhuma tragédia social do animal humano se este nível superficial da personalidade estivesse em contato direto com o cerne natural profundo. Mas, infelizmente, não é esse o caso: o nível superficial da cooperação social não se encontra em contato com o cerne biológico profundo do indivíduo; ela se apoia num segundo nível de caráter intermediário, constituído por impulsos cruéis, sádicos, lascivos, sanguinários e invejosos. É o “inconsciente” ou “reprimido” de Freud, isto é, o conjunto daquilo que se designa, na linguagem da economia sexual, por “impulsos secundários”.

A biofísica orgônica tornou possível a compreensão do inconsciente freudiano, aquilo que é antissocial no homem, como resultado secundário da repressão de exigências biológicas primárias. E quando se penetrar, através deste segundo nível destrutivo, até atingir os substratos biológicos do animal humano, descobrir-se-á, invariavelmente, a terceira camada, a mais profunda, que designamos por cerne biológico. Nesse cerne, sob condições sociais favoráveis o homem é um animal racional essencialmente honesto, trabalhador, cooperativo que ama e, tendo motivos, odeia. É absolutamente impossível conseguir-se uma flexibilidade da estrutura do caráter do homem atual, através da penetração desta camada mais profunda e tão promissora, sem primeiro eliminar-se a superfície social espúria e não genuína. Mas, ao cair a máscara das boas-maneiras, o que primeiro surge não é a sociabilidade natural, mas sim o nível de caráter perverso-sádico.

É esta infeliz estruturação que é responsável pelo fato de que qualquer impulso natural, social’ ou libidinoso, proveniente do cerne biológico, seja forçado a atravessar o nível das pulsões secundárias perversas, que o distorcem, sempre que pretenda passar à ação. Esta distorção transforma a natureza originalmente social dos impulsos naturais em perversidade e, deste modo, leva à inibição de todas as manifestações autênticas de vida.

Tentemos transportar esta estrutura humana para a esfera social e política.

É fácil descobrir que os diferentes agrupamentos políticos e ideológicos da sociedade humana correspondem aos diferentes níveis da estrutura do caráter humano. Não incorremos, certamente, no erro da filosofia idealista de supor que esta estrutura humana se manterá imutável para sempre. Depois que as necessidades biológicas originais do homem foram transformadas pelas circunstâncias e pelas modificações sociais, e passaram a fazer parte da estrutura do caráter humano, esta última reproduz a estrutura social da sociedade, sob a forma de ideologias.

O cerne biológico do homem não encontra representação social desde o colapso da primitiva forma de organização social segundo a democracia do trabalho. Os aspectos “naturais” e “sublimes” do homem, aquilo que o liga ao cosmos, só encontram expressão autêntica nas grandes obras de arte, especialmente na música e na pintura. Mas não têm contribuído de maneira decisiva para a configuração da sociedade humana, se por sociedade se entender comunidade de todos os homens, e não a cultura de uma pequena camada superior e rica.

Nos ideais éticos e sociais do liberalismo, vemos representadas as características do nível superficial do caráter: autodomínio e tolerância. O liberalismo enfatiza a sua ética, com o objetivo de reprimir o “monstro no homem”, isto é, o nível das “pulsões secundárias”, o “inconsciente” freudiano. A sociabilidade natural da camada mais profunda, do cerne, permanece desconhecida para o liberal. Este deplora e combate a perversão do caráter humano por meio de normas éticas, mas as catástrofes sociais do século XX provam que essa tática de nada adianta.

Tudo o que é autenticamente revolucionário, toda a autêntica arte e ciência, provêm do cerne biológico natural do homem. Nem o verdadeiro revolucionário, nem o artista nem o cientista foram até agora capazes de conquistar e liderar as massas, ou, se o fizeram, de mantê-las por muito tempo no domínio dos interesses vitais.

Com o fascismo, as coisas se passam de modo diferente, em oposição ao liberalismo e à verdadeira revolução. O fascismo não representa, na sua essência, nem o nível superficial nem o mais profundo do caráter mas sim o nível intermediário das pulsões secundárias.

Na época em que este livro foi escrito, o fascismo era geralmente considerado como um “partido político” que à semelhança de outros “grupos sociais”, defendia uma “ideia política” organizada. De acordo com esta visão, “o partido fascista impunha o fascismo por meio da força ou de ‘manobras políticas’”.

Opondo-se a isso, minhas experiências, médicas com homens e mulheres de diferentes classes, raças, nações, credos, etc., ensinaram-me que o “fascismo” não é mais do que a expressão politicamente organizada da estrutura do caráter do homem médio, uma estrutura que não é o apanágio de determinadas raças ou nações, ou de determinados partidos, mas que é geral e internacional. Neste sentido caracterial, o “fascismo” é a atitude emocional básica do homem oprimido da civilização autoritária da máquina, com sua maneira mística e mecanicista de encarar a vida.

É o caráter mecanicista e místico do homem moderno que cria os partidos fascistas, e não vice-versa.

O fascismo ainda hoje é considerado, devido a uma reflexão política errônea, como uma característica nacional específica dos alemães ou dos japoneses. É deste primeiro erro que decorrem todos os erros de interpretação posteriores.

Em detrimento dos verdadeiros esforços pela liberdade, o fascismo foi e ainda é considerado como a ditadura de uma pequena clique reacionária. A persistência neste erro deve ser atribuída ao medo que temos de reconhecer a situação real: o fascismo é um fenômeno internacional que permeia todos os corpos da sociedade humana de todas as nações. Esta conclusão coaduna-se com os acontecimentos internacionais dos últimos quinze anos.

As minhas experiências em análise do caráter convenceram-me de que não existe um único indivíduo que não seja portador, na sua estrutura, de elementos do pensamento e do sentimento fascistas. O fascismo como um movimento político distingue-se de outros partidos reacionários pelo fato de ser sustentado e defendido por massas humanas.

Estou plenamente consciente da enorme responsabilidade contida nestas afirmações. Desejaria, para bem deste mundo perturbado, que as massas trabalhadoras estivessem igualmente conscientes da sua responsabilidade pelo fascismo.

É necessário fazer uma distinção rigorosa entre o militarismo comum e o fascismo. A Alemanha do imperador Guilherme foi militarista, mas não fascista.

Como o fascismo é sempre e em toda a parte um movimento; apoiado nas massas, revela todas as características e contradições da estrutura do caráter das massas humanas: não é, como geralmente.se crê, um movimento exclusivamente reacionário, mas sim um amálgama de sentimentos de revolta e ideias sociais reacionárias.

Se entendemos por revolucionária a revolta racional contra as situações insuportáveis existentes na sociedade humana, o desejo racional de “ir ao fundo, à raiz de todas as coisas” (“radical”, “raiz”), para melhorá-las, então o fascismo nunca é revolucionário. Pode, isso sim, aparecer sob o disfarce de emoções revolucionárias. Mas não se considerará revolucionário o médico que combate a doença com insultos, mas sim aquele que investiga as causas da doença com calma, coragem e consciência, e a combate. A revolta fascista tem sempre origem na transformação de uma emoção revolucionária em ilusão, pelo medo da verdade.

O fascismo, na sua forma mais pura, é o somatório de todas as reações irracionais do caráter do homem médio. O sociólogo tacanho, a quem falta coragem para reconhecer o papel fundamental do irracional na história da humanidade, considera a teoria fascista da raça como mero interesse imperialista ou, apenas, como simples “preconceito”. O mesmo acontece com o político irresponsável e palavroso: a extensão da violência e a ampla propagação desses “preconceitos raciais” são prova da sua origem na parte irracional do caráter humano. A teoria racial não é uma criação do fascismo. Pelo contrário, o fascismo é um produto do ódio racial e a sua expressão politicamente organizada. Por conseguinte, existe um fascismo alemão, italiano, espanhol, anglo-saxônico, judeu e árabe. A ideologia da raça é uma grande expressão biopática pura da estrutura do caráter do homem orgasticamente impotente.

O caráter sádico-perverso da ideologia da raça revela-se também na atitude perante a religião. O fascismo seria um retorno ao paganismo e um arqui-inimigo da religião. Muito pelo contrário, o fascismo é a expressão máxima do misticismo religioso. Como tal, reveste-se de uma forma social particular. O fascismo apoia a religiosidade que provém da perversão sexual e transforma o caráter masoquista da velha religião patriarcal do sofrimento numa religião sádica. Em resumo, transpõe a religião, do “campo extraterreno” da filosofia do sofrimento, para o “domínio terreno” de assassínio sádico.

