Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social ) como todo o corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e retrata uma realidade, que lhe é exterior. Tudo o que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo o que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia
(Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia de Linguagem)
Alguns comentários sobre o meio e a mensagem na internet.

terça-feira, 31 de maio de 2016

EUA - O Grande Irmão prepara a Terceira Guerra Mundial - A Nova Desordem Mundial


EUA em silêncio preparam-se para a guerra, por John Pilger

27/5/2016, John Pilger, Counterpunch

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu



Voltando aos EUA em ano de eleições, o que mais me espanta é o silêncio. Cobri quatro eleições presidenciais, a primeira em 1968; estava ao lado de Robert Kennedy quando foi assassinado e vi o assassino preparando-se para matá-lo. Foi um batismo à moda dos EUA, com a violência que salivava, da polícia de Chicago na conturbada convenção do Partido Republicano. Começava a grande contrarrevolução.

O primeiro que foi assassinado naquele ano, Martin Luther King, ousara associar o sofrimento dos afro-norte-americanos e do povo do Vietnã. Quando Janis Joplin cantou "Freedom’s just another word for nothing left to lose" ["liberdade é só mais uma palavra que resta para [significar] nada a perder"], falava, talvez inconsciente por milhões de vítimas dos EUA em terras distantes.

"Perdemos 58 mil soldados jovens no Vietnã, e eles morreram defendendo a liberdade de vocês. Tratem de não esquecer." Foi o que disse num serviço religioso no National Parks Service semelhante ao que filmei semana passada no Lincoln Memorial em Washington. Falava a um grupo de jovens adolescentes vestidos em camisetas cor-de-laranja. Como se sempre, rotineiramente, mostrasse a história oficial sobre o Vietnã como mentira nunca antes desmascarada.

Como se os milhões de vietnamitas que morreram e envenenados e aleijados e roubados pelos norte-americanos naquela invasão não tivessem lugar histórico na mente dos jovens, para nem falar dos estimados 60 mil veteranos que se suicidaram. Não faltava quem perguntasse a um amigo meu, marine que voltou paraplégico do Vietnã: "Mas você lutou de que lado?"

Há poucos anos, assisti a uma exposição popular intitulada "O Preço da Liberdade", na venerável Smithsonian Institution em Washington. As filas de pessoas comuns, a maioria crianças que entravam como se ali fosse uma caverna de Papai Noel do revisionismo, recebiam sortimento variado de mentiras: a bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki salvou "um milhão de vidas"; o Iraque foi "libertado [por] ataques aéreos de precisão inigualada no mundo". O tema era indiscutivelmente heroico: só os norte-americanos pagam ou algum dia pagaram o preço da liberdade".

A campanha presidencial de 2016 é notável, não só por causa da ascensão de Donald Trump e Bernie Sanders, mas também pela resiliência do impenetrável, duradouro silêncio sobre uma divindade assassina, autorreverenciada. Um terço dos membros da ONU já sentiram o peso do tacão norte-americano, derrubando governos, subvertendo a democracia, impondo bloqueios e sanções. A maioria dos presidentes responsável por tudo isso eram social-democratas – Truman, Kennedy, Johnson, Carter, Clinton, Obama.

O recorde insuperável de perfídia, também por isso, passou por uma mutação na mente popular, como disse o falecido Harold Pinter, "nunca aconteceu (...) Nada jamais aconteceu. Mesmo naquele momento em que estava acontecendo, não estava acontecendo. Não importava. Não interessava. Nunca teve importância...". Pinter expressou admiração irônica pelo que chamou de "manipulação quase clínica do poder em todo mundo, sempre mascarada como se se tratasse de uma força aplicada a favor do bem universal. É brilhante, espertíssimo, pode-se dizer, altamente bem-sucedido ato de hipnose."

Vejam Obama. Agora que se prepara para deixar a presidência, os elogios incansáveis já recomeçaram. Obama é "cool". Um dos presidentes mais violentos e mortíferos, Obama deu rédea solta ao aparelho de produzir guerras do Pentágono do presidente (desacreditado) que o antecedeu. Processou mais sentinelas-vazadores – gente que arrisca a vida para dizer a verdade aos semelhantes – que qualquer outro presidente. Declarou Chelsea Manning culpada, antes de haver sequer julgamento. Hoje, Obama comanda campanha mundial de terrorismo e de assassinatos por drones, de dimensões absolutamente jamais vistas.

Em 2009, Obama prometeu ajudar a "livrar o mundo das armas atômicas" e deram-lhe o Prêmio Nobel. Nenhum presidente algum dia construiu mais ogivas nucleares que Obama. Está "modernizando" o arsenal apocalíptico cos EUA, inclusive com novas 'mini' bombas atômicas, cujas dimensões e tecnologia 'inteligente' (sic), diz um dos altos generais dos EUA, asseguram que o uso das tais bombas "deixou de ser impensável".

James Bradley, autor do best-seller Flags of Our Fathers e filho de um dos marines dos EUA que implantaram a bandeira em Iwo Jima, disse, "[Um] Grande mito que estamos vendo em cena hoje é que Obama seria alguma espécie de sujeito 'pacífico', tentando livrar-se de bombas nucleares. É o maior matador nuclear de que se tem notícia. Meteu os norte-americanos numa trilha de ruína, de gastos de 1 trilhão de dólares em mais armas atômicas. Sabe-se lá por quê, as pessoas vivem nessa fantasia de que, porque Obama faz palestras vagas e ainda mais vagos discursos e faz pose para fotógrafos amigos, alguma dessas coisas teria a ver com a política real. Não. Nada têm a ver uma coisa e outra."

No governo de Obama, está-se construindo uma segunda guerra fria. O presidente russo é o 'malvadão' de filme; os chineses ainda não voltaram a ser a velha caricatura sinistra com rabo de porco que lhes correspondeu no passado – quando os chineses foram banidos dos EUA –, mas os jornalistas pró-guerra já trabalham nisso.

Nem Hillary Clinton nem Bernie Sanders sequer tocaram nesses temas durante a campanha, nem remotamente. Não há perigo. Nenhum perigo ameaça sejam os EUA, seja toda a humanidade. Para os candidatos, não aconteceu o maior acúmulos de forças militares junto às fronteiras da Rússia desde a Guerra Mundial. Não aconteceu. Dia 11 de maio, a Romênia entrou em cena 'ao vivo', com uma base "de mísseis de defesa" da OTAN, que existe para que os EUA tenham a prioridade de um primeiro ataque diretamente contra o coração da Rússia, a segunda maior potência nuclear do mundo.

Na Ásia, o Pentágono está enviando navios, aviões e forças especiais para as Filipinas, para ameaçar a China. Os EUA já cercam a China com centenas de bases militares que desenham um arco, da Austrália até a Ásia, atravessando o Afeganistão. Para Obama, trata-se de "pivô para a Ásia".

Consequência direta disso tudo, a China já mudou oficialmente sua política nuclear, de "nenhum primeiro ataque", para alerta máximo, e já pôs no mar submarinos armados com armas atômicas. A escalada da guerra avança, cada vez mais rápida.

Foi Hillary Clinton quem, como secretária de Estado em 2010, elevou o tom das reivindicações sobre penhascos e barreiras de corais no Mar do Sul da China, como "territórios contestados" e fez disso uma questão internacional; na sequência, foi a histeria de CNN e BBC, para as quais a China estaria construindo pistas de pouso nas ilhas em disputa. Nesse jogo dela em 2015, para guerra de proporções de mamute, a Operação Talisman Sabre, os EUA treinaram ataques contra o estreito de Malacca, por onde transitam quase todo o comércio e o petróleo chineses. Nada disso foi manchete.

Clinton declarou que os EUA teriam "interesse nacional" naquelas águas asiáticas. Filipinas e Vietnã foram encorajados e subornados para que mantivessem as 'demandas' e as disputas contra a China. Nos EUA, as pessoas já estão sendo adestradas para ver qualquer posição defensiva dos chineses, como agressão. Vale dizer que o cenário está pronto para escalada rápida rumo à guerra. E escalada similar de provocação e propaganda está em ação também contra a Rússia.

Clinton, a "candidata mulher", deixa por onde passa uma trilha de golpes sangrentos e morticínio: em Honduras, na Líbia (plus o assassinato do presidente da Líbia) e na Ucrânia.

