Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social ) como todo o corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e retrata uma realidade, que lhe é exterior. Tudo o que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo o que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia
(Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia de Linguagem)
Alguns comentários sobre o meio e a mensagem na internet.

quarta-feira, 25 de março de 2015

O Ser Alienado pela Internet


25/03/2015 - Copyleft

A nova fase da Sociedade do Espetáculo

O espetáculo é a fase extrema do processo de alienação, impondo uma redução da vida humana e social à simples aparência mediada pelas novas mídias.




Primeira definição: quem são os “coisa”. O poeta Carlos Drumond de Andrade diz o seguinte no poema Eu Etiqueta: com que inocência demito-me de ser / eu que antes era e não sabia / agora sou anúncio / ora vulgar ora bizarro / peço que meu nome retifiquem / já não me convém o título de homem / meu novo nome é coisa / eu sou a coisa, coisamente.

Este é um texto sobre a sociedade do espetáculo, a sociedade do consumo e das influências dos meios eletrônicos – televisão, internet, redes sociais – na mente das pessoas, escrito e inspirado na domingueira do ódio explícito do dia 15 de março, na semana que a Organização Mundial da Saúde realizou uma conferência na Suíça onde anunciou a existência de 47 milhões de idosos afetados por demência mental, número que poderá triplicar nos próximos anos – sempre é bom lembrar que 5% da população humana atualmente, ou seja, 350 milhões sofrem de depressão.

A influência da era digital no cotidiano do mundo globalizado não é uma questão de comunicação, é algo muito mais complexo. Várias pesquisas já apontam a dependência de jovens e adultos do ciberespaço. Nos Estados Unidos o índice varia de 13 a 18%, entre jovens na faixa dos 20 anos. No Brasil uma pesquisa de Jefferson Cabra Azevedo, da Universidade do Norte Fluminense realizada com 7.500 jovens do ensino secundário de Macaé apontou o índice de 13,08%. Porém, o problema envolve realmente mudanças nas articulações do cérebro provocadas pelo uso intensivo dos meios digitais. Como explica o pesquisador Jefferson Azevedo:

“-Vive-se na era da informação, de rápidas mudanças nas estruturas sociais e em suas relações, tornou-se evidente que as atuais tecnologias e suas aplicações possibilitam novos arranjos sociais e psíquicos, mudando paulatinamente o comportamento individual e coletivo. Esta nova tecnologia se entranha e se ramifica nas mais variadas concepções, tornando-nos dependentes, não apenas no sentido patalógico, mas, principalmente por permear nossas manifestações culturais, econômicas, sociais e psicológicas”.

Cérebro não é binário

O pesquisador norte-americano Nicholas Carr, autor do livro “A geração Superficial” explica que ao usarmos uma nova tecnologia não trocamos imediatamente de um modo mental para outro, porque o nosso cérebro não funciona como um sistema binário. Uma tecnologia intelectual, escreve, exerce sua influência deslocando a ênfase do nosso pensamento, padrões de atenção, cognição, memória. À medida que o cérebro se adapta à nova mídia, também desenvolve respostas que serão conhecidas somente em longo prazo. Deveríamos perguntar: o que ocorrerá com a forma como estamos lendo, escrevendo, pensando? Desde que os sumérios inventaram a escrita cuneiforme, possibilitando um maior controle sobre a economia, a humanidade deu vários saltos tecnológicos, criando novos símbolos e também novas concepções mentais. A linguagem e a fala são instrumentos que participaram do processo de cognição da espécie, entendida na forma de elaborar o conhecimento. Como explica Jefferson Azevedo, a história da linguagem é uma história da mente.

“- A internet e as redes sociais digitais utilizam-se de mecanismos que estimulam nosso aparato sensorial e cognitivo e, também, o sistema límbico, parte mais primitiva do cérebro, onde se originam sentimentos primários e instintivos, responsáveis pela autopreservação, como lutar ou fugir”.

Nova maneira de ler: pulando

Nicholas Carr argumenta que a internet descarrega o tipo de estímulo sensorial e cognitivo –repetitivos, intensivos, interativos e aditivos (viciantes) - que já foi demonstrado como provocadores de fortes e rápidas alterações dos circuitos e funções cerebrais. Por exemplo: como os usuários de internet leem? Simples, eles não leem. Eles permanecem 10 segundos numa página e já trocam. Carr cita uma pesquisa de uma empresa israelense que vende software para empresas interessadas em perfis de consumidores, realizada com um milhão de usuários em vários países. A maioria deles permanecia entre 19 e 27 segundo antes de trocar de página, e quando liam um artigo, no máximo duas páginas, e novamente trocavam. Trata-se de uma nova maneira de ler “por cima” e pulando. “estamos evoluindo de seres cultivadores de conhecimento pessoal para seres caçadores e coletores de dados eletrônicos”, define Nicholas Carr.

Tudo isso é muito interessante, mas na verdade é somente uma nova faceta do capitalismo, e como tal sempre tem os proprietários da tecnologia. No caso do Google, por exemplo, o criador Larry Page considera que o cérebro humano e o computador funcionam da mesma maneira. Não custa lembrar, como esclarece Fritjof Capra em A Teia da Vida que nós pensamos com emoções, baseados na experiência de vida e conectado com o ambiente. Porém, o gigante transnacional Google fatura os anúncios que os internautas ajudam a vender – quanto mais cliques, maior o faturamento. Segundo Carr na Googleplex, a sede da empresa no Vale do Silício, está sempre atrás de algoritmos perfeitos que conduzam os movimentos mentais dos usuários para determinado objetivo.



Cibernética inventada pelos militares

Também não custa recordar que a cibernética foi inventada pelos militares norte-americanos durante a segunda guerra mundial e toda a concepção de linguagem e de comandos está relacionada com a tecnologia de guerra. Última citação de Nicholas Carr:

“- Podemos supor que os circuitos neurais dedicados a vasculhar, passar os olhos e executar multitarefas estão se expandindo e fortalecendo, enquanto aqueles usados para a leitura e pensamentos profundos, com concentração continuada, estão enfraquecendo e se desgastando”.

O professor Valdemar Setzer, da Escola de Matemática e Estatística da USP é um dos maiores críticos da televisão, como veículo de comunicação, principalmente em relação às crianças e adolescentes, inclui também os jogos eletrônicos. Tem um extenso trabalho de pesquisa e divulgação sobre a influência maléfica desses meios nas mentes dos jovens. Ele insiste em uma questão fundamental: todos os meios eletrônicos, incluindo a internet, tem um efeito absolutamente garantido – aceleram o desenvolvimento, especialmente, o intelectual e o emotivo.

Aceleração de todo tipo de sentimento

O imediatismo das redes sociais, a troca de mensagens em massa, os grupos formadores de opinião se transformaram em uma nova forma de socialização, se é que podemos definir desta maneira. O que é evidente é que há uma aceleração de todo tipo de sentimento e de emoção, além é claro, da ansiedade, da raiva e do ódio. É o pacote completo do espetáculo e da sociedade de consumo, as duas outras pontas do texto. O escritor francês Guy Debord escreveu “A Sociedade do Espetáculo” em 1967, como uma crítica direta contra a nova fórmula do capitalismo se expandir e alterar o comportamento das populações mundo afora. Selecionei algumas frases para ilustrar:

“- O espetáculo, compreendido, na sua totalidade é o resultado e o projeto do modo de produção existente. É o coração da irrealidade da sociedade atual. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. A forma e o conteúdo do espetáculo são a justificação das condições e dos fins do sistema existente. O espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, socialmente falando, como simples aparência. O espetáculo é o mau sonho da sociedade moderna acorrentada, que ao cabo não exprime senão o seu desejo de dormir”.