A mentalidade fascista é a mentalidade do “Zé Ninguém”, que é subjugado, sedento de autoridade e, ao mesmo tempo, revoltado. Não é por acaso que todos os ditadores fascistas são oriundos do ambiente reacionário do “Zé Ninguém”. O magnata industrial e o militarista feudal não fazem mais do que aproveitar-se deste fato social para os seus próprios fins, depois de ele se ter desenvolvido no domínio da repressão generalizada dos impulsos vitais. Sob a forma de fascismo, a civilização autoritária e mecanicista colhe no. “Zé Ninguém” reprimido nada mais do que aquilo que ele semeou nas massas de seres humanos subjugados, por meio do misticismo, militarismo e automatismo durante séculos. O “Zé Ninguém” observou bem demais o comportamento do grande homem, e o reproduz de modo distorcido e grotesco. O fascista é o segundo sargento do exército gigantesco da nossa civilização industrial gravemente doente. Não é impunemente que o circo da alta política se apresenta perante o. “Zé Ninguém”; pois o pequeno sargento excedeu em tudo o general imperialista: na música marcial, no passo de ganso, no comandar e no obedecer, no medo das ideias, na diplomacia, na estratégia e na tática, nos uniformes e nas paradas, nos enfeites e nas condecorações. Um imperador Guilherme foi em tudo isto simples “amador”, se comparado com um Hitler, filho de um pobre funcionário público. Quando um general “proletário” enche o peito de medalhas, trata-se do “Zé Ninguém” que não quer “ficar atrás” do “verdadeiro” general.

É preciso ter estudado minuciosamente e durante anos o caráter do “Zé Ninguém”, ter um conhecimento íntimo da sua vida atrás dos bastidores, para compreender em que forças o fascismo se apoia.

Na revolta da massa de animais humanos maltratados contra a civilidade oca do falso liberalismo (não me refiro ao verdadeiro liberalismo e à verdadeira tolerância) aparece o nível do caráter, que consiste nas pulsões secundárias.

O fanático fascista não pode ser neutralizado, se for procurado unicamente de acordo com as circunstâncias políticas prevalecentes, apenas no alemão e no italiano, e não também no americano e no chinês; se não for capturado dentro da própria pessoa,se não conhecermos as instituições sociais que o geram diariamente.

O fascismo só pode ser vencido se for enfrentado de modo objetivo e prático, comum conhecimento bem fundamentado dos processos da vida. Ninguém o consegue imitar nas manobras políticas e diplomáticas e na ostentação, Mas o fascismo não tem resposta para os problemas práticos da vida porque vê tudo apenas como reflexo da ideologia ou sob a forma dos uniformes oficiais.

Quando se ouve um indivíduo fascista, de qualquer tendência, insistir em apregoar a “honra da nação” (em vez da honra do homem) ou a “salvação da sagrada família e da raça” (em vez da sociedade de trabalhadores); quando o fascista procura se evidenciar, recorrendo a toda a espécie de chavões, pergunte-se a ele, em público, com calma e serenidade, apenas isto:

“O que você faz, na prática, para alimentar esta nação, sem arruinar outras nações? O que você faz, como médico, contra as doenças crônicas; como educador, pelo bem-estar das crianças; como economista, contra a pobreza; como assistente social, contra o cansaço das mães de prole numerosa; como arquiteto, pela promoção da higiene habitacional? E agora, em vez da conversa fiada de costume, dê respostas concretas e práticas, ou, então, cale-se!”

Daqui se conclui que o fascismo internacional nunca será derrotado por manobras políticas. Mas sucumbirá perante a organização natural do trabalho, do amor e do conhecimento em escala internacional.

Na nossa sociedade, o trabalho, o amor e o conhecimento não são ainda a força determinante da existência humana. E mais: estas grandes forças do princípio positivo da vida não estão ainda conscientes do seu poder, do seu valor insubstituível, da sua extraordinária importância para o ser social. É por isso que hoje, um ano depois da derrota militar do fascismo partidário, a sociedade humana continua à beira do precipício. A queda da nossa civilização é inevitável se os trabalhadores, os cientistas de todos os ramos vivos (e não mortos) do conhecimento e os que dão e recebem o amor natural, não se conscientizarem, a tempo, da sua gigantesca responsabilidade.

O impulso vital pode existir sem o fascismo, mas o fascismo não pode existir sem o impulso vital. É como um vampiro sugando um corpo vivo, impulso assassino de rédea solta, quando o amor deseja consumar-se na primavera.

A liberdade humana e social, a autogestão da nossa vida e da vida dos nossos descendentes processar-se-á em paz ou na violência? Esta é uma pergunta angustiante, para a qual ninguém sabe a resposta.

Mas quem compreende as funções vitais no animal, na criança recém-nascida, quem conhece o significado do trabalho dedicado, seja ele um mecânico, pesquisador ou artista, deixa de pensar por meio de conceitos que os manipuladores de partido espalharam por este mundo. O impulso vital não pode “tomar o poder pela violência”, pois nem saberia o que fazer com o poder. Significa esta conclusão que o impulso vital estará sempre sujeito ao gangsterismo político, será sempre sua vítima, seu mártir? Significa que o político continuará a sugar o sangue da vida para sempre? Tal conclusão seria errada.

Minha função, como médico, é curar doenças; como investigador, é descobrir as relações da natureza até aqui desconhecidas. Se me aparecesse um político qualquer pretendendo forçar-me a abandonar os meus doentes e o meu microscópio, eu não me deixaria perturbar: eu o poria na rua, se ele não desaparecesse voluntariamente. Depende do grau de insolência do intruso e não de mim ou do meu trabalho, eu ter que usar a força para proteger dos intrusos o meu trabalho sobre a vida. Imaginemos, agora, que todos aqueles que estão envolvidos num trabalho vital vivo pudessem reconhecer a tempo o politiqueiro. Agiriam do mesmo modo. Este exemplo simplificado contém talvez um pouco da resposta à pergunta sobre como o impulso vital terá de se defender contra aquilo que o perturba ou o destrói.

A Psicologia de Massas do Fascismo foi pensada entre 1930 e 1933, anos de crise na Alemanha. Foi escrita em 1933 e publicada em setembro de 1933, na Dinamarca, onde foi reeditada em abril de 1934.

Desde então, passaram-se dez anos. Pela revelação da natureza irracional da ideologia fascista muitas vezes esta obra recebeu aplausos demasiado entusiastas e sem embasamento num verdadeiro conhecimento, vindos de todos os setores políticos, aplausos esses que não levaram a nenhuma ação apropriada. Cópias do livro — às vezes sob pseudônimos — atravessaram, em grande número, as fronteiras alemãs. A obra foi acolhida com júbilo pelo movimento revolucionário ilegal, na Alemanha. Durante anos, serviu como fonte de contato com o movimento antifascista alemão.

Os fascistas proibiram-na em 1935, juntamente com todas as outras obras de psicologia política (1). Mas foi publicada, parcialmente, na França, na América, na Tchecoslováquia, na Escandinávia, etc., e discutida em longos artigos. Apenas os partidos socialistas, que viam tudo sob o ângulo da economia, e os funcionários assalariados do partido, que controlavam os órgãos do poder político, não lhe encontraram qualquer utilidade, até hoje. Por exemplo, os dirigentes dos partidos comunistas da Dinamarca e Noruega criticaram-na violentamente, considerando-a “contrarrevolucionária”. Por outro lado, é significativo que a juventude de orientação revolucionária pertencente a grupos fascistas tenha compreendido a explicação da natureza irracional da teoria racial, dada pela economia sexual.

Em 1942, chegou da Inglaterra a proposta de se traduzir para o inglês a Psicologia de Massas do Fascismo. Isso me levou a avaliar a utilidade da obra dez anos depois de ter sido escrita. O resultado desse exame reflete, com exatidão, as gigantescas transformações que revolucionaram o pensamento nos últimos dez anos. Além disso, constitui a pedra de toque da resistência da sociologia da economia sexual e da sua relação com as revoluções sociais do nosso século. Já não pegava neste livro há muitos anos. Quando, depois, comecei a corrigi-lo e a ampliá-lo, fiquei surpreso com os erros de reflexão que eu havia cometido, quinze anos antes, com as profundas revoluções do pensamento que haviam ocorrido e com as exigências que a superação do fascismo haviam imposto à ciência.

Primeiro, permiti-me celebrar um grande triunfo. A análise da ideologia do fascismo, baseada nos princípios da economia sexual, não só resistiu ao tempo, mas também se confirmou brilhantemente, nos seus aspectos essenciais, durante os últimos dez anos. Sobreviveu às concepções puramente econômicas dá marxismo corrente, com que os partidos marxistas alemães tentaram opor-se ao fascismo. É um elogio para a Psicologia de Massas do Fascismo o pedido de reedição, dez anos depois de ter sido escrita. Disso não se pode gabar nenhum escrito marxista de 1930 cujo autor tenha condenado a economia sexual.

Minha revisão da segunda edição reflete a revolução ocorrida no meu pensamento.