Ucrânia agora é uma espécie de parque temático da CIA, pululando de nazistas, linha de frente de guerra que está sendo construída contra a Rússia. Foi através da Ucrânia – literalmente, através daquela área de fronteira – que os nazistas de Hitler invadiram a União Soviética, que perdeu, naquela guerra, 27 milhões de pessoas. Essa catástrofe épica é presença eterna na Rússia. A campanha de Clinton à presidência recebeu dinheiro de nove das dez maiores empresas fabricantes de armas do mundo. Nenhum outro candidato sequer se aproxima desses 'números'.



Sanders, esperança de tantos jovens norte-americanos, não é muito diferente de Clinton nesse ideário pelo qual os EUA seriam proprietários do mundo além fronteiras. Sanders apoiou o bombardeio ilegal contra a Sérvia, no governo de Bill Clinton. Apoia o terrorismo de Obama operado por drones, a incansável provocação contra a Rússia e o retorno das forças especiais (esquadrões da morte) ao Iraque. Não disse coisa alguma sobre o crescendo das ameaças à China e o risco crescente de guerra nuclear. Concorda com que Edward Snowden deve ser processado e chama Hugo Chavez – o qual, como o próprio Sanders, foi social-democrata –, de "falecido ditador comunista". E já prometeu apoiar Clinton, se for a escolhida.

A eleição entre ou Trump ou Clinton é a velha conversa fiada de escolher alguma coisa, quando de fato não há escolha: as duas faces da moeda são a mesma face. Fazendo das minorias bode expiatório e prometendo "fazer a América novamente grande", Trump é populista doméstico de extrema direita. Mas em todos os casos Clinton pode ser mais letal para o mundo, que Trump.

"Só Donald Trump disse coisa com coisa contra a política externa dos EUA" – escreveu Stephen Cohen, professor emérito de História Russa em Princeton e na NYU, e um dos poucos especialistas em Rússia nos EUA que falou claramente sobre o risco de guerra.

Num programa de rádio, Cohen referiu-se a questões críticas que Trump, e só ele, havia levantado. Dentre elas: por que os EUA "estão ao mesmo tempo em todos os cantos do mundo?" Qual a verdadeira missão da OTAN? Por que os EUA sempre querem mudar, à força, o regime no Iraque, Síria, Líbia, Ucrânia? Por que Washington trata Rússia e Vladimir Putin como seus inimigos figadais?

A histeria da imprensa de 'esquerda' contra Trump só faz alimentar a fantasia de "debate livre e aberto" e de "democracia em ação". O que ele diz sobre imigrantes e muçulmanos é grotesco, mas nem isso faz dele o deportador-em-chefe das pessoas vulneráveis para fora dos EUA: o deportador-em-chefe é Obama, não Trump. O 'legado' de Obama é ter traído os negros: gerou população carcerária na qual predominam os negros, já mais numerosa que do gulag de Stálin.

A campanha eleitoral em curso pode não tratar de populismo, mas do que o mundo conhece como "'esquerdismo' à moda dos EUA" [orig. American liberalism], uma ideologia que se vê ela mesma como moderna e por isso superior e a única via 'de verdade'. Os que habitam a ala direita desse 'esquerdismo' à moda dos EUA assemelham-se a imperialistas cristãos do século 19, que teriam a missão, dada por Deus, de converter, cooptar ou conquistar.

Na Grã-Bretanha, é o Blair-ismo. Tony Blair, cristão criminoso de guerra safou-se no processo da preparação secreta para invadir o Iraque, principalmente graças à classe política dos esquerdistas à moda dos EUA [orig. liberal political class] e porque a mídia caiu pelo tal "charme britânico" [orig. "cool Britannia"] do homem. No Guardian, o aplauso foi ensurdecedor; foi chamado de "o místico Blair". Uma brincadeirinha conhecida como política de identidade, importada dos EUA, aproveitada para promovê-lo.

A História foi declarada acabada, as classes foram abolidas e o gênero foi promovido a feminismo; muitas mulheres foram eleitas ao Parlamento pelo Novo Trabalhismo. No primeiro dia, votaram a favor de o Parlamento cortar os benefícios para famílias de pai ou mãe solteiros (a maioria, de mães solteiras e provedoras únicas), exatamente como haviam sido instruídas a fazer. A maioria da bancada 'feminista' votou a favor de uma invasão que produziu 700 mil viúvas iraquianas.

Equivalente a isso ´nos EUA são os belicistas promovidos a politicamente corretos no New York Times, Washington Post e redes de TV que dominam o debate político. Assisti a um debate feroz na CNN sobre as infidelidades conjugais de Trump. Evidentemente, diziam lá, homem desse tipo não poderia tomar conta da Casa Branca. Nada se discutiu, nada. Nem uma palavra sobre os 80% da população dos EUA, cujos níveis de renda desabaram para níveis de 1970s. Nem uma palavra sobre o alistamento militar. A palavra que desce dos céus sobre a humanidade parece ser "tape o nariz" e vote Clinton: qualquer coisa é melhor que Trump. Só assim você poderá deter o monstro e preservar um sistema que se calibra para mais uma guerra.



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Cibernética – A Desconstrução do Homem no Século XXI ou O Equívoco de Edvard Kardelj


Por: Julio Kling

“Hoje seria possível, com a ajuda dos meios modernos da matemática, da cibernética, da teoria da informação e dos métodos do materialismo histórico, analisar a sociedade como sistema, organizado de certo modo, e que se desenvolve. Seria possível estabelecer exatamente quais são hoje as necessidades da sociedade e as possibilidades de satisfazê-las, qual a capacidade e a tendência da evolução da prática social e do conhecimento social.” ( Zeman)



O que define nossa humanidade, desde os primórdios dos tempos é nossa capacidade de existir independente de condicionantes e limites pré-estabelecidos, que não somente aqueles originados dos princípios naturais atávicos da ordem social dos primatas, por definição, de nossa herança familiar genética e só dela proveem o instinto básico decorrente gerador da afinidade biológica do ser em relação a sua prole no processo de procriação e seleção, condição primordial do excelente sucesso que garante o crescimento da espécie humana no planeta.

Foi Etienne de La Boétie em seu Discurso da Servidão Voluntária² (ver bibl)., escrito em 1549, que soube expressar a questão de forma mais grave. Por sua natureza, o homem é livre; e o exemplo dos animais que preferem morrer a ser subjugados deveria fortificá-lo nesta disposição; pela linguagem, ele entra em amizade e em sociedade com outros homens; essa sociedade deveria lhe bastar. Mas ele se deixa sempre invadir pela dominação.

Para compreender essa submissão, é preciso evocar a dominação do mais forte? Por que centenas de milhares, de milhões de indivíduos se rebaixam a ponto de receber ordens de uma só pessoa? Será correto evocar o interesse? Que interesse pode haver em se deixar saquear, espoliar e subjugar? Será que se impõe uma razão superior? Mas que razão, quando é evidente que as ordens decorrem do capricho do soberano e, no caso da imensa maioria, são prejudiciais a ela? Por qualquer ângulo que se tome a questão, ela ainda continua sem resposta.   

Entretanto foi justamente a evolução da complexidade interrelacional e seus aspectos constitutivos, para garantir a sobrevivência do núcleo familiar, primeiro enquanto clã e depois o desdobramento em tribo, processo de associação que possui centenas de milhares de anos de maturação, veio a atingir seu ápice, sua culminância social com o advento da cidade estado com a consequente razoável perda da liberdade do individuo.

O conceito de cibernética surgido no período Clássico grego foi forjado como abstração, em função das novas necessidades de organização humana, com clãs e tribos amontoados nos arrabaldes e suas elites protegidas atrás dos muros das cidades estado do mundo Antigo, nem sempre em condições ideais de convivência, como necessidade conceitual da manutenção da coexistência pacifica de diferentes grupos sociais e classes de cidadãos, escravos e comerciantes convivendo no regime de castas e visando a sua organização, segurança e bem comum dentro do mesmo espaço geográfico.

A origem do termo remonta a Platão, que emprega cibernética como a arte de pilotar navios (Górgias 511 e Político 299) e, em seu sentido mais amplo, a arte de governar o Estado. No entanto, Wiener, que usou o termo dentro do conceito utilizado hoje na área de computação, possivelmente ignorava tal conotação política quando a utilizou no pós segunda guerra.¹

Platão desenvolveu uma crítica bastante viva da democracia do seu tempo. Esta crítica baseia-se nos seguintes argumentos:

- A massa popular (oi polloi) é assimilável por natureza a um animal escravo de suas paixões e interesses passageiros, sensível à lisonja, inconstante em seus amores e em seus ódios; confiar-lhe o poder é aceitar a tirania de um ser incapaz da menor reflexão de do menor rigor.