Uma falsa realidade

O pesquisador Weligton Rodrigues da Paz, da Universidade de Goiás fez a sua tese de doutorado sobre a sociedade do espetáculo, a formação humana, mercado, tecnologia e cultura. O argumento central é o mesmo de Guy Debord: a forma contemporânea de organização capitalista da sociedade:

“- Sua concepção, além de reafirmar a natureza excludente e alienada da vida sob essa sociedade revela ainda como essa formação social produz e acentua a sujeição dos homens pelas coisas, mercadorias e imagens, reduzindo os indivíduos à condição de expectadores passivos, limitados a contemplação da sociedade, da história, da economia e do movimento geral do mundo por eles mesmos criados. São manifestações específicas de uma maneira de produzir, consumir e viver na qual a dominância pertence às coisas, ao valor abstrato da troca, às representações que a legitimam.”

Enfim: o espetáculo é a fase extrema do processo de alienação, presente na totalidade do mundo capitalista, na produção e no consumo, na política, na cultura e no lazer, mas antes nas relações sociais e na relação do indivíduo consigo mesmo e com sua vida. O espetáculo impõe uma falsa realidade, uma redução da vida humana e social à simples aparência, com a mediação dos meios de comunicação, servem como mediadores indispensáveis à ordem social, fundada no afastamento e na separação. O que transmitem são ‘ordens’, que serão analisadas e defendidas pelos mesmos que as produzem.

Ainda citando Weligton Rodrigues da Paz :

“- Liquidaram com a inquietante concepção, que predominara por mais de 200 anos, segundo a qual uma sociedade pode ser criticada e transformada, reformada e revolucionada. Os especialistas a serviço do espetáculo substituíram os espaços ainda autônomos, comunidades em geral, associações ou instituições em que ainda havia algum espaço para o debate, a dúvida, a contestação”.

O planeta tem ‘americanos’ demais

Quem executou nos últimos anos este modelo de sociedade do espetáculo e do consumo, como um estilo de vida. Claro, os Estados Unidos, tendo a cidade de New York como a Meca da mercadoria, e como objetivo principal na vida dos “coisa”. Em 2014, este cidade recebeu 56,4 milhões de turistas e faturou 62 bilhões de dólares. Os brasileiros contribuíram com 965 mil turistas. O Brasil, no entanto, é o país que mais manda turistas para Miami – 755 mil no ano passado, que deixaram lá quase dois bilhões de dólares – atualmente moram 250 mil brasileiros na cidade. O centro do espetáculo recebe mais de 12 milhões de turistas anualmente. Somente este fato, já serviria como impulso para a divulgação do tal estilo de vida. Ocorre, como escreve o jornalista e crítico do The New York Times, Thomas Friedman em “Quente, Plano e Lotado”, o planeta já suporta um contingente acima de um bilhão de “americanos”, contando a Europa, Japão, Oriente Médio, e agora partes da China, Índia, Brasil, que reproduzem os mesmos valores:

“-Lembre-se o que deve ser observado não é o número total de pessoas no planeta, e sim o número de ‘americanos’. Este é o número chave e vem crescendo de forma consistente. Eu não censuro os cidadãos de Doha (capital do Catar), ou de Dalian (cidade do nordeste da China, considerada o Vale do Silício local) por aspirarem a um estilo de vida americano, ou por optarem erguê-lo sobre fundações de combustíveis fósseis baratos assim como nós fizemos. Nós inventamos esse sistema. Nós o exportamos. Americanos brotam em toda a parte nos dias de hoje, de Doha, Dalian, de Calcutá a Casablanca, passando pelo Cairo, mudando-se para bairros em estilo americano, comprando carros em estilo americano, comendo fast food no estilo americano e produzindo lixo em níveis americanos. O planeta nunca viu tantos americanos”.

A piração dos coisa

Friedman também se arrepende de ter acreditado, como a geração que nasceu depois da segunda guerra mundial, que “seria uma coisa boa se todos pudessem viver como nós. Nós queríamos que todos se convertessem ao estilo americano, embora na realidade nunca pensássemos sobre as implicações disso. Bem, agora sabemos”.

A competição exacerbada, as novas gerações dispostas a fazer qualquer coisa para manter o estilo, incluindo roubar e matar, para ter o tênis da moda, e condenando milhares de jovens à morte como ocorre no Brasil. A transformação dos seres humanos em “coisas”, também é abordada pelo escrito Istvám Mészáros autor de “A Teoria da Alienação em Marx”:

“- A alienação caracteriza-se, portanto, pela extensão universal de ‘vendabilidade’, a transformação de tudo em mercadoria, pela conversão dos seres humanos em ‘coisas’, para que eles possam aparecer como mercadorias no mercado...e pela fragmentação do corpo social em indivíduos isolados, que perseguem seus próprios objetivos limitados, particularistas, em servidão à necessidade egoísta, fazendo de seu egoísmo uma virtude em seu culto da privacidade”.

O problema maior é que uma parcela abastada dos “coisa” está liberando o sistema límbico cerebral no Brasil e está prestes a executar o ódio que tanto promete e divulga. Por isso, a piração dos “coisa” acabará se convertendo em tragédia.


 

segunda-feira, 23 de março de 2015

Enquanto a Avibrás sucumbe nas mãos dos Entreguistas e Quinta Colunas a Rússia se defende da Agressão Externa.


No Brasil a empresa Nacional Avibrás tem o recém desenvolvido Sistema ASTROS II.

Esse sistema sobre rodas, de última geração, emprega diversos tipos de foguetes e possui grande mobilidade, precisão e alcance. A empresa Avibrás possui contratos de entrega desse sistema com o execito Brasileiro e esta sendo sondada por exércitos internacionais, não alinhados com as grandes potencias.

Porém, a Avibrás estava sendo preparada para ser incorporada pela Odebrecht Defesa quando a Lava Jato imobilizou todos os ativos do Grupo Odebrecht, até onde eu sei, todos os funcionários da Avibrás estão sem receber desde Dezembro.

É o efeito de destruição em cadeia promovido pelo Ministério Público.


Sistema Balistico Bastian Russo

As escaramuças russo-americanas no Mar Negro


No documentário “Crimeia. De volta à Pátria”, transmitido recentemente pela rede de televisão Rússia 1, foi apresentado um episodio dedicado ao sistema de mísseis costeiros russos Bastião-P.

Em março de 2014, o presidente Putin determinou o deslocamento de vários desses sistemas para as proximidades de Sebastopol, na Crimeia; uma decisão que, como se revelou logo depois, tinha razão de ser. Rapidamente o sistema Bastião conseguiu afastar das costas da península as provocações do moderno contratorpedeiro porta-mísseis norte-americano Donald Cook [incorporado à marinha americana em 1998], lembrou o jornal russo Rossíiskaya Gazeta.

Essa poderosa nave de guerra está armada com mísseis de cruzeiro Tomahawk, que têm um alcance de até 2.500 quilômetros e capacidade de carregar cargas nucleares. Além disso, o Donald Cook está dotado do sistema naval integrado Aegis, que unifica a ação de todos os mísseis instalados em navios na forma de rede. Isso lhes permite realizar um rastreamento simultâneo e atacar centenas de alvos ao mesmo tempo.

À primeira vista, a aparição de um navio desse tipo no mar Negro poderia ter causado comoção e terror às forças independentistas da península. Mas ocorreu o contrario. Quando, há um ano, foram deslocados para a costa da Crimeia os lançadores Bastião com mísseis supersônicos Yájont, e o sistema de reconhecimento de radar Monolit-B começou a funcionar, quem sentiu comoção e terror acabou sendo a tripulação norte-americana. Seus equipamentos de bordo rapidamente acusaram que o navio se encontrava na zona de impacto potencial de mísseis russos.