Por volta de 1930, eu desconhecia as relações naturais que se estabelecem entre os trabalhadores, homens e mulheres, na democracia do trabalho. Os insights rudimentares da economia sexual sobre a formação da estrutura humana pertenciam, àquela altura, ao âmbito do pensamento dos partidos marxistas. Eu trabalhava, então, em organizações culturais liberais, socialistas e comunistas, e estava habituado a utilizar os conceitos convencionais da sociologia marxista nas minhas exposições sobre a economia sexual. A enorme contradição entre a sociologia da economia sexual e o economicismo corrente já então se revelava, em discussões embaraçosas com vários funcionários dos partidos. Mas, numa época em que ainda acreditava na natureza basicamente científica dos partidos marxistas, não conseguia compreender por que motivo os membros de partidos combatiam, com tanta violência, as consequências sociais do meu trabalho médico, exatamente ao mesmo tempo em que empregados, operários, pequenos comerciantes, estudantes, etc., acorriam em massa às organizações orientadas pelos princípios da economia sexual, para aí adquirirem conhecimentos sobre a vida viva. Nunca esquecerei o “professor vermelho” de Moscou que, em 1928, foi enviado a um dos meus cursos universitários, em Viena, para defender “a linha do partido” contra a minha. Disse, entre outras coisas, que o “complexo de Édipo era uma asneira”, que tal coisa não existia. Catorze anos depois, os seus camaradas russos eram esmagados sob os tanques dos homens-máquina alemães, escravizados pelo führer.


Era de se esperar que os partidos que afirmam lutar pela liberdade humana acolhessem com agrado as conclusões do meu trabalho político-psicológico. Mas aconteceu exatamente o contrário, como provam os arquivos do nosso instituto: quanto mais amplas eram as consequências sociais do trabalho de psicologia de massas, tanto mais severas se tornaram as contramedidas dos dirigentes partidários. Já em 1929-1930, a socialdemocracia austríaca fechou as portas das suas organizações culturais aos conferencistas da nossa organização. As organizações socialistas e comunistas, não obstante os protestos dos seus militantes proibiram a distribuição das publicações da “Editora para Política Sexual”, no ano de 1932, em Berlim. Ameaçaram me matar logo que o marxismo alcançasse o poder na Alemanha. Em 1932, as organizações comunistas da Alemanha vedaram os seus locais de reunião ao médico especialista em economia sexual, contra a vontade, dos seus membros. A minha expulsão de ambas as organizações baseou-se no fato de eu ter introduzido a sexologia na sociologia, e ter demonstrado como ela afeta a formação da estrutura humana. Nos anos que decorreram entre 1934 e 1937, foram sempre funcionários do partido comunista que chamaram a atenção de círculos europeus de orientação fascista para o “perigo” da economia sexual. Há provas documentadas destas afirmações. Os escritos de economia sexual eram apreendidos na fronteira soviética do mesmo modo que os milhares de refugiados que procuraram salvar-se do fascismo alemão; não há argumentos válidos que justifiquem isso.

Estes eventos, que na época pareciam absurdos, tornaram-se absolutamente claros enquanto revia a Psicologia de Massas do Fascismo. O conhecimento biológico da economia sexual havia sido comprimido dentro da terminologia marxista comum como um elefante numa toca de raposa. Já em 1938, quando revia o meu livro sobre a juventude (2) observei que, decorridos oito anos, todos os termos da economia sexual tinham conservado o seu significado, enquanto as palavras de ordem dos partidos, que eu incluíra no livro, se tinham esvaziado de sentido. O mesmo aconteceu com a terceira edição de Psicologia de Massas do Fascismo.

Está claro, hoje em dia, que o “fascismo” não é obra de um Hitler ou de um Mussolini, mas sim a expressão da estrutura irracional do homem da massa. Está mais claro hoje do que há dez anos que a teoria da raça é misticismo biológico. Estamos hoje mais próximos da compreensão do anseio orgástico das massas do que estávamos há dez anos, e já se generalizou a impressão de que o misticismo fascista é o anseio orgástico restringido pela distorção mística e pela inibição da sexualidade natural. As afirmações da economia sexual sobre o fascismo são hoje ainda mais válidas do que há dez anos. Pelo contrário, os conceitos partidários do marxismo usados neste livro tiveram de ser riscados e substituídos por novos conceitos.

Significa isto que a teoria econômica do marxismo é basicamente falsa? Pretendo responder a esta pergunta com um exemplo. Serão “falsos” o microscópio da época de Pasteur ou a bomba de água que Leonardo da Vinci construiu? O marxismo é uma teoria econômica científica construída com base nas condições sociais existentes nos princípios e meados do século XIX. Mas o processo social, longe de se deter aí, prosseguiu no século XX, numa orientação fundamentalmente diversa. Neste novo processo social, encontramos as características essenciais do século XIX, do mesmo modo que encontramos, no microscópio moderno, a estrutura básica do microscópio de Pasteur e,no atual sistema de canalizações, o princípio básico de Leonardo da Vinci. Mas, hoje, nem o microscópio de Pasteur nem a bomba de Da Vinci têm qualquer utilidade prática. Foram ultrapassados por processos e funções totalmente novos, que correspondem a novas concepções e à moderna tecnologia. Os partidos marxistas da Europa fracassaram e conheceram o declínio (não digo isso com prazer), por terem tentado enquadrar um fenômeno essencialmente novo, como é o fascismo do século XX, em conceitos apropriados ao século XIX. Foram derrotados como organização social porque não souberam manter vivas e desenvolver as possibilidades vitais que cada teoria científica encerra. Não lamento o fato de ter exercido a minha atividade médica durante vários anos, em organizações marxistas. Meu conhecimento da sociedade não provém dos livros, mas foi adquirido essencialmente a partir do meu envolvimento prático na luta das massas humanas por uma existência digna e livre. Os melhores insights no campo da economia sexual decorrem exatamente dos meus próprios erros ao pensar sobre essas massas humanas, os mesmos erros que as tornaram predispostas à peste fascista. Sendo médico, tive muito mais possibilidade de conhecer o trabalhador internacional e seus problemas do que qualquer político partidário. O político não vê mais do que a “classe operária”, em quem pretende “infundir consciência de classe”. Eu, pelo contrário, via o homem como uma criatura que vinha se sujeitando à dominação das piores condições sociais, condições que ele próprio criara, que já faziam parte integrante do seu caráter, e das quais procurava, em vão, se libertar. O abismo que separa a visão puramente econômica da visão biossociológica intransponível. À teoria do “homem de classes” opunha-se a natureza irracional da sociedade do animal “homem”.

Hoje, é do conhecimento geral que as ideias econômicas marxistas penetraram no pensamento do homem moderno, influenciando-o em maior ou menor grau, frequentemente sem que os economistas e sociólogos em questão tenham consciência da origem das suas ideias. Conceitos como “classe”, “lucro”, “exploração”, “luta de classes”, “mercadoria” e “mais-valia” tornaram-se senso comum. Por tudo isso, não existe hoje um único partido que se possa considerar herdeiro e representante vivo do patrimônio científico do marxismo, quando se trata de fatos reais do desenvolvimento sociológico e não de meros chavões que já não correspondem ao seu conteúdo original.

Entre 1937 e 1939, desenvolveu-se sob o enfoque da economia sexual o conceito novo da “democracia do trabalho”. A terceira edição da Psicologia de Massas do Fascismo explica, nas suas características fundamentais, este novo conceito, que contém as melhores descobertas sociológicas do marxismo, válidas até hoje. Ao mesmo tempo, leva em conta as alterações sociais por que passou o conceito de “trabalhador” no decurso dos últimos cem anos. Sei, por experiência própria, que serão precisamente os “únicos representantes da classe operária” e os atuais e futuros “dirigentes do proletariado internacional” que combaterão esta ampliação do conceito social de trabalhador, acusando-o de “fascista”, “trotskista”, “contrarrevolucionário”, “inimigo do partido”, etc. Organizações de trabalhadores que expulsam negros e praticam o hitlerismo não merecem ser considerados como fundadoras de uma sociedade nova e livre. É quando o “hitlerismo” não é exclusivo do partido nazi ou da Alemanha; ele penetra nas organizações de trabalhadores e nos círculos, liberais e democráticos. O fascismo não é um partido político, mas certa concepção de vida e uma atitude perante o homem, o amor e o trabalho. Isso em nada altera o fato de que a política praticada pelos partidos marxistas antes da guerra se esgotou, não tendo qualquer futuro possível. Assim como o conceito de energia sexual se perdeu dentro da organização psicanalítica, vindo a reaparecer, com uma força nova, na descoberta do orgone, também o conceito do trabalhador internacional perdeu o sentido nas práticas dos partidos marxistas, reaparecendo no âmbito da sociologia da economia sexual. Ora, as atividades do economista sexual só são possíveis se estiverem enquadradas no conjunto do trabalho social necessário, e não é possível no âmbito da vida vazia de trabalho, reacionária e mistificadora.