- Quando a massa designa seus magistrados, ela o faz em função das competências  que acredita ter constatado – em particular, as qualidades no uso da palavra – e disso infere irrefletidamente a capacidade política.

- Quanto às pretensas discussões na Assembléia, são apenas disputas contrapondo opiniões subjetivas, inconsistentes, cujas contradições e lacunas traduzem bastante bem o seu caráter insuficiente.

Em suma, a democracia é ingovernável segundo Platão: o exemplo de Atenas o prova, uma cidade que perdeu a guerra contra Esparta e condenou Sócrates à morte. Sua desordem leva a tirania e induz todos à imoralidade. A refutação é banal; mas o argumento que a apóia coloca um problema político capital: o da relação entre Saber e Poder.²

A visão aristocrática de Platão em seu Diálogo “A República” imagina dividir a sociedade em três castas definidas: os guardiões do Estado, os militares e os trabalhadores que inclui os artesões e comerciantes que detêm o poder econômico, mas contudo sem alcançar o poder secular. Trata a classe dominante como uma elite de homens e mulheres perfeitos, dedicados ao serviço da Polis. A igualdade só existe nas classes superiores. Platão, um aristocrata ateniense rico e orgulhoso despreza as massas.

Como todos os sistemas de dominação da Antiguidade, o sistema econômico vigente baseava-se na exploração da mão de obra escrava, o que era considerado natural pelo filósofo. Sua teoria política desprezava a retórica e demonstrava um total desinteresse pelas funções de produção e troca. O regime imaginado por ele não tem outra função a não ser tornar os homens mais sábios e virtuosos, afastando-os dos bens materiais. Dizem que Platão tinha um coração espartano. É por isso que ele reservava o poder aos prudentes e aos eruditos escolhidos na casta mais elevada dos defensores da cidade. Ele pretendia uma sofocracia, isto é, um governo de sábios.³

Quando tratamos do assunto relacionado com a teoria da informação não podemos deixar de lembrar o desenvolvimento que esta tecnologia obteve desde que os primeiros cientistas como Wiener tentaram definir a nova ciência nos últimos 60 anos. Hoje a cibernética é tratada como algo distante, algorítmicos de linguagem de máquina, muito além do cotidiano do usuário normal de um sistema tipo notebook, celular ou iphone.  Como emissores e receptores vivos interconectados nestes sistemas de informação somos agentes ativos e passivos onde a informação não é apenas uma medida de organização do sistema, mas um fim nela mesmo, o agente é parte da evolução, sendo a informação no sentido entrópico, juntamente com o espaço, o tempo e o movimento, como outra forma fundamental da existência da matéria, estreitamente vinculada à evolução e o aumento de sua complexidade no sentido de atingir qualidades superiores de simbiose homeostática entre homem e máquina com razoável tolerância.

Desde que os biólogos e tecnólogos começaram a falar no mesmo idioma, ou seja, de coisas semelhantes em termos de organização de sistemas de informação em seus respectivos ramos de pesquisa, através principalmente da identificação dos fenômenos de informação e comunicação em geral e do feed-back no processo de regulação do sistema estudado houve uma unificação da cultura do conhecimento sem precedentes.

Quando a natureza há 3,5 bilhões de anos atrás construiu o primeiro sistema começou a vida, principio básico semelhante adotado para a montagem de organismos artificiais de maior complexidade e alto desempenho a tal ponto de ocorrerem intersecções conceituais importantes entre organismos vivos e máquinas, já que determinadas funções, básicas e importantes são comparáveis entre ambos.
Esta nova visão de mercado, com o crescente impacto da rede mundial de computadores na vida de toda a humanidade, que hoje integra-se na maioria dos hardwares de comunicação existentes começa a desenvolver uma nova mentalidade em direção ao controle da cultura de massas numa interação de circuito fechado onde operador e operação se confunde.

Assim sendo fica cada vez mais difícil definir o limite da classificação entre o racional e o irracional, já que tais conceitos, como tantos outros, recentemente sofreram profunda alteração de qualificação e compreensão. Podemos dizer então que tanto máquinas e organismos são racionais, quando seus desempenhos traduzem o plano de suas finalidades, para as quais foram projetados ou organizados pela ordem natural. Irracional seria o desempenho de uma máquina ou organismo que não satisfaça a finalidade, o plano para o qual foi concebido ou criado, por razões incontroláveis ou problemas de ruído de comunicação do sistema.

Racionalidade ou irracionalidade de desempenho portanto estão profundamente ligados ao comando e controle, no momento da ação, e em nível anterior, ao planejamento e adequada estrutura, organização dos elementos do organismo ou da máquina em relação ao objetivo inicial do processo organizador.

Sabe mais o operador ou a máquina?

Maquina de Hollerith



Desde que Hollerith no começo do século XX desenvolveu sua máquina para calcular o censo eleitoral nos EUA com sucesso e depois a mesma tecnologia serviu de sistema de controle social para os nazistas na Alemanha de Hitler, com amplo apoio logístico da empresa que iria tornar-se a gigante IBM, a tecnologia da informação sofreu um salto vertiginoso, o agente ou operador de máquina passou a ser denominado usuário no fim do século passado desses dispositivos eletrônicos de computação, cada vez mais sofisticados, mais ainda restritos ao uso corporativo, que foram progressivamente  reduzidos em tamanho e consumo de energia, e com o advento da microeletrônica dos PC’s passou o operador da condição de agente para a condição de consumidor de informação, como parte integrante do sistema, mais um periférico, que ao receber impulsos de informação devolve para o sistema um feedback não mais em linguagem de máquina, ou melhor, uma realimentação que complementará o resultado final do sinal e agregará valor para a rede com uma nova informação a ser compartilhada pelos demais periféricos que estão conectados a outros terminais espalhados pelo planeta. Do controle de mão única das robustas e lentas máquinas do século passado, para uma via larga de mão dupla que se auto-regula e auto-realimenta, e que atua de forma subliminar e ao mesmo tempo coloquial, como condicionante cultural, com bem mais eficiência que as velhas centrais de processamento de dados no que diz respeito ao controle da informação pelos grupos econômicos que detém o saber e o poder tecnológico e de mercado.

Presente hoje em todas as realidades cotidianas da comunicação humana a concepção técnica inicial, que era a valorização do Hardware, no seu sentido mais amplo da concentração de poder entre os Estados e as grandes corporações com seus centros de inteligência operados por técnicos especialistas volatizou-se e emigrou para o Software, no sentido da informação em rede abrangendo uma área de expansão de poder muito maior geograficamente e não localizada do ponto de vista da comunicação, o aprimoramento de compatibilidade e padronização do sinal em sua forma virtual, criando uma unidade semiológica dinâmica sem precedentes que por certo levará a homogeneização da cultura a longo prazo, fenômeno que já podemos perceber no aspecto comportamental dos indivíduos em diferentes partes do mundo.
O fenômeno que era na metade do século passado associado ao poder da televisão como veículo transmissor de informação de baixa qualidade, como advertiu Macluhan, mas com alta intensidade de penetração junto ao público, hoje se repete nos demais dispositivos eletrônicos de comunicação que compõem o universo da vida do cidadão comum no raiar do século XXI com muito mais interatividade do operador que deixou de ser um simples espectador.

É evidente que, surgida de projetos militares das forças armadas dos EUA, e posteriormente disponibilizada para uso cientifico e hoje privatizada, a rede mundial de informação, com seus grandes servidores alojados em território norte americano, sempre irá priorizar a ideologia de poder de quem detém os grandes bancos de dados e que possuem o interruptor sobre seu estrito controle. Este é o verdadeiro sentido da cibernética: controlar as máquinas que controlam os homens que controlam as máquinas exercendo seu poder hegemônico.



A ética amoral da informação está restrita a sua função ou seu fim. A função da informação é garantir o poder de quem a controla e, portanto sua ética hoje é de uso restrito da manutenção do poder sobre homens e máquinas pelas grandes corporações e órgãos estatais estabelecendo um contexto cultural subliminar dinâmico de controle absoluto e sem mobilidade social como queria Platão.

Para o controle ser eficiente é necessário ser sutil, proporcionar uma falsa sensação de liberdade entre todas as facções e públicos envolvidos visando proporcionar ao operador do periférico a suficiente liberdade de acesso, para que, sem solução de continuidade, o fluxo constante do sistema de informação seja mantido e realimentado.