Como consequência, o comando do contratorpedeiro desistiu de tentar a sorte e abandonou o seu rumo com tanta rapidez que “é possível que nunca antes no Mar Negro se tenha visto um ‘oito’ como o que o contratorpedeiro norte-americano Donald Cook desenhou na água durante sua fuga do alcance do Bastião”, contou o comandante da esquadra russa do Mar Negro, o almirante Alexander Vitkó.

O Bastião pode destruir tanto navios individuais quanto comboios navais inteiros. Seus mísseis terra-mar Yájont têm alcance de 300 quilômetros e atingem a velocidade de 751 metros por segundo. O intervalo entre lançamentos é curto: 2,5 segundos. Esse sistema incorpora um programa pelo qual os primeiros alvos a destruir nos comboios inimigos são os navios de escolta, e só depois o navio capitânia. Cada um dos mísseis opera exclusivamente contra o seu objetivo programado. Os especialistas afirmam que nenhum navio do mundo teria tempo para se defender de um ataque desse tipo.

Apenas um mês depois da fuga infame, o mesmo Donald Cook tomou um outro susto, dessa vez protagonizado pelo veterano caça-bombardeiro tático Su-24 [Sukhoi Fencer, recentemente oferecidos pela Rússia à Argentina], que realizou sobre ele 12 passadas a baixa altitude, simulando um ataque ao navio, que havia voltado a navegar pelo Mar Negro.

O consenso entre os especialistas é de que o caça russo fez uso do sistema de guerra eletrônica Khibiny, causando estupor na tripulação do navio. O Khibiny, atual sistema russo de guerra eletrônica, teria ‘apagado’ as telas de radar do contratorpedeiro, deixando-o virtualmente indefeso. Por conta disso, o navio dirigiu-se rapidamente a um porto romeno, onde os americanos puderam restabelecer os nervos. Nem todos conseguiram: o stress parece ter sido suficientemente forte para que 27 marinheiros apresentassem seus pedidos de baixa ali mesmo.

Mais tarde, o porta-voz do Pentágono, Steve Warren, lançou acusações contra a Rússia. “Essa ação de provocação nem um pouco profissional da Rússia é incompatível com seus próprios dispositivos nacionais e com os acordos prévios sobre a interação profissional das nossas forças armadas”, disse Warren, sem explicar por que o Donald Cook havia violado a Convenção de Montreux, que impede que os navios de guerra de países que não têm saída para o Mar Negro permaneçam nele por mais de 21 dias.






segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Noam Chomsky e a Coruja de Minerva - Tempos de Guerra


Chomsky: “Triste espécie. Pobre coruja de Minerva”


“Nossa civilização teve início há 10 mil anos, entre o Tigre e o Eufrates. O que lá ocorre hoje fornece lições dolorosas sobre o abismo a que podemos chegar”

Por Noam Chomsky | Tradução: Tiago Franco

Não é agradável contemplar os pensamentos que devem estar passando pela mente da Coruja de Minerva, que alça voo ao cair do crepúsculo e toma para si a tarefa de interpretar cada era da civilização humana — esta mesma que pode, agora, estar se aproximando de um final inglório.

Nossa era começou há quase 10 mil anos, na região da Crescente Fértil. Estendeu-se, a partir das terras do Tigre e Eufrates, pela Fenícia, na costa oriental do Mediterrâneo, chegando ao vale do Rio Nilo e de lá para além da Grécia. O que está acontecendo nesta região fornece dolorosas lições sobre o abismo ao qual a espécie humana pode chegar.

As terras do rios Tigre e Eufrates têm sido palco de horrores indescritíveis nos últimos anos. A ofensiva de George W. Bush e Tony Blair em 2003, que muitos iraquianos compararam à invasão mongol do século XIII, foi mais um golpe letal. Destruiu grande parte do que havia sobrevivido às sanções da ONU, dirigidas por Bill Clinton contra o Iraque e condenadas como “genocídio” por ilustres diplomatas como Denis Halliday e Hans von Sponeck, que as administravam antes de renunciarem em protesto. Os devastadores relatórios de Halliday e von Sponeck receberam o tratamentos usualmente dispensado a fatos indesejados…

Uma das conseqüências terríveis da invasão estadunidense-britânica é descrita em um “guia visual para a crise no Iraque e na Síria” do New York Times: a radical mudança da Bagdá, que tinha bairros mistos em 2003, para os atuais enclaves sectários — sunitas ou xiitas — aprisionados em ódio amargo. Os conflitos causados pela invasão espalharam-se e estão agora rasgando toda a região em farrapos.




Boa parte da área do Tigre e Eufrates está dominada pelo ISIS e seu auto-proclamado Estado Islâmico. Uma caricatura sombria da forma mais extremista do Islã radical, que tem sua origem na Arábia Saudita.

Patrick Cockburn, um correspondente do The Independent no Oriente Médio e um dos mais bem informados analistas do ISIS, descreve-o como “uma organização horrível, fascista em muitos aspectos, muito sectária, que mata qualquer um que não acredite em sua particular e rigorosa imagem do Islã. ”



Cockburn também aponta a contradição na reação ocidental em relação ao aparecimento do ISIS: os esforços para conter o avanço do grupo no Iraque, contrastam com os outros, para minar o principal adversário do ISIS na Síria, o brutal regime de Bashar Assad. Enquanto isso, uma grande barreira para a expansão do ISIS até o Líbano é o Hezbollah, inimigo odiado pelo Estados Unidos e seu aliado israelense. E, para complicar ainda mais a situação, os EUA e o Irã partilham agora uma preocupação legítima sobre a ascensão do Estado Islâmico, assim como outros nesta região altamente conflituosa.

O Egito tem mergulhado em alguns de seus dias mais sombrios, sob uma ditadura militar que continua a receber o apoio dos EUA. O destino do país não está escrito nas estrelas. Durante séculos, caminhos alternativos têm sido bastante viáveis e , não raro, uma pesada mão imperial os tem barrado. Depois dos renovados horrores das últimas semanas, em Gaza, deve ser desnecessário comentar sobre o que emana de Jerusalém, considerada, em tempos remotos, um centro moral.

Oitenta anos atrás, Martin Heidegger exaltava a Alemanha nazista como sendo provedora da melhor esperança para resgatar a gloriosa civilização grega das mãos dos bárbaros do Leste e do Oeste. Hoje, banqueiros alemães esmagam a Grécia sob um regime econômico projetado para manter sua própria riqueza e poder.

O provável fim da Era da Civilização é prenunciado em um novo relatório esboçado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) , o principal órgão de monitoramento sobre que está acontecendo no mundo físico.

O relatório conclui que o risco de aumentar a emissão de gases que contribuem para o efeito estufa é “severamente grave e terá impactos irreversíveis para os seres humanos e os ecossistemas” nas próximas décadas. O mundo está se aproximando de uma temperatura na qual já não será possível conter a perda da vasta camada de gelo sobre a Groenlândia. Juntamente com o derretimento do gelo antártico, que pode elevar o mar a níveis capazes de inundar grandes cidades, assim como planícies costeiras.

A Era da Civilização coincide intimamente com a época geológica do Holoceno, principiada há mais de 11 mil anos. A época anterior, Pleistoceno, durou 2,5 milhões de anos. Cientistas hoje sugerem que uma nova época começou há cerca de 250 anos: o Antropoceno, período no qual a atividade humana passou a ter impacto dramático no mundo físico. O ritmo das mudanças de épocas geológicas é difícil de ser ignorado.