A sociologia baseada na economia sexual nasceu das tentativas para harmonizar a psicologia profunda de Freud com a teoria econômica de Marx. A existência humana é determinada tanto pelos processos instintivos como pelos processos socioeconômicos. Mas as tentativas ecléticas de reunir, arbitrariamente, “instinto” e “economia” devem ser rejeitadas. A sociologia baseada na economia sexual resolve a contradição que levou a psicanálise a esquecer do fator social e o marxismo a esquecer da origem animal do homem. Como já disse em outra ocasião, a psicanálise é a mãe da economia sexual e a sociologia é o pai. Mas um filho é mais do que a soma dos seus pais. É uma criatura viva, nova e independente; é a semente do futuro.

De acordo com a nova acepção econômico-sexual do conceito de “trabalho”, procedemos a algumas alterações na terminologia deste livro. Os conceitos de “comunista”, “socialista”, “consciência de classe”, etc., foram substituídos por termos especificamente sociológicos e psicológicos, tais como “revolucionário” e “científico”. O que eles implicam é “revolução radical”, “atividade racional”, “chegar à raiz das coisas”.

Tais alterações correspondem ao fato de que hoje já não são predominantemente os partidos socialistas e comunistas, mas sim, e em contraste com eles, muitos, agrupamentos não políticos e classes sociais de todas as tendências políticas que revelam uma orientação cada vez mais revolucionária, isto é, que anseiam por uma ordem social inteiramente nova e racional. Passou a fazer parte de nossa consciência social universal — e mesmo os velhos políticos burgueses o dizem — que, como resultado de sua luta contra a peste fascista, o mundo inteiro se envolveu num processo de uma convulsão enorme, internacional, revolucionária. As palavras “proletário” e “proletariado” foram cunhadas há mais de cem anos para designar uma classe social destituída de direitos e mergulhada na miséria. É certo que ainda hoje existem tais categorias, mas os bisnetos dos proletários do século XIX se tornaram trabalhadores industriais especializados, altamente qualificados, indispensáveis e responsáveis, que têm consciência de sua capacidade. O termo “consciência de classe” é substituído por “consciência profissional” ou “responsabilidade social”.

O marxismo do século XIX limitava a “consciência de classe” ao trabalhador manual. Mas os outros trabalhadores, de profissões indispensáveis, eram contrapostos ao “proletariado” e designados como “intelectuais” ou “pequeno-burgueses”. Esta justaposição esquemática, hoje inaplicável, desempenhou um papel muito importante no triunfo do fascismo na Alemanha. O conceito de “consciência de classe” não só é muito limitado, como também não corresponde sequer à estrutura da classe dos trabalhadores manuais. “Trabalho industrial” e “proletariado” foram, por isso, substituídos pelas expressões “trabalho vital” e “trabalhadores”. Estes dois conceitos abrangem todos aqueles que realizam um trabalho vital para a existência da sociedade. Além dos trabalhadores industriais, esses conceitos incluem também médicos, professores, técnicos, escritores, administradores sociais, agricultores, cientistas, etc. Esta nova concepção vem preencher uma lacuna que contribuiu largamente para a atomização da sociedade humana trabalhadora e, consequentemente, levou ao fascismo tanto preto quanto vermelho. A psicologia marxista, desconhecendo a psicologia de massas, opôs o “burguês” ao “proletário”. Isso é psicologicamente errado. A estrutura do caráter não se limita aos capitalistas; atinge igualmente os trabalhadores de todas as profissões. Há capitalistas liberais e trabalhadores reacionários. O caráter não conhece distinções de classe. Por isso, os conceitos puramente econômicos de “burguesia” e “proletariado” foram substituídos pelos conceitos de “reacionário” e “revolucionário” ou “libertário” que se referem ao caráter do homem e não à sua classe social, Esta alteração foi forçada pela peste fascista.

O materialismo dialético, cujos princípios foram desenvolvidos por Engels no Anti-Dürhring, transforma-se em funcionalismo energético. Este progresso foi possibilitado pela descoberta da energia biológica, o orgone (1936-1938). A sociologia e a psicologia adquiriram, assim, uma sólida base biológica, o que não pôde deixar de exercer influência sobre o pensamento. E, com a evolução do pensamento, os velhos conceitos modificaram-se, aparecendo novos conceitos para substituí-los. Assim, o termo marxista, “consciência” foi substituído por “estrutura dinâmica”, “necessidade” por “processos instintivos orgonóticos”, “tradição” por “rigidez biológica e caracteriológica”, etc.

O conceito de “iniciativa privada”, na acepção do marxismo corrente, foi mal interpretado pela irracionabilidade humana, como se o desenvolvimento liberal da sociedade significasse a abolição de toda propriedade privada. Isto foi, evidentemente, aproveitado pela reação política. Ora, desenvolvimento social e liberdade individual nada tem a ver com a chamada abolição da propriedade privada. O conceito marxista de propriedade-privada não se aplicava às camisas, calças, máquinas de escrever, papel higiênico, livros, camas, seguros, residências, propriedades rurais, etc. Esse conceito referia-se exclusivamente à propriedade privada dos meios sociais de produção, isto é, aqueles .que determinam o curso geral da sociedade; em outras palavras, estradas de ferro, centrais hidráulicas e elétricas, minas de carvão, etc. A “socialização dos meios de produção” tornou-se um bicho-papão, exatamente porque foi confundida com a “expropriação privada” de frangos, vestuários, livros, moradias, etc., de acordo com a ideologia dos expropriados. No decurso do século passado, a nacionalização dos meios sociais de produção começou a penetrar a exploração privada em todos os países capitalistas, em uns mais do que em outros.

Como a estrutura do trabalhador e a sua capacidade para a liberdade estivessem muito inibidas para permitir que ele se adaptasse ao rápido desenvolvimento das organizações sociais, o “Estado” encarregou-se de realizar os atos que competiam à “comunidade” dos trabalhadores. Na Rússia Soviética, tida como bastião do marxismo, nada há que se pareça com a “socialização dos meios de produção”. Acontece que os partidos marxistas simplesmente confundiram “socialização” com “nacionalização”. Mostrou-se, nesta guerra, que o governo dos Estados Unidos também tem o direito e os meios de nacionalizar empresas de funcionamento deficiente. A socialização dos meios de produção, a sua transferência de propriedade privada de alguns indivíduos para propriedade social, soa muito menos aterrorizadora se tivermos presente que hoje, em consequência da guerra, existem, nos países capitalistas, relativamente poucos proprietários independentes, enquanto que há muitos trustes responsáveis perante o Estado; e que, além disso, na Rússia Soviética, as indústrias sociais certamente não são geridas pelos seus trabalhadores, mas por grupos de funcionários do Estado. A socialização dos meios sociais de produção só será viável ou possível quando as massas trabalhadoras estiverem estruturalmente maduras, isto é, conscientes de sua responsabilidade para os gerir. Atualmente, as massas, na sua esmagadora maioria, não estão nem dispostas e nem maduras para fazê-lo. E mais: uma socialização de grandes indústrias, no sentido de que passem a ser geridas apenas pelos seus trabalhadores manuais, excluindo do processo os técnicos, engenheiros, diretores, administradores, distribuidores, etc., é sociológica e economicamente absurda. Essa concepção é hoje rejeitada pelos próprios operários. Se assim não fosse, os partidos marxistas há muito teriam conquistado o poder.

Esta é a principal explicação sociológica do fato de a iniciativa privada do século XIX estar se voltando, cada vez mais, para uma economia planificada, em moldes de capitalismo de Estado. Deve-se afirmar claramente que também na Rússia Soviética não existe socialismo de Estado, mas sim um rígido capitalismo de Estado, no sentido rigorosamente marxista da palavra. Segundo Marx, a condição social do “capitalismo” não se origina, como acreditam os marxistas comuns, a partir da existência de capitalistas individuais, mas sim da existência de “modos de produção capitalistas” específicos. Em resumo, origina-se da economia de mercado, e não da “economia de uso”, do trabalho assalariado das massas e da produção de mais-valia, independentemente de esta mais-valia reverter em favor do Estado acima da sociedade, ou em favor de capitalistas individuais, pela apropriação da produção social. Neste sentido estritamente marxista, o sistema capitalista continua a existir na Rússia; e subsistirá enquanto as massas humanas forem dominadas pelo irracionalismo e pelo autoritarismo, como são atualmente.

A psicologia da estrutura, baseada na economia sexual, acrescenta à visão econômica da sociedade uma nova interpretação do caráter e da biologia humana. A eliminação dos capitalistas individuais e a substituição do capitalismo privado pelo capitalismo de Estado na Rússia em nada veio alterar a estrutura do caráter típico, desamparada e subserviente das massas humanas.