O público receptor e transmissor que compreende o universo da rede mundial de informação e seus vários grupos componentes, independente da ideologia, integram o combustível desta grande fornalha, pois são os outputs gerados, ou tendências de informação que definem como serão os inputs  que municiam as grandes corporações, os mercados e os governos, os grupos de poder verdadeiro por trás dos seus títeres que discursam nas câmaras, que na verdade definem as políticas que promovem o controle social por trás das instituições pseudo democráticas falidas no mundo todo através deste feed-back regulatório. É o que denominam os especialistas de retroação negativa ou auto-reguladora.

O Ambiente como exemplo de sistema de retroação negativa
Enquanto os grandes centros urbanos do planeta aos poucos entram em colapso, a mídia eletrônica avança como sustentáculo real de poder através da difusão da ideologia capitalista e do consumo como fator ideológico de dominação. A satisfação desmedida do prazer, o culto a violência e o incentivo ao ilícito são difundidos de forma subliminar através da cinematografia documental e de ficção e cumprem sua função emuladora de um círculo vicioso que nunca finda.

É importante para os detentores do poder de comunicação difundirem através dos seus audiovisuais, de forma indireta, o crime como atividade glamorosa e lucrativa principalmente para as gerações mais jovens desfavorecidas que habitam as favelas do terceiro mundo e assim controlar mais eficientemente através do “combate ao crime organizado” a chacina das classes mais pobres através da repressão paga pelo sistema. Assim é justificada uma política de extermínio difundida pelos meios como política de manutenção da lei insuflando o terror  na opinião pública da classe intermediária sempre sedenta pela preservação do “status quo” próprio, e em permanente estado de luta de classes, como ferrenha defensora de seus pseudo privilégios, enquanto isso a classe dominante dissemina o ódio, a competição  e o medo entre classes para manter seu poder inabalável, no sentido "divide et impera", como ação regulatória do sistema, mantendo mão firme no controle do timão da história.

Já na retroação positiva ou amplificadora o retorno da saída (output) à entrada (input) possui o mesmo sinal, que se intensifica, como fenômeno de amplificação auto alimentado. Os sistemas que possuem este tipo de retroação são instáveis e tendem a desorganização terminal, ou em certos casos, de acordo com sua potencialidade, só encontram a estabilidade em outro patamar ou escala. Neste caso a instabilidade intensifica-se através de um círculo “vicioso”. Um exemplo dessa função foi a quebra do Last National Bank em 1932 em função de boatos em relação a sua liquidez, que eram inverídicos. Os rumores levaram os depositantes a retirarem suas economias causando a insolvência real do banco. Neste caso cada retirada  aumentava a probabilidade de ocorrerem outras.¹

Poder de Difusão da Opinião em REDE
Fenômenos semelhantes ocorrem todos os dias em nossa economia de mercado de forma natural ou estimulada por grupos econômicos e cartéis através da mídia. A inflação de expectativa e sem causa natural, de efeito “em cascata” junto ao mercado, com certeza outro  exemplo originado por este fenômeno.

Nestes acontecimentos conforme Deutsch (1966, pág. 193), o dado mais importante é a avaliação quantitativa do comportamento do sistema de retroação positiva. Se a série de impulsos amplificadores for crescente em cada ciclo sucessivo, pode exceder os limites do sistema, que termina por exaurir-se. Se, ao contrário ocorrer uma tendência decrescente, a sua somatória pode estar ainda dentro dos limites do sistema manter o equilíbrio.¹

As organizações sociais e políticas detestam a desordem, tanto quanto a natureza detesta o vácuo. Nestas condições, os sistemas sociais, quando eventualmente desestabilizados, buscam rapidamente novos patamares homeostáticos de equilíbrio.

Os grupos primários, as instituições, as organizações burocráticas e políticas que na verdade são controladas pelas grandes corporações no Ocidente, são sistemas de alta estabilidade, mas que em certas circunstâncias especiais podem ser abalados, desagregar-se ou transformar-se caso sintam-se ameaçadas pelas mudanças. Estas organizações podem demonstrar grau elevado de flexibilidade e adaptabilidade. Possuem dispositivos que absorvem ruídos ou desvios; em certas situações estes mesmos fatores podem, no entanto, ser responsáveis por mudanças positivas ou negativas.

Tanto a manutenção como a mudança dependem de uma série de fatores que interagem em cada momento histórico. A mudança depende da percepção do individuo que poderá chancelar o “status quo” ou promover mudanças a partir da percepção que tem da situação, e junto ao seu grupo de influência irá interpretar e avaliar o acontecimento para atuar conforme as condições estabelecidas.

Qual é, porém, o papel dos desvios e das desordens nas mudanças sociais? Em outras palavras, em que circunstâncias este fatores as precipitam? Esta questão é claramente colocada por Edgar Morin:

“O que é, então, a evolução social? Ela não é mais que a integração de um elemento novo que, por isto mesmo representa uma desordem porque perturba sua autoperpetuação invariante. Assim, quanto mais uma sociedade é ‘quente’, mais ela contém tanto desordens quanto liberdades, mais ela tolera o nascimento de microdesvios. Estes desvios poderão se transformar em tendências a favor dos antagonismos e dos conflitos sociais que, desta forma, se tornam vetores e motores efetivos das mudanças.” (E. Morin, La Nature de la societé. Communications, Paris, Seuil, n° 22, 1974. Pág 14-15)¹

Este ponto de vista é contrário ao que os estudiosos da comunicação pretendem na atual conjuntura. Estabelecer comportamentos alienados com a realidade factual tem sido o principal objetivo dos principais meios de comunicação do planeta, como muito poucas exceções. Estes grupos formadores de opinião principalmente no hemisfério norte pretendem enfatizar os mecanismos preservadores do equilíbrio e por isso adotam o sistema de retroação auto-reguladora e assim preservar a homeostase.

Na América do Sul, onde governos populares assumiram recentemente em vários países, voltados a políticas sociais, a mídia conservadora que detém grande poder pretende com seu constante rufar dos tambores da guerra contra as mudanças sociais solapar qualquer esforço de revolução social pacifica. Patrocinados pelas mesmas grandes corporações, que em suas matrizes no exterior apregoam a obediência das populações, nos continentes sul americano e na África promovem a discórdia entre classes e tribos para melhor explorar as riquezas que históricamente sempre saquearam do hemisfério sul para manter os seus hoje decadentes e pouco democráticos sistemas políticos no Norte, cada vez mais distantes da manutenção do welfare state.

Não é a ameaça do sistema de medo da distopia de Orwell em seu 1984 que vivemos hoje. Está mais certo Huxley em sua visão de um mundo futuro controlado por grandes corporações, onde a informação veiculada em grande quantidade através dos meios eletrônicos só promove a superficialidade e a ignorância das gerações mais jovens como se isso fosse algum tipo de virtude. O materialismo e o consumismo é a verdadeira ideologia que substituiu a antiga fé religiosa, ou a adaptou para filosofias de prosperidade nos templos onde o individuo vale pelo que possui e não pelo que integra de conhecimento na sociedade. Num mundo superlotado este tipo de filosofia pode transformar-se num efeito bumerangue, e um grande empecilho para os que detêm o capital, a longo prazo, pois com a grande concentração populacional logo teremos um sistema que mais se assemelhará a barbárie e cada vez mais estará o sistema perto do caos em escala circular descendente com bolsões de miséria absoluta sem controle e nichos de alto desenvolvimento tecnológico cercados de muros convivendo juntos, cercas da exclusão que mais cedo ou mais tarde serão obsoletas, como é hoje a Muralha da China.

O equivoco de Edvard Kardelj de que fala o título, um filósofo marxista que foi Vice- Presidente do Conselho Federal da antiga Yugoslávia foi acreditar que uma Europa "social-democrata" poderia coexistir com um estado marxista sem querer intervir ou solapar o sistema federativo daquele país, o único que conseguiu expulsar os nazistas de seu território sem ajuda de forças externas na II Guerra Mundial. Ele foi defensor da coexistência pacifica ativa, sustentada pelos comunistas iugoslavos, contra a tese da inevitabilidade da guerra defendida pelos comunistas chineses lá pelos idos da década de 60. Não é necessário comentar como ele equivocou-se na sua interpretação histórica dos interesses externos ao seu país. Nem sequer existe mais a federação Yugoslava destruída pelos seus “aliados” europeus com apoio irrestrito dos EUA.  O resto é história.