Um dos índices do impacto humano, é a extinção das espécies. Estima-se hoje que esteja próxima à taxa de extinção verificada 65 milhões de anos atrás, quando um asteroide atingiu a Terra. Presume-se que tenha sido a causa do fim dos dinossauros, abrindo caminho para a proliferação de pequenos mamíferos e , em última instância, dos seres humanos modernos. Hoje, os humanos cumprem o papel do asteroide , condenando grande parte da vida à extinção.

O relatório do IPCC reitera que “a grande maioria” das reservas de combustíveis hoje conhecidas deve se mantida no solo, para evitar intoleráveis riscos para as gerações futuras. Entretanto, as grandes corporações de energia não se preocupam em esconder seus objetivos de explorar essas reservas e descobrir novas.

Um dia antes de publicar uma síntese das conclusões do IPCC, o New York Timesrelatou que um imenso estoque de grãos do Centro-Oeste dos Estados Unidos está apodrecendo, para que os produtos derivados do boom do petróleo da Dakota do Norte possam ser enviados, via ferroviária, para Ásia e Europa.

Uma das consequências mais temidas do aquecimento global antropocênico é o derretimento das regiões de pergelissolo (tipo de solo encontrado na região do Ártico). Um estudo na revista Science adverte que “mesmo temperaturas ligeiramente mais quentes [menos do que o previsto para os próximos anos] poderia começar o derretimento do pergelissolo, que, por sua vez, ameaça desencadear a liberação de grandes quantidades de gases de efeito estufa contidas no gelo,” com possíveis “consequências fatais” para o clima global.

http://corretorecologico.blogspot.com.br/2014/10/o-futuro-nebuloso-do-oceano-artico-nasa.html

Arundhati Roy sugere que “a mais apropriada metáfora para a insanidade de nossos tempos” é a Geleira de Siachen , onde soldados indianos e paquistaneses mataram uns aos outros no campo de batalha mais alto do mundo. A geleira agora está derretendo e revelando “milhares de granadas vazias, tambores de combustível vazios, machados para quebrar gelo, botas velhas, tendas e toda sorte de resíduos que milhares de seres humanos em guerra geram”, em um conflito sem sentido. E, enquanto as geleiras derretem, a Índia e o Paquistão enfrentam um desastre indescritível.

Triste espécie. Pobre Coruja.




segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Chomsky - Pimenta no dos Outros é Colírio

Chomsky: "Os ataques de Paris demonstram a hipocrisia da indignação Ocidental"

Publicado: 19 ene 2015 19:59 GMT | Última actualización: 19 ene 2015 19:59 GMT

O advogado Floyd Abrams tinha razão quando descreveu o ataque contra a redação de 'Charlie Hebdo' como "o assalto mais ameaçador contra o jornalismo na memória viva". O problema reside em que o Ocidente esquece seus próprios crimes, sublinha o linguista e filósofo norte americano Noam Chomsky

Ataque a RTV em Belgrado

"A razão está relacionada com o conceito de 'memória viva', uma categoria construída cuidadosamente para incluir Seus crimes contra Nós enquanto escrupulosamente excluímos Nossos crimes contra eles. Estes não são crimes, senão nobre defesa de valores mais elevados", explica assim Chomsky a lógica do Ocidente.

Chomsky recorda que em Abril de 1999 as forças da Otan realizaram um ataque aéreo massivo contra a emissora sérvia RTV que resultou na morte de 16 jornalistas em Belgrado. O porta voz do Pentágono, Kenneth Bacon, disse então em uma conferencia em Washington que "a televisão servia é uma parte importante da máquina de morte de Milosevic igual que seu Exército" e, portanto, um objetivo legitimo de ataque. 


"Não ocorreram manifestações ou gritos de indignação, não ocorreram clamores de 'Somos RTV', não ocorreram investigações sobre as raízes do ataque contra a cultura e a história cristã. Ao contrário, o ataque foi abafado pela imprensa. O prestigiado diplomada norte americano Richard Holbrooke, então enviado à Yugoslavia, descreveu o ataque contra RTV 'de enorme importância e progressão positiva'. Esta ideia foi compartida por outros", escreve Chomsky em um artigo citado por CNN. 

"Quanto mais culpamos nossos inimigos de alguns delitos, maior é a indignação; quando maior é nossa responsabilidade em um crime e, portanto, quanto mais podemos fazer para por-lhe fim -, menor é a preocupação, tendendo inclusive a esquece-lo ou nega-lo", resume o filósofo.





Fonte: http://actualidad.rt.com/actualidad/163881-chomsky-otan-yugoslavia-paris-hipocresia-occidente

Tradução: Julio Kling

domingo, 18 de janeiro de 2015

Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força

DOMINGO, 18 DE JANEIRO DE 2015
Paul Craig Roberts: “O futuro dos EUA será a ruína”
16/1/2015. [*] Paul Craig Roberts, Institute for Political Economy
Ruin Is Our Future − Paul Craig Roberts
Traduzido por mberublue


A única coisa excepcional dos Estado Unidos é a ignorância do povo e a estupidez do Governo


Os neoconservadores instalados em seus gabinetes em Washington devem estar em festa com seu sucesso em usar o episódio Charlie Hebdo para reunir a Europa ao redor da política externa dos Estados Unidos. Acabaram os votos dos franceses ao lado dos palestinos contra as posições EUA/Israel. Não mais crescerá a simpatia dos europeus em relação aos palestinos. Findou-se o crescimento da oposição europeia ao lançamento de mais e mais guerras no Oriente Médio. Não mais acontecerão as falas do presidente francês para que sejam suspensas as sanções contra a Rússia.


Mas por acaso os neoconservadores em Washington entenderam, também, que amarraram os europeus aos partidos políticos anti-imigração de extrema direita? A onda de apoio ao Charlie Hebdo é a mesma onda de apoio da Frente Nacional de Marine Le Pen, do Partido Independente do Reino Unido de Nigel Farage e do alemão PEGIDA em que está engolfada a Europa. Foi o fervor anti-imigração pensado e orquestrado para reunir europeus com Washington e Israel que deu a estes partidos a perspectiva de poder que hoje ostentam.


Mais uma vez os insolentes e arrogantes neoconservadores estão errados. O empoderamento dos partidos “Charlie Hebdo” de direita e anti-imigração tem o potencial de revolucionar a política europeia e destruir o império de Washington. Veja minha entrevista ao King World News com análises sobre o potencial que estes acontecimentos têm de mudar o jogo. /


Os relatos oriundos do jornal inglês Daily Mail e do site Zero Hedge de que a Rússia cortara totalmente as entregas de gás para seis países europeus deve ser incorreta. Reconhecendo embora a credibilidade destas fontes bem informadas, não se observa a turbulência política e financeira que aconteceria fatalmente se o relato fosse verdadeiro. Portanto, a menos que em relação a essa notícia esteja acontecendo um total blackout noticiário, as ações da Rússia foram mal interpretadas.


Sabemos que alguma coisa realmente aconteceu. Em caso contrário, não haveria como explicar a consternação expressa pelo assessor para a energia da União Europeia, Maros Sefcovic. Embora eu não tenha ainda uma informação definitiva, creio saber o que realmente ocorreu. A Rússia, cansada dos ladrões ucranianos, que roubam o gás que passa através do país em seu percurso até a Europa, tomou a decisão de dirigir o gás através da Turquia, descartando a Ucrânia.