Além disso, a ideologia política dos partidos marxistas europeus baseou-se em condições econômicas que correspondiam a um período de cerca de duzentos anos, isto é, do século XVII ao século XIX, no qual a máquina se desenvolveu. Em contrapartida, o fascismo do século XX colocou a questão fundamental do caráter do homem, do misticismo humano e do desejo de autoridade, que cobre um período de quatro a seis milênios. Também nisso o marxismo corrente tentou enfiar um elefante numa toca de raposa. A estrutura humana, da qual trata a sociologia da economia sexual, não se desenvolveu nos últimos duzentos anos; ao contrário, reflete uma civilização patriarcal autoritária de muitos milênios. Na realidade, a economia sexual vai ao ponto de afirmar que os abomináveis excessos da era capitalista, nos últimos trezentos anos (imperialismo predatório, defraudação do trabalhador, opressão racial, etc.), apenas foram possíveis porque a estrutura humana das incríveis massas que suportaram tudo isso se tornou totalmente dependente da autoridade, incapaz de liberdade e extremamente acessível ao misticismo. O fato de esta estrutura ter sido criada pelas condições sociais e pela doutrinação, não sendo, portanto, uma característica inata no homem, em nada altera os seus efeitos, mas aponta para uma saída chamada “reestruturação”. O ponto de vista da biofísica, baseada na economia sexual, é, portanto, muito mais radical, no sentido estrito e positivo da palavra, do que o do marxismo, corrente, se se entende por ser radical o “ir à raiz de todas as coisas”.

De tudo isto se conclui que é tão impossível superar a peste fascista com as medidas sociais adotadas nos últimos trezentos anos como enfiar um elefante (seis mil anos) numa toca de raposa (300 anos).

A descoberta da democracia do trabalho natural biológica nas relações humanas internacionais deve ser considerada como a resposta ao fascismo. Isto é verdadeiro mesmo que nenhum economista sexual, biofísico orgônico ou democrata do trabalho dos nossos dias viva o tempo suficiente para constatar sua completa realização e seu triunfo sobre a irracionalidade na vida social.

Wilhelm Reich

Maine (EUA),

agosto de 1942

O Gigante na Caverna Escura - Retrocesso à Vista




Hildegard Angel, jornalista e blogueira, fez um alerta na manhã desta quarta-feira que se concretizou à noite. A mídia conseguiu insuflar um ódio tão grande na classe média que seus filhos agora decidiram quebrar tudo. Manifestações se converteram em catarses de ódio e destruição. Se o povo for contaminado por essa onda de violência, o país poderá viver um período de quase guerra civil. Acho que vale a pena ouvir a opinião de Angel, que é uma pessoa sensata e profundamente preocupada com o bem estar do povo brasileiro.

‘PRIMAVERA À BRASILEIRA’: RADICALISMO SEM CONTROLE E, ORGANIZADOS, APENAS O CRIME E OS PENTECOSTAIS

O que me impressionou não foi o índice alto de acessos à crônica publicada aqui sobre o casamento “Bastilha” no Copacabana Palace, mas a reação raivosa, odienta, sangue na boca, de tantos e tantos que se manifestaram e ainda se manifestam.

Isso só fez reforçar minha convicção de que o momento é extremamente grave, e precisamos disso ter consciência. O radicalismo toma conta do país. Digo mais: estamos às vésperas de entrar numa guerra civil.

Fomentado pela grande mídia, o ódio da classe média manifesta-se nas mídias sociais, nas ruas, nas cartas aos jornais, nos bares, nas conversas.

Num projeto golpista, temendo a continuidade do governo PT, uma mídia irresponsável, inconsequente, com sua curta visão, fez sua audiência acreditar que todos os males crônicos do Brasil advêm da era Lula.

Corrupção, crise hospitalar, deficiência do ensino, do saneamento, mazelas que somam pelo menos cinco décadas de omissões em gestões sucessivas, se é que podemos chamá-las de “gestões”, são debitadas aos governos petistas, justamente aqueles que apresentaram e apresentam os melhores resultados no desenvolvimento econômico, na política externa, na qualidade de vida, na justiça social, no reconhecimento internacional, na distribuição de renda e em inúmeros outros méritos.

Tanto fizeram, tanto insistiram, numa campanha de tal forma poderosa, insidiosa, obsessiva, continuada, que conseguiram chegar ao cenário que pretendiam: o país desmoralizado internacionalmente, a presidenta impopular, a economia em queda, manifestações nas ruas.

Cegos, imprevidentes, imprudentes, os donos desta mídia, os membros desta sigla, PIG – de Partido da Imprensa Golpista – acabam por dar o Golpe neles próprios, pois a primeira vítima é ela mesma, a mídia, que acendeu o fósforo, mas quem jogou a gasolina foi o Facebook, foi o Google. Só então a grande e forte mídia brasileira percebeu o quão é pequena e frágil, uma formiguinha, perto das redes sociais.

E deu no que deu: para cobrir as manifestações, só com os repórteres no alto dos prédios, dialogando com os cinegrafistas no alto dos helicópteros. Se chegassem às ruas, eram escorraçados, enxovalhados, linchados. Os microfones, pelados: não podiam exibir logomarca de emissora.

Daí que essa campanha que agora vemos em grandes jornais e redes de TV contra a espionagem americana não é por nacionalismo, é por interesses econômicos. Nossos big shots das comunicações abriram, enfim, os olhos e se deram conta de que o Google já fatura 50 bi contra 120 bi da mídia mundial. É uma fatia muito grande, não?

Porém, o leite derramado está: como frear esse ódio, essa sede incontrolável de vingança contra os ricos, e de modo indiscriminado, em que o joio é misturado ao trigo? Corruptos aos íntegros? Tudo junto e misturado: dinheiro ganho por debaixo dos panos sujos e dinheiro conquistado sob o lenço encharcado do suor do trabalho? Quem vai conseguir puxar esse freio?

Na hora da raiva generalizada, a riqueza dos outros é toda igual. Com o ódio vem o ressentimento das classes, das diferenças, da inveja, da ganância do bem do próximo. É o vale tudo de rua contra rua, bairro contra bairro, vizinho contra vizinho, parente contra parente, irmão contra irmão.

E quando essa ira da classe média se alastrar até os pobres, os muito pobres, os miseráveis, os iletrados, quem vai conduzi-los? Quem tem liderança, neste momento, em nosso país? Quem são nossas lideranças?

Os movimentos nas ruas já mostraram que não há quem os guie. As centrais sindicais convocaram greve geral e foi um fiasco. Não lideram mais. Os movimentos estudantis, igual. Acomodaram-se nestes 10 anos de ante sala do poder. O PT, nem se fala, bem como os partidos aliados do governo. Acostumados a ser oposição desde sua origem, desmobilizaram suas “massas” e não as entusiasmam mais com a mesma intensidade e velocidade de antes.

Os partidos de oposição, DEM, tucanos e correlatos, de elite, não têm liderança popular, nem sabem ter. Botam na rua, se muito, alguns gatos pingados. Agem na base da intriga dos punhos de renda, dos corredores, cochichando coisas nos ouvidos e nos IPhones dos editores de revistas e colunistas de jornais. Não são povo.

As únicas lideranças com poder de mobilização no país na atualidade são: 1) O Crime Organizado.; 2) As Seitas Pentecostais (Igrejas Evangélicas). Escolha seu líder…
O Crime Organizado já disse a que veio nas manifestações. São as milícias que vandalizam, a Polícia Federal já identificou. Há vídeo de policiais trocando as fardas por roupa de civis para em seguida se misturarem às passeatas. Na agitação com coquetel Molotov em frente do Maracanã, no dia do jogo da Copa das Confederações, o grupo era de milicianos, a Polícia apurou.

Com o povo nas ruas, as milícias no Rio de Janeiro retomaram sua força perdida, se reorganizaram. A ausência do secretário Beltrame neste processo de retomar o controle da situação está sendo vista, pelos observadores, como sua recusa de participar de qualquer tipo de “acordo” com essa turma para restabelecer a “ordem”.

Um retrocesso. É isso que a grande mídia do golpe conseguiu produzir para o país. O PIG. Manipulando a atração juvenil pelas ruas. Incensando, insuflando o ódio da classe média contra a classe operária, contra o analfabetismo dos “lulas”. Projetando uma imagem desfocada da realidade nacional, ao atribuir aos governos do PT as mazelas absolutas e a exclusividade da corrupção no país desde o seu Descobrimento.

O PIG atirou no próprio pé. Se a palavra, em inglês, não significasse Porco, eu o chamaria de Burro.

Por tudo, recomendo muita calma. Sugiro cautela. Bom senso, cabeça fria. O momento é tenso. Estamos às vésperas de o povo, o povão verdadeiro, embarcar nessa onda revoltosa, podendo se transformar numa Tsunami avassaladora, levando tudo e todos de roldão.

Para o Dia 7 de Setembro, está sendo convocada, com estardalhaço, grande manifestação nacional. Vão tentar uma “Primavera à Brasileira”. Depois disso, tudo poderá acontecer

Por: Miguel do Rosário

domingo, 14 de julho de 2013

Fukushima - Oceano Pacífico em Perigo


Fukushima Situation Normal, in The SNAFU Sense of "Normal"

Bad as the situation is at Fukushima, it's gotten worse.