                         
Bibliografia:
1    1)    Cibernética – Isaac Epstein – Ed. Ática – 1986
2    2)    História das Ideias Políticas – François Châtelet / Olivier Duhamel / Evelyne Pisie-Kouchner – Jorge Zahar Editor – 1985
3   3)    Os Socialismos Utópicos – Jean-Christian Petitfils – Zahar Editores – 1977

4   4)    Cibernética e Cultura – Marcello Casado D’Azevedo – Livraria Sulina Edit. – 1978

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Abelhas - Ameaça à Biodiversidade e Extinção de Espécies pelo Capital Selvagem




Fabricantes de pesticidas gastam milhões para ocultar desaparecimento de abelhas




Dois neonicotinoides amplamente usados na fabricação de pesticidas parecem prejudicar seriamente as colônias de abelhas, segundo um estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard. Em abril de 2015, a revista Science publicou dois estudos adicionais que corroboram as descobertas de Harvard sobre neonicotinoides utilizados no tratamento de sementes para mais de 140 cultivos. Estes pesticidas sistêmicos fabricados pela Bayer, Syngenta e Monsanto são absorvidos pelas raízes e folhas e distribuídos através de toda a planta, incluindo seu pólen e néctar.

A reportagem é publicada por Mapocho Press, 01-11-2015. A tradução é de André Langer.

Para os polinizadores, a exposição de baixo nível pode levar a efeitos subletais, como alteração de aprendizagem, deficiência na busca de alimentos e imunosupressão; a exposição a níveis superiores pode ser letal.

Em resposta à evidência científica deste tipo, as três principais empresas produtoras de pesticidas –Bayer, Syngenta e Monsanto – participam de campanhas massivas de relações públicas, efetuadas a um custo que ultrapassa os 100 milhões de dólares e empregando táticas similares àquelas utilizadas durante décadas pelas grandes fumageiras para negar os efeitos perniciosos na saúde pública.

Como informara Michele Simon em um estudo da Friends of the Earth (Amigos da Terra), estas táticas incluem a criação de distrações para culpar qualquer coisa, menos os inseticidas, pelos colapsos documentados nas populações de abelhas, incluindo, por exemplo, acusações contra os agricultores por suposto mau uso dos pesticidas. Estas empresas também atacam os cientistas e jornalistas para desacreditar suas conclusões.

Ao mesmo tempo, Bayer, Syngenta e Monsanto tentam comprar credibilidade mediante o cultivo de alianças e associações estratégicas com agricultores, apicultores e organizações agrícolas com a esperança de se representarem como “amigos das abelhas”. Assim, por exemplo, a Monsanto anunciou a formação de um Conselho Assessor da Abelha Melífera, uma aliança estratégica de executivos da Monsanto e outros. A Associação Britânica de Apicultores recebeu um importante financiamento da Bayer, Syngenta e outras empresas de inseticidas. Em troca, os inseticidas foram aprovados como “amistosos com as abelhas”.

Como relatou Rebeca Wilce para a PR Watch, “em vez de agir sobre um problema que ameaça a produção de alimentos em todo o mundo, as empresas de inseticidas pegaram uma página do manual de jogadas da indústria do tabaco para aumentar de maneira gradual os esforços para semear dúvidas sobre a magnitude do problema e sobre o seu próprio potencial papel na crise”. Na contramão, assinalou Wilce, a União Europeia colocou em prática uma proibição de dois anos para o uso dos três neonicotinoides mais comuns: imidacloprid, clotianidina e tiametoxam.

Escrevendo para a Wired, em junho de 2014, Brandom Keim informou sobre outro estudo da Friends of the Earth que mostra as floriculturas de grandes lojas da América do Norte, incluindo Home Depot, Lowe e Walmart, vendendo plantas com propaganda de ‘ostensivamente amigáveis com as abelhas’, mas que, na verdade, contêm altos níveis de neonicotinoides. O estudo descobriu que 36 de 71 (51%) amostras de plantas de jardim compradas nas principais floriculturas de 18 cidades dos Estados Unidos e Canadá continham pesticidas neonicotinoides. 40% das amostras positivas continham dois ou mais tipos de neonicotinoides. “Infelizmente”, escreveram os autores do relatório, “os jardineiros residenciais não têm ideia de que na realidade podem estar envenenando os polinizadores através de seus esforços para plantar jardins amistosos com as abelhas”.

Embora os principais meios de notícias, por exemplo, o New York Times, o Washington Post e aNational Public Radio publicaram dois anúncios de capa com marca Nature sobre os efeitos negativos dos neonicotinoides nas abelhas, mas não informaram sobre as campanhas de relações públicas da Bayer, Syngenta e Monsanto, que têm como objetivo minar as conclusões dos estudos científicos e desviar a culpa dos pesticidas.

Do mesmo modo, esses meios de imprensa cobriram o anúncio da Lowes de que já não venderá mais produtos que contenham neonicotinoides, mas não informaram que as plantas “amistosas com as abelhas” vendidas nas floriculturas nos Estados Unidos na realidade podem estar enganando os clientes bem intencionados e expondo os polinizadores aos neonicotinoides em seus próprios jardins familiares.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Discurso de Putin nas Nações Unidas - O Urso Desperto




Uma lição aos americanos. Discurso de Putin na ONU

(...), "Senhoras e senhores.

O 70º aniversário da ONU é boa ocasião para considerar a história e falar de nosso futuro comum.

Em 1945, os países que derrotaram o nazismo reuniram esforços para lançar fundações sólidas para a ordem mundial do pós-guerra. Permitam-me lembrar-lhes que as decisões chaves sobre os princípios que guiaram a cooperação entre estados e o estabelecimento da ONU foram tomadas em nosso país – em Yalta, na Crimeia – onde se reuniram os líderes da coalizão anti-Hitler.

O "sistema de Yalta" nasceu de fato em ação. Nasceu ao custo de dez milhões de vidas e de duas guerras mundiais que varreram o planeta no século 20. Sejamos justos – o sistema de Yalta ajudou a humanidade a atravessar eventos turbulentos, muitas vezes dramáticos, das últimas sete décadas. E salvou o mundo de levantes em grande escala.

A ONU é única em sua legitimidade, representação e universalidade. É verdade que, em tempos recentes, a ONU tem sido amplamente criticada por supostamente não ser suficientemente eficiente e pelo fato de que a tomada de decisão em questões fundamentais resulta paralisada por diferenças insuperáveis – em primeiro lugar entre os membros do Conselho de Segurança.

Mas gostaria de lembrar que sempre houve diferenças na ONU ao longo desses 70 anos. O direito de vetar sempre foi exercido pelos EUA, pelo Reino Unido, pela França, pela China, pela União Soviética e pela Rússia em pés de igualdade.

É absolutamente normal que seja assim, numa organização representativa e tão diversa. Quando a ONU foi constituída, os fundadores de modo algum supuseram que sempre haveria unanimidade. De fato, a missão da ONU é buscar e alcançar consensos, sempre, claro, com concessões. A força da ONU advém de levar em consideração diferentes visadas e opiniões.

Decisões debatidas na ONU podem ser convertidas em Resolução, ou não. Como dizem os diplomatas, elas "passam ou não passam". E todas e quaisquer ações que um estado empreenda sem considerar esses procedimentos são ações ilegítimas, colidem com a Carta da ONU e desafiam a lei internacional.

Todos sabemos que, depois do fim da Guerra Fria, emergiu no mundo um centro de dominação. E então, os que se viram naquele momento no topo da pirâmide foram tentados a crer que, "se somos tão fortes e excepcionais, então sabemos mais e melhor o que fazer, que o resto do mundo; assim sendo, por que, afinal, teríamos de reconhecer a ONU, a qual, em vez de automaticamente autorizar e legitimar decisões que pareçam necessárias, tantas vezes cria obstáculos ou, em outras palavras "mete-se no caminho?".

Já se tornou lugar comum dizer que, no formato original, a organização tornou-se obsoleta e já teria cumprido sua missão histórica.

Claro, o mundo está mudando, e a ONU tem de ser consistente com essa transformação natural. A Rússia está pronta a trabalhar com todos os parceiros, à base de consenso amplo, mas consideramos extremamente perigosas as tentativas para solapar a autoridade e a legitimidade da ONU. Podem levar ao colapso de toda a arquitetura das relações internacionais. Aí, não nos restariam outras leis, se não a lei do mais forte.