O Ministro da Rússia para a Energia confirmou esta decisão acrescentando que caso os países europeus quiserem ter acesso a este suprimento de gás, deverão construir suas próprias estruturas ou gasodutos. Em outras palavras, não há corte no presente, mas há potencial para um corte no futuro.


Os dois eventos – Charlie Hebdo e a decisão russa de cessar a entrega de gás para a Europa através da Ucrânia – devem nos lembrar de não descartar eventuais black swans (acontecimentos anormais e que provocam consequências imprevisíveis – NT) e que black swans podem surgir de consequências não intencionais de decisões oficiais. Nem sempre o “superpoder” americano está imune a black swans.


Black Swan
foto: Bert-Kaufmann

Há tanta evidência circunstancial de que a CIA e a Inteligência Francesa são responsáveis pelo tiroteio no Charlie Hebdo como de que os disparos foram perpetrados pelos dois irmãos, cuja carteira de identidade foi convenientemente esquecida no suposto carro de fuga. Como a França agiu de forma a ter certeza de que os irmãos seriam mortos antes de poderem falar, nunca mais saberemos o que eles teriam a dizer a respeito dos acontecimentos.


A única evidência existente de que foram realmente os irmãos os culpados pelo atentado tem origem apenas nas alegações das forças de segurança. Sempre que ouço o governo falar acusatoriamente sobre evidências reais, lembro-me das “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein, de que Assad “fazia uso de armas químicas” e o Irã “teria um programa de fabricação de armas nucleares”. Se um assessor da Segurança Nacional pode vislumbrar no ar rarefeito das alturas “uma nuvem em forma de cogumelo sobre as cidades americanas”, então Cherif e Said Kouachi podem muito bem ser transformados em assassinos. Afinal, eles estão mortos mesmo, não podem reclamar.


Se por acaso (e nunca saberemos) esta foi uma operação de falsa bandeira, então foi alcançado o objetivo de Washington de reunir a Europa com o patrocínio intencional de Washington e Israel. Porém há uma consequência involuntária neste sucesso. A consequência indesejada está em unir realmente a Europa, mas sob a bandeira da política de anti-imigração dos partidos de direita, reforçando as posições adrede adotadas pelos líderes destes partidos.


Caso estas suposições estejam corretas, então Marie Le Pen e Nigel Farage estarão com suas vidas e/ou reputações em perigo, pois Washington resistirá a qualquer ascensão de lideranças que não adotem as linhas impostas por Washington.

Marie Le Pen e Nigel Farage

A grande consternação causada pela decisão russa de redirecionar a entrega de gás para a Europa (através da Turquia, evitando a Ucrânia), é uma prova de que a Rússia tem muitas cartas que pode ainda jogar e que podem desestabilizar as estruturas financeiras do ocidente.


A China possui cartas semelhantes.


Os dois países ainda não estão jogando estas cartas sobre a mesa, pois pensam que ainda não precisam. Em vez disso, as duas potências estão se retirando do sistema financeiro que atende às diretrizes da hegemonia ocidental sobre o mundo. Os dois países estão criando todas as estruturas econômicas necessárias de que necessitam para se tornar completamente independentes do ocidente


Portando, perfeito o raciocínio dos governantes chineses e russos:


Para que aceitar a provocação e trocar bofetadas com os idiotas ocidentais... eles podem usar as armas nucleares que possuem e o mundo inteiro estaria perdido. Vamos aceitar as provocações que nos fazem mas simplesmente nos afastar, já que neste sentido nos encorajam.


Sejamos pois agradecidos ao fato de que Vladimir Putin e os líderes chineses são inteligentes e humanos, ao contrário dos líderes ocidentais


Imaginem as terríveis consequências para o ocidente se Putin vir a se tornar pessoalmente envolvido como resultado das numerosas afrontas que sofrem atualmente tanto a Rússia como ele próprio. Putin pode destruir a OTAN e o sistema financeiro ocidental inteiro no momento que quiser. Tudo o que ele precisa é anunciar que, como a OTAN declarou guerra econômica contra a Rússia, a Rússia não mais venderá energia para os membros da OTAN.


A consequência imediata seria a dissolução da OTAN, pois a Europa não pode sobreviver sem os suprimentos energéticos da Rússia. Seria o fim do império de Washington.


Putin compreende perfeitamente que os neoconservadores não hesitariam em apertar o botão nuclear em defesa da vergonha na cara que não têm. Ao contrário de Putin, seus egos estão na linha de frente. Assim, Putin salva o mundo da destruição simplesmente não aceitando as provocações.


Agora, imagine se o governo chinês finalmente perder a paciência com Washington. Para confrontar o “excepcional, indispensável, único poder” com a sua realidade de impotência, tudo o que a China precisa fazer é colocar no mercado seus ativos financeiros massivos, denominados em dólar, tudo de uma vez só, da mesma forma que os negociadores de metais preciosos do Federal Reserve colocam massivamente no mercado futuro contratos de ouro a descoberto.


Na intenção de evitar um colapso financeiro dos Estados Unidos, o Federal Reserve teria que necessariamente imprimir quantidades massivas de novos dólares com o qual compraria a avalanche de títulos objetos de dumping despejados no mercado pelos chineses. O Federal Reserve naturalmente iria proteger o mercado através da compra das participações chinesas que estariam sendo objeto de dumping. Nesse caso, os chineses nada perderiam com a venda. Mas em seguida, vem a jogada fatal. O governo chinês simplesmente lançaria no mercado a quantidade massiva de dólares que teria recebido pela venda de seus ativos financeiros denominados em dólar.


O que aconteceria em seguida? O Federal Reserve pode imprimir dólares com os quais compraria os ativos financeiros chineses denominados em dólar, mas não pode imprimir moeda estrangeira para comprar os dólares lançados ao mercado.


Não haveria compradores para as quantidades massivas de dólares despejados no mercado pelos chineses. De forma lógica, o dólar rapidamente perderia valor de compra. Washington não mais poderia pagar suas contas com a singela impressão de dinheiro. Os americanos, que vivem em um país dependente de importações, graças aos empregos que foram deslocados para outros países, se veriam em face de altos preços que afetariam de forma severa seu modo de vida, que seria corroído. No final, os Estados Unidos se veriam em situação de instabilidade econômica, social e política.


Deixando de lado suas lavagens cerebrais, seus apoios defensivos e patrióticos ao regime em Washington, os norte americanos precisam perguntar a si mesmos: como pode o governo dos Estados Unidos, autointitulada uma superpotência ser tão inconsciente de suas próprias vulnerabilidades a ponto de ficar cutucando com vara curta dois poderes reais até que percam a paciência e joguem suas cartas?


Os norte americanos precisam entender que a única coisa realmente excepcional sobre os Estado Unidos é a ignorância da população e a estupidez de seus governantes.
Qual outro país no mundo deixa para um bando de vigaristas e crápulas de Wall Street o controle de sua economia e de sua política externa, o domínio total de seu Banco Central e de seu tesouro, subordinando o interesse de seus cidadãos aos interesses gananciosos do bolso de um por cento?


Despreocupadamente, a população está à mercê de Rússia e China. Totalmente.


Ontem houve um novo evento tipo black swan, o qual poderia desencadear outros eventos similares: o Banco Central da Suíça anunciou o fim da indexação do franco suíço ao euro e ao dólar.


Três anos atrás a fuga de dólares e euros para o franco suíço elevou tanto o valor de troca do franco que este passou a ameaçar a própria existência da indústria suíça de exportação. O país então anunciou que qualquer afluxo de moedas estrangeiras para o franco seria possível apenas com a criação de novos francos que pudesse absorver os fluxos de moeda estrangeira de maneira que não elevasse ainda mais a taxa de câmbio futura. Em outras palavras, a Suíça indexou o franco.