Perhaps you've heard that radiation levels of the water leaving the Fukushima, Japan, nuclear power plane and flowing into the Pacific Ocean have risen by roughly 9,000 per cent. Turns out, that's probably putting a good face on it. 

By official measurement, the water coming out of Fukushima is currently 90,000 times more radioactive than officially "safe" drinking water. 

These are the highest radiation levels measured at Fukusmima since March 2011, when an earthquake-triggered tsunami destroyed the plant's four nuclear reactors, three of which melted down.

As with all nuclear reporting, precise and reliable details are hard to come by, but the current picture as of July 10 seems to be something like this: 

" On July 5, radiation levels at Fukushima were what passes for "normal," which means elevated and dangerous, but stable, according to measurements by the owner, the Tokyo Electric Power Company (TEPCO). 

" On July 8, radiation levels had jumped about 90 times higher, as typically reported. TEPCO had no explanation for the increase. 

" On July 9, radiation levels were up again from the previous day, but at a slower rate, about 22 per cent. TEPCO still had no explanation. 

" On July 10, Japan's Nuclear Regulation Authority (NRA) issued a statement saying that the NRA strongly suspects the radioactive water is coming from Fukushima's Reactor #1 and is going into the Pacific. 

We Must Do Something About This Thing With No Impact

"We must find the cause of the contamination . . . and put the highest priority on implementing countermeasures," NRA Chairman Shunichi Tanaka told an NRA meeting, according to Japan Times. 


sábado, 13 de julho de 2013

Assange - Rompendo o Sitio da Internet na América do Sul



O que começou como meio para preservar a liberdade individual pode agora ser usado por Estados menores, para frustrar as ambições dos maiores.

O cypherpunks originais eram, na maioria, californianos libertaristas. Eu vim de tradição diferente, onde todos nós buscávamos proteger a liberdade individual contra a tirania do Estado. Nossa arma secreta era a criptografia. Já se esqueceu o quanto isso foi subversivo. A criptografia, então, era propriedade exclusiva dos Estados, para uso em suas muitas guerras. Ao escrever nossos próprios programas e distribuí-los o mais amplamente possível, liberamos a criptografia, a democratizamos e a espalhamos pelas fronteiras da nova internet.

A reação contra, sob várias leis “de tráfico de armas”, falhou. A criptografia se difundiu nos browsers da rede e em outros programas que, hoje, as pessoas usam diariamente. Criptografia forte é ferramenta vital na luta contra a opressão pelo Estado. Essa é a mensagem do meu livro Cypherpunks. Mas o movimento para disponibilizar universalmente uma criptografia forte tem de trabalhar para obter mais do que isso. Nosso futuro não está apenas na liberdade para os indivíduos.

Nosso trabalho em WikiLeaks implica compreensão semelhante da dinâmica da ordem internacional e da lógica do império. Durante o período de formação de WikiLeaks, encontramos evidências de pequenos países abusados e dominados por países maiores, ou infiltrados por empresas de fora, forçados agir contra eles próprios. Vimos o desejo popular ao qual não se dava voz e expressão, eleições compradas e vendidas, e países ricos, como o Quênia, assaltados e leiloados por plutocratas em Londres e em New York.

A luta pela autodeterminação latino-americana é importante para muito mais gente do que os que vivem na América Latina, porque mostra ao resto do mundo o que pode ser feito. Mas a independência da América Latina ainda engatinha. Tentativas para subverter a democracia latino-americana ainda acontecem, inclusive recentemente, em Honduras, Haiti, Equador e Venezuela.

Por isso, a mensagem dos cypherpunks tem importância especial para os públicos latino-americanos. A vigilância em massa não é só problema para a governança e a democracia — é uma questão geopolítica. Se a população de um país inteiro é vigiada por país estrangeiro, há ameaça contra a soberania. Intervenção após intervenção nos assuntos da democracia na América Latina ensinaram-nos a ser realistas. Sabemos que os velhos poderes ainda explorarão, para benefício deles, qualquer possibilidade de retardar ou suprimir a eclosão da independência latino-americana.

Considere-se a simples geografia. Todos sabem que os recursos em petróleo regem a geopolítica global. O fluxo do petróleo determina quem é dominante, quem é invadido, quem é posto em ostracismo fora da comunidade global. O controle físico sobre um segmento de oleoduto define maior poder geopolítico. Governos que se ponham nessa posição podem obter concessões gigantescas. Num golpe, o Kremlin pode condenar a Europa Oriental e a Alemanha a um inverno sem calefação. E até a possibilidade de Teerã controlar um oleoduto para o leste, até Índia e China, é pretexto para a lógica belicosa de Washington.

Mas o novo grande jogo não é a guerra por oleodutos. É a guerra pelos dutos pelos quais viaja a informação: o controle sobre as vias de cabos de fibras óticas que se espalham pela terra e pelo fundo dos mares. O novo tesouro global é o controle do fluxo gigante de dados que conecta todos os continentes e civilizações, conectando as comunicações de bilhões de pessoas e empresas.

Não é segredo que, na Internet e no telefone, todas as rotas que entram e saem da América Latina passam pelos EUA. A infraestrutura da Internet dirige 99% do tráfego que entra e que sai da América do Sul por linhas de fibras óticas que atravessam fisicamente fronteiras dos EUA. O governo dos EUA não mostrou qualquer escrúpulo quanto a quebrar sua própria lei e plantar escutas clandestinas nessas linhas e espionar os seus próprios cidadãos. Todos os dias, centenas de milhões de mensagens de todo o continente latino-americano são devoradas por agências de espionagem dos EUA, e depositadas para sempre em armazéns do tamanho de pequenas cidades. Os fatos geográficos sobre a infraestrutura da internet, portanto, têm consequências sobre a independência e a soberania da América Latina.

O problema também transcende a geografia. Muitos governos e militares latino-americanos protegem seus segredos com maquinário de criptografia. São caixas e programas que “desmontam” as mensagens na origem e as “remontam” no destino. Os governos compram essas máquinas e programas para proteger seus segredos — quase sempre o próprio povo paga (caro) —, porque temem, corretamente, que suas comunicações sejam interceptadas.

Mas as empresas que vendem esses equipamentos e programas caros mantêm laços estreitos com a comunidade de inteligência dos EUA. Seus presidentes e altos executivos são quase sempre matemáticos e engenheiros da NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA) capitalizando as invenções que eles mesmos criaram para o Estado de Vigilância. Não raras vezes, as máquinas que vendem são quebradas: quebradas propositalmente, por uma razão. Não importa quem as use ou como as usem — as agências dos EUA conseguem “remontar” os sinais e leem as mensagens.

Esse equipamento é vendido para a América Latina e outros países como útil para proteger os segredos do comprador, mas são, de fato, máquinas para roubar aqueles segredos.

Enquanto isso, os EUA aceleram a próxima grande corrida armamentista. A descoberta do vírus Stuxnet vírus — e depois dos vírus Duqu e Flame — marca o início de uma nova era de programas complexos usados como arma, que Estados poderosos fabricam para atacar estados mais fracos. A primeira ação agressiva contra o Irã visou a minar os esforços daquele país com vistas a defender sua soberania — ideia que é anátema para os interesses de EUA e de Israel na região.

Longe vai o tempo em que usar vírus de computador como arma de ataque era peripécia de romance de ficção científica. Agora, é realidade global, que se espalha graças ao comportamento leviano do governo de Barack Obama, em violação da lei internacional. Outros estados agora por-se-ão na mesma trilha, aumentando a própria capacidade de ataque.

Os EUA não são os únicos culpados. Em anos recentes, a infraestrutura de internet de países como Uganda tem recebido grandes investimentos chineses. Gordos empréstimos chegam, em troca de contratos africanos para que empresas chinesas construam a espinha dorsal da infraestrutura de internet ligando escolas, ministérios do governo e comunidades ao sistema global de fibra ótica.

A África vai-se conectando online, mas com máquinas vendidas por potência estrangeira aspirante ao status de superpotência. A internet africana será o meio pelo qual o continente continuará subjugado no século 21?

Essas são algumas das importantes vias pelas quais a mensagem dos cypherpunks vai além da luta pela liberdade individual. A criptografia pode proteger não só as liberdades civis e os direitos individuais, mas a soberania e a independência de países inteiros, a solidariedade entre grupos que lutem por causa comum, e o projeto da emancipação global. Pode ser usada para enfrentar não só a tirania do estado contra o indivíduo, mas a tirania do império contra estados menores.

O grande trabalho dos cypherpunks ainda está por fazer. Junte-se a nós.