Poderíamos chegar a um mundo dominado pelo egoísmo, não pelo trabalho coletivo. Um mundo cada vez mais caracterizado pela violência, não pela igualdade e por democracia e liberdade genuínas. Um mundo no qual estados verdadeiramente independentes seriam substituídos por número crescente de protetorados de fato e territórios controlados de fora para dentro.

O que é, afinal, a soberania do Estado? A soberania tem a ver, basicamente, com liberdade e com o direito de cada pessoa, nação ou estado escolher livremente o próprio futuro.

Na mesma direção, caminha a chamada "legitimidade da autoridade do Estado". Não se deve brincar com elas, nem manipular as palavras. Na lei internacional, nos negócios internacionais, cada termo deve ser claro, transparente, interpretado por critério uniformemente compreendido por todos.

Todos somos diferentes. E todos devemos respeitar as diferenças. Ninguém tem de encaixar-se num único modelo de desenvolvimento que outro, em algum momento, tenha decidido, de uma vez por todas, e para todos, que seria o único modelo correto.

Todos devemos lembrar o que nosso passado nos ensinou. Também recordamos alguns episódios da história da União Soviética. “Experimentos sociais" para exportação, tentativas de impor mudanças dentro de outros países baseadas em preferências ideológicas, quase sempre levaram a consequências trágicas e à degradação, não ao progresso.

Parece, contudo, que longe de aprender com os erros dos outros, tantos agora se põem, exatamente, a repeti-los. Por isso, continua a exportação de revoluções, agora chamadas "democráticas".

Para ver que assim é, basta examinar a situação no Oriente Médio e Norte da África. Claro que naquela região os problemas sociais já se acumulavam há longo tempo. Claro que as pessoas queriam mudanças.

Mas no que realmente deu tudo aquilo? Em vez de promover reformas, uma interferência estrangeira agressiva resultou na visível destruição de instituições nacionais e, até, de estilos de vida. Em vez de algum triunfo da democracia e de mais progresso, o que obtivemos foi mais violência, mais miséria e um desastre social. E ninguém dá qualquer atenção a qualquer dos direitos humanos, inclusive ao direito de viver.



Não posso me impedir de perguntar aos que causaram essa situação: Os senhores dão-se conta do que fizeram? Mas temo que ninguém responderá minha pergunta. Na verdade, nunca foram abandonadas as sempre mesmas políticas baseadas na arrogância, na cega confiança na própria "excepcionalidade" e 'correspondente' total impunidade.

Já é agora óbvio que o vácuo de poder criado em alguns países do Oriente Médio e Norte da África levou à emergência de áreas de anarquia. As quais, imediatamente, passaram a encher-se de extremistas e terroristas. Dezenas de milhares de militantes combatem hoje sob os estandartes do chamado "Estado Islâmico". Naquelas fileiras há ex-soldados iraquianos desmobilizados e jogados à rua depois da invasão do Iraque em 2003. Muitos dos recrutados também vêm da Líbia – país onde o próprio Estado foi destruído, na sequência de grosseira violação da Resolução nº 1.973 do Conselho de Segurança da ONU.

E agora as fileiras dos radicais são inchadas por membros de uma chamada "oposição síria moderada", sustentada, mantida, por países ocidentais. Primeiro, os radicais são armados e treinados; imediatamente depois, desertam e unem-se ao Estado Islâmico.

Mas o próprio Estado Islâmico, ele tampouco surgiu do nada, de lugar algum. O Estado Islâmico foi forjado inicialmente como ferramenta a empregar contra regimes seculares indesejáveis. Em seguida, depois de ter estabelecido uma base no Iraque e na Síria, o Estado Islâmico pôs-se a se expandir ativamente para outras regiões. Agora, busca dominar o mundo islâmico. E tem planos para avançar ainda além disso.

A situação é mais do que perigosa. Nessas circunstâncias, é atitude hipócrita e irresponsável pôr-se a fazer 'declarações' sobre a "ameaça do terrorismo internacional", ao mesmo tempo em que os mesmos 'declarantes' fingem que não veem os canais por onde caminha o dinheiro que financia e mantém terroristas, inclusive o tráfico de drogas e o comércio ilícito de petróleo e de armas. Também é igualmente irresponsável tentar 'manobrar' grupos extremistas e pô-los a seu próprio serviço para que 'colaborem' na busca de objetivos políticos só dos supostos 'manobradores', na esperança de "negociar com eles" ou, dito de outro modo, sob a certeza de que, "depois", poderão matá-los facilmente.

Aos que têm procedido assim, gostaria de dizer: "Caros senhores, não duvidem: os senhores estão lidando com gente dura e cruel, mas não são pessoas 'primitivas' ou 'atrasadas'. São exata e precisamente tão espertos quanto os senhores. Na relação com eles, ninguém jamais saberá quem manipula quem. Perfeita prova disso está nos dados recentes sobre destino final do armamento doado àquela oposição suposta "moderada".

Os russos acreditamos que qualquer tentativa de 'jogar' ou 'brincar' com terroristas – e de armar terroristas, então, nem fala! – não é só comportamento de pessoas sem visão, mas é criar pontos de alto risco de fogo, do tipo que iniciam grandes incêndios. É comportamento que pode resultar em aumento dramático na ameaça terrorista, e que se alastre para outras regiões – dado, especialmente, que o Estado Islâmico reúne em seus campos de treinamento militantes de muitos países, inclusive de países europeus.

Infelizmente, a Rússia não é exceção. Nós não podemos deixar que esses criminosos que já provaram o cheiro de sangue voltem aos seus países, para continuar suas práticas assassinas. Ninguém quer que tal coisa aconteça, suponho.

A Rússia sempre se opôs firme e consistentemente, sempre, contra o terrorismo em todas as suas formas. Hoje, damos assistência militar e técnica ao Iraque e à Síria, que enfrentam grupos terroristas.

Entendemos que é erro enorme e grave recusar-se a cooperar com o governo sírio e suas forças armadas, que valentemente lutam cara a cara contra o terrorismo. É mais que hora de reconhecer afinal que ninguém, além das forças armadas do presidente Assad e das milícias curdas estão dando real combate ao Estado Islâmico e a outras organizações terroristas na Síria.

Caros colegas, devo notar que a abordagem direta e honesta da Rússia foi recentemente usada como pretexto para nos acusar de estarmos alimentando ambições crescentes (como se os que nos acusam fossem libertos de todas as ambições...).

Mas a questão não são as ambições russas. A questão é reconhecer o fato de que já ninguém pode continuar a tolerar o atual estado de coisas no mundo.

Na essência, estamos sugerindo que nos façamos guiar por valores comuns e interesses comuns, não por ambições. Temos de unir esforços, considerando a lei internacional, para enfrentar os problemas que estão diante de todos nós, e criar uma coalizão ampla e genuinamente internacional contra o terrorismo.

Semelhante à coalizão que se constituiu anti-Hitler, a nova coalizão dever unir gama ampla de forças que desejem resolutamente resistir contra os que, exatamente como os nazistas, semeiam o mal e o ódio contra a humanidade.

Evidentemente, os países muçulmanos têm papel chave a desempenhar na coalizão, tanto mais que o Estado Islâmico não é só ameaça contra a sobrevivência deles, mas, além disso, ativamente agride e ofende, com suas práticas sanguinárias, uma das maiores religiões do mundo. Os ideólogos daquela militância zombam do Islã e pervertem todos os valores verdadeiramente humanistas do Islã.

Gostaria de me dirigir aos líderes espirituais muçulmanos, porque sua autoridade e orientação são agora ainda mais profundamente importantes. É essencial impedir que jovens recrutados por militantes tomem as mais desgraçadas decisões sobre a própria vida. E também os que já se tenham envolvido, que já foram enganados e que, pelas mais diferentes circunstâncias da vida, vejam-se hoje vivendo entre terroristas, esses também precisam de ajuda, para que consigam voltar à trilha da vida normal, para que deponham as armas e ponham fim ao fratricídio.

A Rússia, como atual presidente do Conselho de Segurança, convocará em breve uma reunião ministerial para que se faça análise ampla das ameaças que cercam o Oriente Médio.

Em primeiro lugar, propomos que se discuta a possibilidade de construir uma Resolução que vise a coordenar as ações de todas as forças que já estão resistindo contra o Estado Islâmico e outras organizações terroristas. Mas uma vez: essa coordenação terá de basear-se nos princípios da Carta da ONU.

Esperamos que a comunidade internacional será capaz de desenvolver uma estratégia ampla de estabilização política e, também para a recuperação social e econômica do Oriente Médio. Isso feito, não será preciso criar novos campos para concentração de refugiados.