Ontem o Banco Central suíço anunciou que a indexação acabou. O franco no mesmo instante teve forte alta. Ações de companhias suíças tiveram queda significativa, e fundos de hedgeerradamente posicionados sofreram grande golpe para sua solvência.


Por que a Suíça desindexou o franco? Não se trata de uma ação sem custos. Para seu Banco Central e sua indústria de exportação, o custo será substancial.


Encontraremos a resposta na União Europeia. O Procurador-Geral da UE julga que é permissível para o Banco Central da União Europeia iniciar uma ação de Quantitative Easing (flexibilização monetária, facilitação monetária, facilitação quantitativa, etc. No fundo, trata-se de imprimir dinheiro sem lastro, do nada. Usa-se quando um país está na iminência de deflação, para estimular alguma inflação. Inunda-se o mercado de dinheiro, através dos bancos, na esperança de que isso estimule a produção, através do aumento do crédito. O que acaba acontecendo é a crescente capitalização dos bancos, sem que o dinheiro chegue ao mercado. Uma quimera. – NT), ou seja, a impressão de novos euros – na intenção de consertar as burradas de banqueiros privados. Isso significa que a comunidade financeira da Suíça ficaria na expectativa de uma fuga maciça do euro e o Banco Central suíço acredita que teria que imprimir francos em quantidades tão grandes que a base de oferta da moeda suíça explodiria, superando em muito o PIB suíço.


Quantitative Easing gera colapso financeiro

A política de imprimir dinheiro sem lastro dos Estados Unidos, Japão e agora presumivelmente da União Europeia tem forçado outros países a inflar suas próprias moedas na intenção de prevenir-se contra o aumento do valor de troca de suas moedas, o que afetaria sua capacidade de exportação para ganhar moedas estrangeiras com as quais pagar suas importações. Assim, Washington está forçando o mundo a imprimir dinheiro.


Pois a Suiça resolveu saltar fora deste sistema. Seguir-se-ão outros? Será que o mundo vai simplesmente seguir os governos de Rússia e China em seus novos arranjos monetários, virando as costas para o ocidente corrupto e incorrigível?


O nível de corrupção e manipulação que caracteriza a economia dos Estados Unidos e sua política externa atualmente era impossível em outros tempos, quando a ambição e Washington era pressionar a União Soviética. A ganância pelo poder hegemônico fez de Washington o governo mais corrupto do planeta.


A consequência da corrupção é a ruína.


“A liderança é a passagem para o império. O império gera a insolência. A insolência traz a ruína.”


O futuro dos EUA é a ruína.


[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Fidel - Para Nunca Esquecer

14 de outubro de 2014 - 11h00 

Fidel Castro: O que não poderá ser esquecido nunca

Domingo, dia 12 de outubro, pela manhã, a edição dominical na internet do New York Times – órgão de imprensa que em determinadas circunstâncias traça pautas sobre a linha política mais conveniente aos interesses de seu país, publicou um artigo que intitulou "Tempo de acabar o embargo a Cuba"; com opiniões do que a seu julgamento, deve seguir o país.


Por Fidel Castro, no Granma*


Reprodução
O líder histórico da Revolução Cubana, Fidel Castro, torna público um artigo intitulado "O que não poderá ser esquecido nunca", se referindo ao artigo "Tempo de acabar o embargo a Cuba" publicado no <i>New York Times</i>.O líder histórico da Revolução Cubana, Fidel Castro, torna público um artigo intitulado "O que não poderá ser esquecido nunca", se referindo ao artigo "Tempo de acabar o embargo a Cuba" publicado no New York Times.


Há momentos em que tais artigos são assinados por algum prestigiado jornalista, como alguém a quem tive o privilégio de conhecer pessoalmente nos primeiros dias de nossa luta em Sierra Maestra com os restos de uma força que tinha sido quase totalmente eliminada pela aviação e pelo exército de Batista. Éramos então bastante inexperientes; nem sequer concebíamos que dar essa impressão de fortaleza à imprensa constituía algo que pudesse merecer uma crítica.

Não era bem como pensava aquele valente correspondente de guerra com uma história que lhe deu nome nos tempos difíceis da luta contra o fascismo: Herbert Matthews.

Nossa suposta capacidade de luta em fevereiro de 1957 era um pouco menor, porém mais que suficiente para desgastar e derrotar o regime.

Carlos Rafael Rodríguez, dirigente do Partido Socialista Popular, foi testemunha do que, após a Batalha de Jigüe, em que uma unidade completa de tropas seletas foi obrigada a capitular depois de 10 dias de combate, expressei sobre meu temor de que as forças do regime fossem se render em julho de 1958, quando suas tropas de elite se retiravam precipitadamente de Sierra Maestra, apesar de treinadas e assessoradas pelos vizinhos do norte. Tínhamos encontrado a forma adequada para derrotá-las.

Era inevitável estender-me um pouco neste ponto se desejasse explicar o ânimo com que li o mencionado artigo do jornal norte-americano no domingo passado. Citarei suas partes essenciais que irão entre aspas: 

"... o Presidente Obama deve sentir angústia ao contemplar o lamentável estado das relações bilaterais que sua administração tem tentado consertar. Seria sensato que o líder estadunidense reflita seriamente sobre Cuba, onde uma virada política poderia representar uma grande vitória para seu governo." 

"Pela primeira vez, em mais de meio século, mudanças na opinião pública estadunidense e uma série de reformas em Cuba, têm feito que seja politicamente viável retomar relações diplomáticas e acabar com um embargo insensato. O regime dos Castro tem utilizado o referido embargo para justificar suas falhas e tem mantido o seu povo bastante isolado do resto do mundo. Obama deve aproveitar a oportunidade para dar fim a uma longa era de inimizade, e ajudar um povo que tem sofrido enormemente desde que Washington cortou relações diplomáticas em 1961, dois anos após Fidel Castro chegar ao poder." 

"...o deplorável estado de sua economia tem obrigado Cuba a implementar reformas. O processo tornou-se mais urgente a raiz da crise financeira na Venezuela, dado que Caracas proporciona-lhe petróleo subsidiado. Com o temor de que a Venezuela tenha que cortar sua ajuda, líderes na ilha dão passos importantes para liberar e diversificar uma economia que historicamente tem controles rígidos." 

"...o governo cubano começou a permitir que seus cidadãos se empreguem no setor privado e que vendam propriedades como automóveis e casas. Em março, a Assembleia Nacional de Cuba aprovou uma lei com o fim de atrair investimento estrangeiro. (...) Em abril, diplomatas cubanos começaram a negociar os termos de um tratado de cooperação que esperam assinar com a União Europeia. Participam das primeiras reuniões preparados, ansiosos e conscientes de que os europeus vão pedir maiores reformas e liberdades civis.

"O governo autoritário segue perseguindo dissidentes, que frequentemente são detidos por períodos curtos. Havana não explicou a suspeita morte do ativista político Oswaldo Payá”. 

Como pode ser apreciada uma acusação caluniosa e gratuita.

"No ano passado flexibilizaram as restrições de viagem para os cubanos, o que permitiu que dissidentes proeminentes viajassem ao exterior. Na atualidade, existe um ambiente de maior tolerância para aqueles que criticam seus líderes na ilha, mas muitos ainda temem as repercussões de falar abertamente e exigir maiores direitos". 

"O processo das reformas tem sido lento e tido reveses. Mas em conjunto, estas mudanças demonstram que Cuba está se preparando para uma era pós-embargo. O governo afirma que retomaria com gosto as relações diplomáticas com os Estados Unidos sem condições prévias". 