Leia outros textos de Outras Palavras

Snownden e o Apanhador de Sonhos

Declaração de Edward Snowden divulgada pelo Wikileaks




(tradução de Flávio Aguiar)

"Olá, meu nome é Ed Snowden. Há pouco mais de um mês, eu tinha família, um lar no Paraíso, e vivia com muito conforto. Eu também tinha a capacidade de, sem qualquer autorização, para procurar, tomar e ler as suas mensagens. Na verdade, as mensagens de qualquer pessoa, a qualquer momento. Este é o poder que mudar o destino das pessoas.
Também é uma séria violação da lei. As emendas 4 e 5 da Constituição do meu país, o artigo 12 da Declaração Universal dfos Direitos Humanos, e numerosos estatutos e tratados proíbem tais sistemas de vigilância massiva e invasiva. Enquanto a Constituição dos Estados Unidos assinala que estes programas são ilegais, o meu governo argumenta que juízos de um tribunal secreto, que o mundo não pode ver, de alguma forma legitima esta atividade ilegal. Estes juízos simplesmente corrompem a noção mais básica de justiça, que precisa ser revelado. Algo imoral não pode se tornar moral através do uso de uma lei secreta.

Eu acredito no princípio declarado em Nuremberg, em 1945: “Indivíduos têm deveres internacionais que transcendem as obrigações nacionais de independência. Portanto cidadãos individuais têm o dever de violar leis domésticas para impedir a ocorrência de crimes contra a paz e a humanidade.

Conforme esta crença, fiz o que eu acreditava ser certo e comecei uma campanha para corrigir estas ações erradas. Não procurei enriquecer, nem vender segredos dos estados Unidos. Não me aliei a qualquer país estrangeiro para garantir a minha segurança. Ao invés, revelei o que eu conhecia ao público, de tal modo que aquilo que afeta as todos nós possa ser discutido por todos nós à luz do dia, e pedi justiça ao mundo.
A decisão moral de tornar pública a espionagem que nos afeta a todos me custou muito, mas era o correto a fazer, e não me arrependo de nada.

Desde então o governo e os serviços de inteligência dos Estados Unidos vêm tentando fazer de mim um exemplo, um aviso para todos aqueles que quiserem vir a público como eu vim, O governo dos EUA me colocou numa lista de impedidos de viajar. Pediu a Hong Kong que me deportasse de volta, à margem de suas leis, numa clara violação do princípio de proteção – na Lei das Nações. Ameaçou com sanções países que defenderam meus direitos humanos e o sistema de asilo previsto pela ONU. Tomou inclusive a decisão sem precedentes de ordenar a aliados militares que forçassem o pouso de um avião presidencial latino-americano, na busca por um refugiado político. Esta escalação perigosa representa uma ameaça não só para a dignidade da América Latina, mas aos direitos fundamentais compartilhados por qualquer pessoa, qualquer nação, no sentido de viver sem perseguições, de procurar e desfrutar de asilo.

Ainda assim, diante desta agressão historicamente desproporcional, países ao redor do mundo me ofereceram apoio e asilo. Estas nações – inclusive a Rússia, a Venezuela, a Nicarágua, a Bolívia e o Equador, têm minha gratidão e respeito por serem as primeiras a se erguer contra a violação de direitos humanos levada a cabo pelos poderosos, não pelos indefesos. Por recusarem a comprometer seus princípios diante das intimidações, ganharam o respeito do mundo. Tenho a intenção de viajar a cada um destes países para levar pessoalmente meus agradecimentos a seus povos e líderes.

Anuncio hoje minha aceitação formal de todas as ofertas de apoio e asilo que foram feitas, e todas que forem feitas no futuro. Com, por exemplo, a garantia de asilo concedido pelo presidente Maduro da Venezuela, minha condição de asilado agora está formalizada, e nenhum estado tem base legal para limitar ou interferir com meu direito de desfrutar deste asilo. Porém, como já vimos, alguns países na Europa Ocidental e os Estados Unidos demonstraram sua disposição de atuar por fora da lei, e esta disposição ainda está de pé hoje. Esta ameaça fora da lei torna impossível minha viagem à América Latina para desfrutar do asilo lá concedido segundo nossos direitos comuns.

A disposição de estados poderosos de agir à margem da lei representa uma ameaça para todos nós e não se deve permitir que ela tenha sucesso. Portanto, peço vossa ajuda [a organizações humanitárias] no sentido de garantir o direito de passagem em segurança através das nações pertinentes, para assegurar minha viagem à América Latina, bem como no sentido de pedir asilo na Rússia até que estes estados aceitem a lei e que minha meu direito legal de viajar seja permitido. Estarei apresentando meu pedido [de asilo] à Rússia hoje, e eu espero que ele seja aceito.

Se vocês têm quaisquer perguntas, responderei na medida do meu alcance.

Obrigado




terça-feira, 9 de julho de 2013

FHC - Vendeu a Mãe Pátria e foi ao Cinema


Dinheiro da CIA para FHC





Sebastião Nery

“Numa noite de inverno do ano de 1969, nos escritórios da Fundação Ford, no Rio, Fernando Henrique teve uma conversa com Peter Bell, o representante da Fundação Ford no Brasil. Peter Bell se entusiasma e lhe oferece uma ajuda financeira de 145 mil dólares. Nasce o Cebrap”.

Esta história, assim aparentemente inocente, era a ponta de um iceberg. Está contada na página 154 do livro “Fernando Henrique Cardoso, o Brasil do possível”, da jornalista francesa Brigitte Hersant Leoni (Editora Nova Fronteira, Rio, 1997, tradução de Dora Rocha). O “inverno do ano de 1969″ era fevereiro de 69.

***
FUNDAÇÃO FORD

Há menos de 60 dias daquele fevereiro de 69, em 13 de dezembro de 68 a ditadura havia lançado o AI-5 e jogado o País no máximo do terror do golpe de 64, desde o início financiado, comandado e sustentado pelos Estados Unidos. Centenas de novas cassações e suspensões de direitos políticos estavam sendo assinadas. As prisões, lotadas. Até Juscelino e Lacerda tinham sido presos.

E Fernando Henrique recebia da poderosa e notória Fundação Ford uma primeira parcela de 145 mil dólares para fundar o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). O total do financiamento nunca foi revelado. Na Universidade de São Paulo, sabia-se e se dizia que o compromisso final dos americanos era de 800 mil a um milhão de dólares. Era muito dinheiro, naquela época, com o dólar supervalorizado.




***
AGENTE DA CIA

Os americanos não estavam jogando dinheiro pela janela. Fernando Henrique já tinha serviços prestados. Eles sabiam em quem estavam aplicando sua grana. Com o economista chileno Faletto, Fernando Henrique havia acabado de lançar o livro “Dependência e desenvolvimento na América Latina”, em que os dois defendiam a tese de que países em desenvolvimento ou mais atrasados poderiam desenvolver-se mantendo-se dependentes de outros países mais ricos. Como os Estados Unidos.

Montado na cobertura e no dinheiro dos gringos, Fernando Henrique logo se tornou uma “personalidade internacional” e passou a dar “aulas” e fazer “conferências” em universidades norte-americanas e européias.

Era “um homem da Fundação Ford”. E o que era a Fundação Ford? Uma agente da CIA, um dos braços da CIA, o serviço secreto dos EUA.

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QUEM PAGOU

Em 2008, chegou às livrarias brasileiras um livro interessantíssimo, indispensável, que tira a máscara da Fundação Ford e, com ela, a de Fernando Henrique e muita gente mais: “Quem pagou a conta? A CIA na guerra fria da cultura”, da pesquisadora inglesa Frances Stonor Saunders (editado no Brasil pela Record, tradução de Vera Ribeiro).

Quem “pagava a conta” era a CIA, quem pagou os 145 mil dólares (e os outros) entregues pela Fundação Ford a Fernando Henrique foi a CIA. Não dá para resumir em uma coluna de jornal um livro que é um terremoto. São 550 páginas documentadas, minuciosa e magistralmente escritas:

“Consistente e fascinante” (“The Washington Post”). “Um livro que é uma martelada, e que estabelece em definitivo a verdade sobre as atividades da CIA” (“Spectator”). “Uma história crucial sobre as energias comprometedoras e sobre a manipulação de toda uma era muito recente” (“The Times”).

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MILHÕES DE DÓLARES

1 – “A Fundação Farfield era uma fundação da CIA… As fundações autênticas, como a Ford, a Rockefeller, a Carnegie, eram consideradas o tipo melhor e mais plausível de disfarce para os financiamentos… permitiu que a CIA financiasse um leque aparentemente ilimitado de programas secretos de ação que afetavam grupos de jovens, sindicatos de trabalhadores, universidades, editoras e outras instituições privadas” (pág. 153).

2 – “O uso de fundações filantrópicas era a maneira mais conveniente de transferir grandes somas para projetos da CIA, sem alertar para sua origem. Em meados da década de 50, a intromissão no campo das fundações foi maciça…” (pág. 152). “A CIA e a Fundação Ford, entre outras agências, haviam montado e financiado um aparelho de intelectuais escolhidos por sua postura correta na guerra fria” (pág. 443).

3 – “A liberdade cultural não foi barata. A CIA bombeou dezenas de milhões de dólares… Ela funcionava, na verdade, como o ministério da Cultura dos Estados Unidos… com a organização sistemática de uma rede de grupos ou amigos, que trabalhavam de mãos dadas com a CIA, para proporcionar o financiamento de seus programas secretos” (pág. 147).