Hoje, o fluxo de pessoas forçadas a deixar a terra natal já literalmente inundou a Europa. Há centenas de milhares deles agora e não demorará para que sejam milhões. De fato, é grande e trágica migração de pessoas. E é dura lição para os europeus.

Quero destacar: refugiados precisam, sem dúvida, de nossa compaixão e apoio. Mas o único meio de resolver esse problema em nível mais fundamental é restaurar o Estado, em todos os pontos onde foi destruído; reforçar as instituições de governo onde elas ainda existam ou estejam sendo restabelecidas; prover ajuda ampla – militar, econômica e material – a países em situação difícil; e, com certeza, também aos que não abandonarão suas casas, não importa quais sejam os padecimentos.

Claro que qualquer assistência a estados soberanos pode e deve ser oferecida, nunca imposta; e única e exclusivamente de acordo com a Carta da ONU. Em outras palavras, tudo nesse campo está sendo ou será feito em obediência ao disposto na lei internacional e com o apoio de nossa organização universal. Tudo que infrinja disposições da Carta da ONU deve ser rejeitado.

Acima de tudo, creio que é de máxima importância ajudar a restaurar as instituições de governo na Líbia, apoiar o novo governo do Iraque e prover assistência ampla ao governo legítimo da Síria.

Colegas, garantir a paz e a estabilidade regionais e globais continuam a ser os objetivos chaves da comunidade internacional, com a ONU no comando.

Acreditamos que isso implica criar um espaço de segurança igual e indivisível, não para uns poucos seletos, mas para todos. Sim, é tarefa desafiadora, difícil e que exige tempo, mas simplesmente não há via alternativa.

Porém, o pensamento de bloco dos tempos da Guerra Fria e o desejo de explorar novas áreas geopolíticas ainda persistem em alguns de nossos colegas.

É de lastimar que alguns dos nossos colegas tenham, até aqui, escolhido outra via – a via de explorar predatoriamente novos espaços geopolíticos.

Primeiro, continuaram sua política de expandir a OTAN e sua infraestrutura militar. Depois, ofereceram aos países pós-soviéticos uma escolha falsa: pôr-se ao lado do ocidente ou ao lado do oriente.

Essa lógica de confrontação está fadada, mais cedo ou mais tarde, a desencadear uma grave crise geopolítica. É precisamente o que foi feito na Ucrânia, onde o descontentamento da população com as autoridades foi usado, e se orquestrou um golpe militar de fora para dentro do país; e esse golpe disparou uma guerra civil.

Temos certeza de que só mediante a plena e fiel implementação dos Acordos de Minsk de 12/2/2015 poderemos pôr fim ao banho de sangue na Ucrânia e encontrar saída para aquele impasse.

A integridade territorial da Ucrânia não pode ser assegurada por tratados e sob armas. Indispensável ali é consideração genuína pelos interesses e direitos do povo na região do Donbass e respeito pelo que escolherem. É preciso coordenar com eles, como fazem os Acordos de Minsk, os elementos chaves da política do país.

Esses passos garantirão que a Ucrânia desenvolverá um estado civilizado, como elo essencial na construção de um espaço comum de segurança e cooperação econômica ao mesmo tempo na Europa e na Eurásia.

Senhoras e senhores, falei propositadamente de espaço comum de cooperação econômica. Não há muito tempo, parecia que na esfera econômica, com suas objetivas leis de mercado, aprenderíamos a viver sem linhas divisórias. Que construiríamos regras transparentes e de comum acordo, que incluiriam os princípios da Organização Mundial de Comércio, que estipulam a liberdade de comércio e investimento e a livre concorrência.

Mas hoje já é quase lugar comum impor sanções unilaterais que burlam o que determina a Carta da ONU. Além de perseguir objetivos políticos, essas sanções são visível manobra mal-intencionada, para eliminar concorrentes comerciais.

Quero apontar ainda mais um sinal de crescente "autismo econômico". Alguns países escolheram criar associações econômicas como clubes fechados e "exclusivos", cuja fundação está sendo negociada na clandestinidade, ocultada até dos próprios cidadãos daqueles países, do público em geral e da comunidade empresarial.

Outros estados, cujos interesses podem vir a ser afetados não são informados, tampouco, de coisa alguma. Parece que estamos a um passo de ser confrontados com um fato consumado, de que as regras do jogo foram mudadas a favor de um poucos privilegiados, sem que a OMC tenha sido jamais ouvida. Assim se desequilibra completamente o sistema comercial e desintegra-se o espaço econômico global.

Essas questões afetam os interesses de todos os estados e influenciam o futuro de toda a economia mundial. Por isso, propomos que essas questões sejam discutidas dentro da ONU, dentro da OMC e dentro do G-20.

Ao contrário da política de "exclusividade", a Rússia propõe harmonizar os projetos econômicos regionais. Refiro-me à chamada "integração de integrações", baseada em regras universais e transparentes do comércio internacional.

À guisa de exemplo, quero citar nossos planos para interconectar a "União Econômica Eurasiana" e a iniciativa da China, do "Cinturão Econômico da Rota da Seda". Ainda acreditamos que harmonizar os processos de integração dentro da União Econômica Eurasiana e a União Europeia é movimento altamente promissor.

Senhoras e senhores, as questões que afetam o futuro de todos os povos incluem o desafio da mudança do clima global.

É do nosso interesse fazer da Conferência da ONU sobre Mudança Climática, em dezembro, em Paris, um sucesso. Como parte de nossa contribuição nacional, temos planos para reduzir para 70-75% a emissão dos gases de efeito estufa, até 2030, de volta aos níveis de 1990.

Mas sugiro que tomemos, sobre essa questão, visada muito mais ampla. Sim, podemos aplacar as dificuldades, por algum tempo, definindo quotas de emissões venenosas, ou tomando outras medidas que, contudo, são medidas apenas táticas. Mas, por esse caminho, nada resolveremos.

Precisamos de abordagem completamente diferente. Temos de nos focar em, fundamentalmente, introduzir novas tecnologias inspiradas pela natureza e que não causarão dano ao meio ambiente, e conviverão em harmonia com ele. Além disso, elas restaurarão o equilíbrio entre a biosfera e tecnofera, alterado pelas atividades humanas.

É desafio, realmente, de escopo planetário. Mas tenho confiança de que a humanidade tem potencial intelectual para enfrentá-lo.

Temos de unir esforços. Refiro-me, em primeiro lugar, aos estados que têm sólida base de pesquisas e que têm obtido avanços significativos em ciência fundamental.

Propomos organizar um fórum especial, sob os auspícios da ONU, para discussão ampla das questões relacionadas ao esgotamento de recursos naturais não renováveis, à destruição do meio ambiente e à mudança climática. A Rússia está pronta para copatrocinar esse fórum.

Senhoras e senhores, foi em Londres, dia 10/1/1946, que a Assembleia Geral da ONU reuniu-se para sua primeira sessão. Zuleta Angel, diplomata colombiano, e presidente da Comissão Preparatória, abriu a sessão oferecendo, entendo eu, uma definição concisa dos princípios básicos que a ONU deveria seguir em suas atividades: defender o livre arbítrio, desafiar os conluios e trapaças e preservar o espírito de cooperação.

Hoje, essas palavras ainda soam como orientação para todos nós.

A Rússia acredita no enorme potencial da ONU, de dever ajudar-nos e evitar uma confrontação global e a nos engajar em franca cooperação estratégica. Juntos com outros países, trabalharemos empenhadamente para fortalecer o papel da ONU, de coordenação central.

Confio que, trabalhando juntos, conseguiremos fazer do mundo lugar pacífico e seguro, e asseguraremos condições propícias para o desenvolvimento de estados e nações.

Obrigado."


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Nilson Lage - De Maidan com Ódio em Tempos de Fúria.





Texto: Nilson Lage - Professor Titular na UFSC e Professor da UFRJ

O golpe em curso no Brasil ocorre em várias frentes, protegido por uma estrutura legal que fragiliza o Estado e acionado com o apoio direito e indireto de várias instituições. Internamente, os operadores atuam sob cobertura diplomática e de acordos internacionais: via ongs, fundações de aparência beneficente e organizações acadêmicas de atuação ambígua. Contam com a colaboração de gerentes e intermediários em negócios com comando multinacional.