"Como primeiro passo, a Casa Branca deve retirar Cuba da lista que mantém o Departamento de Estado para penalizar países que respaldam grupos terroristas. Atualmente, as únicas outras nações na lista são Sudão, Irã e Síria. Cuba foi incluída em 1982 por seu apoio a movimentos rebeldes na América Latina, ainda que esse tipo de vínculo já não exista. Atualmente, o governo estadunidense reconhece que Havana está jogando um papel construtivo no processo de paz na Colômbia, servindo de anfitrião para os diálogos entre o governo colombiano e líderes da guerrilha”.

"As sanções por parte dos Estados Unidos à ilha começaram em 1961 com o objetivo de expulsar Fidel Castro do poder. Através dos anos, vários líderes estadunidenses têm concluído que o embargo tem sido um erro. Apesar disso, qualquer iniciativa para eliminá-lo traz consigo o risco de enfurecer membros do exílio cubano, um grupo eleitoral que tem sido decisivo nas eleições nacionais. (...) a geração de cubanos que defendem o bloqueio está desaparecendo. Membros das novas gerações têm diferentes pontos de vista, e muitos sentem que o embargo tem sido contraproducente para fomentar uma mudança política. Segundo uma recente pesquisa, 52% de norte-americanos de origem cubana em Miami pensam que deve terminar o bloqueio. Uma ampla maioria quer que os países voltem a ter relações diplomáticas, uma posição que compartilha o eleitorado norte-americano em geral". 

"Cuba e Estados Unidos têm sedes diplomáticas em suas capitais, conhecidas como seções de interesse, que desempenham as funções de uma embaixada. No entanto, os diplomatas estadunidenses têm poucas oportunidades de sair da capital para interagir com o povo cubano e seu acesso aos dirigentes da ilha é muito limitado". 

"Em 2009, a administração Obama tomou uma série de passos importantes para flexibilizar o embargo, facilitando o envio de remessas à ilha e autorizando um maior número de cubanos radicados nos Estados Unidos a viajar à ilha. Também criou planos que permitiriam ampliar o acesso à telefonia celular e internet na ilha. Mesmo assim, seria possível fazer mais. Por exemplo, se poderia eliminar as restrições às remessas, autorizar mecanismos de investimento nas novas microempresas cubanas e expandir as oportunidades para norte-americanos que desejem viajar à ilha." 

"Washington poderia fazer mais para respaldar as empresas norte-americanas que têm interesse em desenvolver o setor de telecomunicações em Cuba. Poucas se atreveram por temor às possíveis repercussões legais e políticas." 

"Por não fazer, os Estados Unidos estaria cedendo o mercado cubano a seus rivais. Os presidentes da China e da Rússia viajaram a Cuba em julho tendo em vista ampliar os vínculos". 

"O nível e envergadura da relação poderia crescer significativamente, dando a Washington mais ferramentas para respaldar reformas democráticas. É factível que ajude a frear uma nova onda migratória de cubanos sem esperança que estão viajando para os Estados Unidos em balsas". 

"Uma relação mais saudável poderia ajudar a resolver o caso de Alan Gross, um especialista em desenvolvimento que está há quase cinco anos detido na ilha. E mais ainda, criaria novas oportunidades para fortalecer a sociedade civil, com as quais gradualmente se diminuiria o controle que exerce o Estado sobre a vida dos cubanos. Se bem que a Casa Branca pode tomar certos passos unilateralmente, desmantelar o embargo requereria uma ação legislativa em Washington".

"... vários líderes do hemisfério se reunirão na Cidade do Panamá por ocasião da sétima Cimeira das Américas. Vários governos da América Latina fizeram questão de convidar Cuba, rompendo assim com a tradição de excluir a ilha por exigência de Washington." 

"Dada a quantidade de crises a nível mundial, é possível que a Casa Branca considere que dar uma virada substancial em sua política em relação a Cuba não é uma prioridade. Todavia, uma aproximação com a ilha mais povoada do Caribe que incentive o desbloqueio do potencial dos cidadãos de uma das sociedades mais educadas do hemisfério, poderia representar um importante legado para a administração. Também ajudaria a melhorar as relações dos Estados Unidos com vários países da América Latina e a impulsionar iniciativas regionais que sofrem como consequência do antagonismo entre Washington e Havana." 

"... Após o convite a Cuba para a cúpula, a Casa Branca não confirmou se Obama participará." 

"Tem que fazê-lo. Seria importante que se fizesse presente e considerasse como uma oportunidade para desencadear uma conquista histórica". 

Uma das sociedades mais educadas do hemisfério!!!! Isso sim que é um reconhecimento. Mas, por que não diz de uma vez, que em nada se parece ao que nos legou Harry S. Truman quando seu aliado e grande saqueador do tesouro público Fulgêncio Batista assaltou o poder em 10 de março de 1952, a somente 50 dias das eleições gerais. Aquilo não poderá ser esquecido nunca.

O artigo está escrito, como pode ser apreciado, com grande habilidade, buscando o maior benefício para a política norte-americana na complexa situação, quando se acrescentam os problemas políticos, econômicos, financeiros e comerciais. A isso se somam os derivados da mudança climática acelerada; a concorrência comercial; a velocidade, precisão e poder destrutivo de armas que ameaçam a sobrevivência da humanidade. O que hoje se escreve tem uma conotação muito diferente do que divulgavam há apenas 40 anos, quando nosso planeta se via já obrigado a albergar e abastecer de água e alimentos ao equivalente da metade da população mundial atual. Isto sem mencionar a luta contra o Ebola que ameaça a saúde de milhões de pessoas.

Acrescente-se que dentro de alguns dias a comunidade mundial irá expor ante as Nações Unidas se está de acordo ou não com o bloqueio a Cuba.

*Publicado no jornal Granma e traduzido pela Prensa Latina, o artigo intitulado de Fidel Castro se referindo ao artigo "Tempo de acabar o embargo a Cuba" publicado no diário The New York Times.

Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/251328-7

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O Grande Irmão do Norte prepara o Conflito do Fim dos Tempos - Se não for meu Não será de ninguém.





Boaventura de Sousa Santos

A Terceira Guerra Mundial?

É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade da Europa. O alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia.


Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial, se entendermos por “mundial” uma guerra que tem o seu teatro principal de operações na Europa e se repercute em diferentes partes do mundo. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da Europa. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia. Num raro momento de consenso entre os dois partidos, o Congresso dos EUA aprovou no passado dia 4 de dezembro a Resolução 758 que autoriza o Presidente a adotar medidas mais agressivas de sanções e de isolamento da Rússia, a fornecer armas e outras ajudas ao governo da Ucrânia e a fortalecer a presença militar dos EUA nos países vizinhos da Rússia. A escalada da provocação à Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria. Nesta, ao contrário da primeira, a Europa é um participante ativo, ainda que subordinado aos EUA, e assume-se agora a possibilidade de guerra total e, portanto, de guerra nuclear. Várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear.