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FHC FACINHO

4 – “Não conseguíamos gastar tudo. Lembro-me de ter encontrado o tesoureiro. Santo Deus, disse eu, como podemos gastar isso? Não havia limites, ninguém tinha que prestar contas. Era impressionante” (pág. 123).

5 – “Surgiu uma profusão de sucursais, não apenas na Europa (havia escritorios na Alemanha Ocidental, na Grã-Bretanha, na Suécia, na Dinamarca e na Islândia), mas também noutras regiões: no Japão, na Índia, na Argentina, no Chile, na Austrália, no Líbano, no México, no Peru, no Uruguai, na Colômbia, no Paquistão e no Brasil” (pág. 119).

6 – “A ajuda financeira teria de ser complementada por um programa concentrado de guerra cultural, numa das mais ambiciosas operações secretas da guerra fria: conquistar a intelectualidade ocidental para a proposta norte-americana” (pág. 45). Fernando Henrique foi facinho.



Fonte: Tribuna da Imprensa - http://heliofernandes.com.br/?p=29078 

FHC - A Quinta Coluna no Brasil



Os telegramas da diplomacia dos EUA revelados pelo Wikileaks revelaram que a Casa Branca toma ações concretas para impedir, dificultar e sabotar o desenvolvimento tecnológico brasileiro em duas áreas estratégicas: energia nuclear e tecnologia espacial. Em ambos os casos, observa-se o papel anti-nacional da grande mídia brasileira, bem como escancara-se, também sem surpresa, a função desempenhada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, colhido em uma exuberante sintonia com os interesses estratégicos do Departamento de Estado dos EUA, ao tempo em que exibe problemática posição em relação à independência tecnológica brasileira. Segue o artigo do jornalista Beto Almeida.

O primeiro dos telegramas divulgados, datado de 2009, conta que o governo dos EUA pressionou autoridades ucranianas para emperrar o desenvolvimento do projeto conjunto Brasil-Ucrânia de implantação da plataforma de lançamento dos foguetes Cyclone-4 – de fabricação ucraniana – no Centro de Lançamentos de Alcântara , no Maranhão.

Veto imperial

O telegrama do diplomata americano no Brasil, Clifford Sobel, enviado aos EUA em fevereiro daquele ano, relata que os representantes ucranianos, através de sua embaixada no Brasil, fizeram gestões para que o governo americano revisse a posição de boicote ao uso de Alcântara para o lançamento de qualquer satélite fabricado nos EUA. A resposta americana foi clara. A missão em Brasília deveria comunicar ao embaixador ucraniano, Volodymyr Lakomov, que os EUA “não quer” nenhuma transferência de tecnologia espacial para o Brasil.

“Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil”, diz um trecho do telegrama.

Em outra parte do documento, o representante americano é ainda mais explícito com Lokomov: “Embora os EUA estejam preparados para apoiar o projeto conjunto ucraniano-brasileiro, uma vez que o TSA (acordo de salvaguardas Brasil-EUA) entre em vigor, não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil”.


Guinada na política externa


O Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA (TSA) foi firmado em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, mas foi rejeitado pelo Senado Brasileiro após a chegada de Lula ao Planalto e a guinada registrada na política externa brasileira, a mesma que muito contribuiu para enterrar a ALCA. Na sua rejeição o parlamento brasileiro considerou que seus termos constituíam uma “afronta à Soberania Nacional”. Pelo documento, o Brasil cederia áreas de Alcântara para uso exclusivo dos EUA sem permitir nenhum acesso de brasileiros. Além da ocupação da área e da proibição de qualquer engenheiro ou técnico brasileiro nas áreas de lançamento, o tratado previa inspeções americanas à base sem aviso prévio.

Os telegramas diplomáticos divulgados pelo Wikileaks falam do veto norte-americano ao desenvolvimento de tecnologia brasileira para foguetes, bem como indicam a cândida esperança mantida ainda pela Casa Branca, de que o TSA seja, finalmente, implementado como pretendia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, não apenas a Casa Branca e o antigo mandatário esforçaram-se pela grave limitação do Programa Espacial Brasileiro, pois neste esforço algumas ONGs, normalmente financiadas por programas internacionais dirigidos por mentalidade colonizadora, atuaram para travar o indispensável salto tecnológico brasileiro para entrar no seleto e fechadíssimo clube dos países com capacidade para a exploração econômica do espaço sideral e para o lançamento de satélites. Junte-se a eles, a mídia nacional que não destacou a gravíssima confissão de sabotagem norte-americana contra o Brasil, provavelmente porque tal atitude contraria sua linha editorial historicamente refratária aos esforços nacionais para a conquista de independência tecnológica, em qualquer área que seja. Especialmente naquelas em que mais desagradam as metrópoles.
Bomba! Bomba!

O outro telegrama da diplomacia norte-americana divulgado pelo Wikileaks e que também revela intenções de veto e ações contra o desenvolvimento tecnológico brasileiro veio a tona de forma torta pela Revista Veja, e fala da preocupação gringa sobre o trabalho de um físico brasileiro, o cearense Dalton Girão Barroso, do Instituto Militar de Engenharia, do Exército. Giráo publicou um livro com simulações por ele mesmo desenvolvidas, que teriam decifrado os mecanismos da mais potente bomba nuclear dos EUA, a W87, cuja tecnologia é guardada a 7 chaves.

A primeira suspeita revelada nos telegramas diplomáticos era de espionagem. E também, face à precisão dos cálculos de Girão, de que haveria no Brasil um programa nuclear secreto, contrariando, segundo a ótica dos EUA, endossada pela revista, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, firmado pelo Brasil em 1998, Tal como o Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA, sobre o uso da Base de Alcântara, o TNP foi firmado por Fernando Henrique. Baseado apenas em uma imperial desconfiança de que as fórmulas usadas pelo cientista brasileiro poderiam ser utilizadas por terroristas , os EUA, pressionaram a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que exigiu explicações do governo Brasil , chegando mesmo a propor o recolhimento-censura do livro “A física dos explosivos nucleares”. Exigência considerada pelas autoridades militares brasileiras como “intromissão indevida da AIEA em atividades acadêmicas de uma instituição subordinada ao Exército Brasileiro”.

Como é conhecido, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, vocalizando posição do setor militar contrária a ingerências indevidas, opõe-se a assinatura do protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que daria à AIEA, controlada pelas potências nucleares, o direito de acesso irrestrito às instalações nucleares brasileiras. Acesso que não permitem às suas próprias instalações, mesmo sendo claro o descumprimento, há anos, de uma meta central do TNP, que não determina apenas a não proliferação, mas também o desarmamento nuclear dos países que estão armados, o que não está ocorrendo.

Desarmamento unilateral

A revista publica providencial declaração do físico José Goldemberg, obviamente, em sustentação à sua linha editorial de desarmamento unilateral e de renúncia ao desenvolvimento tecnológico nuclear soberano, tal como vem sendo alcançado por outros países, entre eles Israel, jamais alvo de sanções por parte da AIEA ou da ONU, como se faz contra o Irã. Segundo Goldemberg, que já foi secretário de ciência e tecnologia, é quase impossível que o Brasil não tenha em andamento algum projeto que poderia ser facilmente direcionado para a produção de uma bomba atômica. Tudo o que os EUA querem ouvir para reforçar a linha de vetos e constrangimentos tecnológicos ao Brasil, como mostram os telegramas divulgados pelo Wikileaks. Por outro lado, tudo o que os EUA querem esconder do mundo é a proposta que Mahmud Ajmadinejad , presidente do Irà, apresentou à Assembléia Geral da ONU, para que fosse levada a debate e implementação: “Energia nuclear para todos, armas nucleares para ninguém”. Até agora, rigorosamente sonegada à opinião pública mundial.

Intervencionismo crescente


O semanário também publica franca e reveladora declaração do ex-presidente Cardoso : “Não havendo inimigos externos nuclearizados, nem o Brasil pretendendo assumir uma política regional belicosa, para que a bomba?” Com o tesouro energético que possui no fundo do mar, ou na biodiversidade, com os minerais estratégicos abundantes que possui no subsolo e diante do crescimento dos orçamentos bélicos das grandes potências, seguido do intervencionismo imperial em várias partes do mundo, desconhecendo leis ou fronteiras, a declaração do ex-presidente é, digamos, de uma candura formidável.

São conhecidas as sintonias entre a política externa da década anterior e a linha editorial da grande mídia em sustentação às diretrizes emanadas pela Casa Branca. Por isso esses pólos midiáticos do unilateralismo em processo de desencanto e crise se encontram tão embaraçados diante da nova política externa brasileira que adquire, a cada dia, forte dose de justeza e razoabilidade quanto mais telegramas da diplomacia imperial como os acima mencionados são divulgados pelo Wikileaks.

Plano Brasil