Diretamente, o apoio provém do oligopólio de mídia, que depende de financiamento e publicidade coordenados por hubs politicamente comprometidos e está orquestrado, do ponto de vista editorial, com o congêneres em toda a América Latina, desde o tempo da guerra fria; e de organizações, empresarias ou não, incorporadas aos "centros frouxos" que controlam as finanças globais.

Indiretamente, a sustentação é dada pelas oligarquias formadas com base em antigas estruturas de exportação de produtos primários (e cuja ideologia aparece esporadicamente nos empreendimentos agropecuários modernos); pelas corporações de ofício controladas por grupos enriquecidos (advogados, médicos); e por forças políticas alijadas do poder e que o ambicionam.

A instrumentação compreende dos antigos "institutos de pesquisa" (o Millenium, que reproduz o IPES), modernas unidades ativistas inspiradas formadas por pessoas jovens (oriundas de associações locais de marginais urbanos, academias de fisicultura, formações paramilitares etc.) que reproduzem, pelos métodos,e organização celular e técnicas utilizadas no movimento nazista.



A retórica se apoia no Princípio da Simplificação e do Inimigo Único (Domenach, 1958), em que se massifica (Princípio da Repetição e da Orquestração, idem) uma só versão dos fatos e se nomeiam ideologias a combater vagamente definidas (o sionismo, o terrorismo, o bolivarianismo, o lulopetismo) e pessoas que as incorporam (Hitler, Stalin, Saddam, Gadaffi, Getúlio, Lula).

O controle de opinião pública - motor do desenvolvimento de estudos de ponta em comunicação, psicologia .social e sociologia - vem sendo desenvolvido há décadas em instituições universitárias com grandes recursos financeiros e humanos (sobre isso escrevi um livro, há cerca de vinte anos).

Surge agora, com base nas experiências de campo feitas no Oriente Médio e Europa Central desde a implosão a Iugoslávia ("Primavera Árabe", "Operação Laranja", "Euromaidan" etc.), literatura crítica sobre os resultados. É o caso do texto citado.



http://www.academia.edu/9695687/Who_Were_the_Protesters_EuroMaidan_findings_are_based_on_only_multi-day_original_survey_of_the_protesting_population_


quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Intervalo Mortal entre a Decadência e a Revolução

O jornalista Chris Hedges (prêmio Pulitzer) defende que vivemos o auge de uma crise humanitária sem precedentes.



Numa entrevista publicada no Salon, a propósito do lançamento do seu novo livro Wages of Rebellion: The Moral Imperative of Revolt, o jornalista Chris Hedges (prêmio Pulitzer) afirma que vivemos num período de incubação, um interregnum prévio ao eclodir da revolução, tal como Antonio Gramsci o havia descrito nos Cadernos do Cárcere a propósito do conceito de crise orgânica: a crise consiste precisamente no fato do antigo estar a morrer e do novo ainda não poder nascer; neste interregno uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem.

É a partir da definição de situação revolucionária (Lênin) que Gramsci situa este interregno, uma suspensão das funções democráticas de governação, onde os governantes já não conseguem governar e os governados não pretendem continuar a a ser governados. Mas é também neste impasse que os Estados tendem a impor o estado de exceção como paradigma de governo e regra dominante na política contemporânea, desde a 1ª Guerra (Giorgio Agamben), dificultando assim, através do exercício sistemático da violência, o surgimento de plataformas favoráveis à democracia radical, à luta antiglobalização ou aos movimentos anticapitalistas.

Na história mais recente do estado de exceção, o efeito panóptico do controle foi ampliado pela cibernética, o infame Patriot Act – iniciativa de George Bush após o 9/11- teve consequências sobejamente conhecidas na escalada da vigilância e controlo dos diversos movimentos sociais. Dada a situação de fim parcial de validade legal desta medida, o congresso americano poderá ainda mantê-la ou suspender os seus atos, nomeadamente desligar os sistemas de vigilância massivos da NSA, é isso que exigem os movimentos que defendem a liberdade de expressão e o direito à privacidade.

Na entrevista e num outro texto intitulado Our Invisible Revolution, Chris Hedges menciona o anarquista Alexander Berkman, para se referir à ideia de “ponto de ebulição” revolucionário. No ensaio The Idea is the Thing, Berkman coloca uma questão inicial que é ainda aquela que nos colocamos um século depois: já alguma vez se perguntaram como é que acontece que estes governos e o capitalismo continuem a existir apesar de toda miséria e problemas causados no mundo?

Apesar dos muitos (os 99%) terem consciência deste paradoxo, também sabemos que não existem fórmulas mágicas ou soluções prontas a usar. Neste sentido, Berkman diz que a revolução é o clímax de uma trajetória evolutiva, a revolução é pois o ponto de ebulição da evolução, e as condições econômicas e políticas o fogo que aquece mais, ou menos, o caldeirão social. De acordo com esta lógica, a Grécia teria atingido já o limiar da ebulição, sendo o Syriza o motor da revolução contra as políticas neoliberais e austeritárias em solo europeu.

Contudo, não se trata apenas de mecânica clássica dos fluidos, há mais variáveis na equação, segundo Berkman: as pressões vindas de cima (opressão política e económica); as pressões vindas de baixo (emancipação, ativismo e pensamento crítico); a disseminação e debate de ideias críticas que facilitem a emergência de subjetividades rebeldes (esclarecimento).

A causalidade necessária entre a preparação individual e coletiva, e a efetiva emergência de um movimento revolucionário organizado é um dos principais fatores de uma transformação social e política bem sucedidas. No caso da revolução Russa de 1917, Berkman só a reconhece como caso de sucesso até o ponto em que a falta de esclarecimento das massas acerca dos fundamentos políticos redundou na imposição da ditadura após a morte de Lênin.

Na atualidade, também se tornou evidente que os movimentos dos Indignados da Espanha, a partir do 15-M (15 Maio, 2011), precisaram de tempo para reforçar a construção de um programa político e a organização da ação, até ao momento em que eclodiram como movimento político Podemos e iniciaram a mudança política na Espanha. Também os Occupynecessitam de ter em conta essa “diferença de potencial” entre a difusão e o enraizamento de uma cultura de crítica política e social, tal como Slavoj Zizek mencionou no Occupy Wall Street: "há um perigo: não se apaixonem por vocês mesmos. Passamos um tempo bom aqui. Mas lembrem-se, carnavais vêm fácil. O que importa é o que vem depois, quando retornarmos às nossas vidas normais".

Chris Hedges menciona essencialmente as circunstâncias atuais nos EUA. Lá, apesar das revoltas em torno das mortes de cidadãos afroamericanos e contra a violência policial, a cada 28 horas uma pessoa de cor é abatida pela polícia, pessoas que na maioria dos casos estão desarmadas. Isto é sintomático de um Estado ossificado em torno dos interesses das corporações, que já não se preocupa nem age a favor da sociedade civil. Atingido este ponto, afirma Chris Hedges, os mecanismos normais de reforma incremental das instituições sociais deixam de funcionar porque foram capturados por outros poderes exteriores ao Estado (corporações financeiras ou impérios de comunicação social, p.ex).

As frentes de luta são muitas e em diversas escalas, desde a globalização secreta dos mercados livres inscrita no atual Tratado Transatlântico às privatizações nacionais, passando pelas alterações climáticas, migrações forçadas e inumanas, a expansão do poder militar e da guerra, ou o reforço da violência contra os cidadãos, etc. É aliás na conjuntura desta frente de confronto, onde a violência e os recursos tecnológicos bélicos serão certamente usados em caso de levantamento popular, que os ativistas e movimentos sociais têm hoje de aliar-se aos hackers e ciberativistas. 

Miguel Caetano (investigador em Ciências da Comunicação), questiona, num post sobre a entrevista de Chris Hedges: como é possível vencer o aparelho militar-industrial dos EUA? Eu diria que sem intervenção de hackers é quase impossível. O resultado só poderá ser uma guerra civil sangrenta e, consequentemente, o regresso à barbárie... De qualquer forma, EUA e Espanha continuam a ser países com um elevado potencial "revolucionário", seja pela via pacífica ou não.... é que parece impossível que uma revolução ocorra em pleno século XXI sem ter em conta o plano da ciberguerra e dos ataques informáticos contra infraestruturas militares e de comunicações. De outro modo o número de vítimas tenderá a ser gigantesco, dada a capacidade de extermínio das armas dos dias de hoje.

Seja como for é preciso atenção redobrada neste interregnum, e ter em consideração que na derradeira carta ao comité revolucionário Lenin fez notar que a história não perdoará aos revolucionários procrastinadores...