Os componentes da provocação ocidental são três: sanções para debilitar a Rússia; instalação de um governo satélite em Kiev; guerra de propaganda. As sanções são conhecidas, sendo a mais insidiosa a redução do preço do petróleo, que afeta de modo decisivo as exportações de petróleo da Rússia, uma das mais importantes fontes de financiamento do país. O orçamento da Rússia para o próximo ano foi elaborado com base no preço do petróleo à razão de 100 dólares por barril. A redução do preço combinada com as outras sanções e a desvalorização do rublo agravarão perigosamente o déficit orçamental. Esta redução trará o benefício adicional de criar sérias dificuldades a outros países considerados hostis (Venezuela, Irã e Equador). A redução é possível graças ao pacto celebrado entre os EUA e a Arábia Saudita, nos termos do qual os EUA protegem a família real (odiada na região) em troca da manutenção da economia dos petrodólares (transações mundiais de petróleo denominadas em dólares), sem os quais o dólar colapsa enquanto reserva internacional e, com ele, a economia dos EUA, o país com a maior e mais obviamente impagável dívida do mundo.

O segundo componente é o controle total do governo da Ucrânia de modo a transformar este país num estado satélite. O respeitado jornalista Robert Parry (que denunciou o escândalo do Irã-contra) informa que a nova ministra das finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, é uma ex-funcionária do Departamento de Estado, cidadã dos EUA, que obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo. Foi até agora presidente de várias empresas financiadas pelo governo norte-americano e criadas para atuar na Ucrânia. Agora compreende-se melhor a explosão, em fevereiro passado, da secretária de estado norte-americana para os assuntos europeus, Victoria Nulland: “Fuck the EU”. O que ela quis dizer foi: “Raios! A Ucrânia é nossa. Pagamos para isso”.

O terceiro componente é a guerra de propaganda. Os grandes media e seus jornalistas estão a ser pressionados para difundirem tudo o que legitime a provocação ocidental e ocultarem tudo o que a questione. Os mesmos jornalistas que, depois dos briefings nas embaixadas dos EUA e em Washington, encheram as páginas dos seus jornais com a mentira das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, estão agora a enchê-las com a mentira da agressão da Rússia contra a Ucrânia. Peço aos leitores que imaginem o escândalo mediático que ocorreria se se soubesse que o Presidente da Síria acabara de nomear um ministro iraniano a quem dias antes concedera a nacionalidade síria. Ou que comparem o modo como foram noticiados e analisados os protestos em Kiev em fevereiro passado e os protestos em Hong Kong das últimas semanas. Ou ainda que avaliem o relevo dado à declaração de Henri Kissinger de que é uma temeridade estar a provocar a Rússia. Outro grande jornalista, John Pilger, dizia recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram até ao fim da semana passada 1.455.590 iraquianos e 4801 soldados norte-americanos. Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?

Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando países da UE membros da NATO podem estar a ser conduzidos, à revelia dos cidadãos, a travar uma guerra contra a Rússia em benefício dos EUA, ou quando o parlamento europeu segue nas suas rotinas de conforto enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra, e a Ucrânia, a próxima Líbia?

As razões da insanidade 

Para entender o que se está a passar é preciso ter em conta dois fatos: o declínio dos EUA enquanto país hegemônico; o negócio altamente lucrativo da guerra. O declínio do poder econômico-financeiro é cada vez mais evidente. Depois do 11 de Setembro de 2001, a CIA financiou um projeto chamado “projeto profecia” destinado a prever possíveis novos ataques aos EUA a partir de movimentos financeiros estranhos e de grande envergadura. Sob diferentes formas, esse projeto tem continuado, e um dos seus participantes prevê o próximo crash do sistema financeiro com base nos seguintes sinais: a Rússia e a China, os maiores credores dos EUA, têm vindo a vender os títulos do tesouro e em troca têm vindo a adquirir enormes quantidades de ouro; estranhamente, este títulos têm vindo a ser comprados em grandes quantidades por misteriosos investidores belgas e muito acima da capacidade deste pequeno país (especula-se se o próprio banco de reserva federal não estará envolvido nesta operação); aqueles dois países estão cada vez mais a usar as suas moedas e não os petrodólares nas transações de petróleo (todos se recordam que Saddam e Kadafi procuraram usar o euro e o preço que pagaram pela ousadia); finalmente, o FMI (o cavalo de Troia) prepara-se para que o dólar deixe de ser nos próximos anos a moeda de reserva e seja substituída por uma moeda global, os SDR (special drawing rights).

Para os autores do projeto profecia, tudo isto indica que um ataque aos EUA está próximo e que para este se defender tem de manter os petrodólares a todo o custo, assegurando o acesso privilegiado ao petróleo e ao gás, tem de conter a China e tem de debilitar a Rússia, idealmente provocando a sua desintegração, tipo Jugoslávia. Curiosamente, os “especialistas” que veêm na venda da dívida uma atitude hostil por parte de potências agressoras são os mesmos que aconselham os investidores norte-americanos a procederem da mesma maneira, isto é, a desfazerem-se dos títulos, a comprar moedas de ouro e a investirem em bens sem os quais os humanos não podem viver: terra, água, alimentos, recursos naturais, energia.

Transformar os sinais óbvios de declínio em previsões de agressão visa justificar a guerra como defesa. Ora a guerra é altamente lucrativa devido à superioridade dos EUA na condução da guerra, no fornecimento de equipamentos e nos trabalhos de reconstrução. E a verdade é que, como escreveu Howard Zinn, os EUA têm estado permanentemente em guerra desde a sua fundação. Acresce que, ao contrário da Europa, a guerra nunca será travada em solo norte-americano, salvo, claro, o caso de guerra nuclear. Em 14 de Outubro de 2014, o New York Times divulgava o relatório da CIA sobre o fornecimento clandestino e ilegal de armas e financiamento de guerras nos últimos 67 anos em muitos países, entre eles, Cuba, Angola e Nicarágua. Esta notícia serviu para que Noam Chomsky dissesse em “The Laura Flanders Show” que aquele documento só podia ter o seguinte título: “Yes, we declare ourselves to be the world´s leading terrorist state. We are proud of it” (“Sim, declaramos que somos o maior estado terrorista do mundo e temos orgulho nisso”).

Um país em declínio tende a tornar-se caótico e errático na sua política internacional. Immanuel Wallerstein refere que os EUA se transformaram num canhão descontrolado (a loose canon), um poder cujas ações são imprevisíveis, incontroláveis e perigosas para ele próprio e para os outros. A consequência mais dramática é que esta irracionalidade se repercute e intensifica na política dos seus aliados. Ao deixar-se envolver na nova guerra fria, a Europa, não só atua contra os seus interesses económicos, como perde a relativa autonomia que tinha construído no plano internacional depois de 1945. A Europa tem todo o interesse em continuar a intensificar as suas relações comerciais com a Rússia e em contar com esta como fornecedora de petróleo e gás. As sanções contra a Rússia podem a vir a afetar mais a Europa que a Rússia. Ao alinhar-se com o militarismo da OTAN onde os EUA têm total preponderância, a Europa põe a economia europeia ao serviço da política geoestratégica dos EUA, torna-se energeticamente mais dependente dos EUA e dos seus estados satélites, perde a oportunidade de se expandir com a entrada da Turquia na União Europeia. E o mais grave é que esta irracionalidade não é o mero resultado de um erro da avaliação dos interesses dos europeus. É muito provavelmente um ato de sabotagem por parte das elites neoconservadoras europeias no sentido de tornar a Europa mais dependente dos EUA, tanto no plano energético e
econômico, como no plano militar.

Por isso, o aprofundamento do envolvimento na OTAN e o tratado de livre comércio entre a UE e os EUA (parceria transatlântica de investimento e comércio) são os dois lados da mesma moeda. 

Pode argumentar-se que a nova guerra fria, tal como a anterior, não conduzirá a um enfrentamento total. Mas não esqueçamos que a primeira guerra mundial foi considerada, quando começou, uma escaramuça que não duraria mais de uns meses. Durou quatro anos e custou entre 9 e 15 milhões de mortos.