Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social ) como todo o corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e retrata uma realidade, que lhe é exterior. Tudo o que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo o que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia
(Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia de Linguagem)
Alguns comentários sobre o meio e a mensagem na internet.

sábado, 1 de abril de 2017

Cultura e Comunicação de Massa




Por: Julio Kling


O Homo sapiens adquiriu sua supremacia em relação às outras espécies de homens que coexistiram em seu ambiente até o início do Neolítico, entre outras coisas, a partir de vantagens genéticas evolutivas adquiridas que o dotaram de uma sofisticada e altamente especializada capacidade de comunicação, complexo linguístico e gestual que desenvolveu e aprimorou sua organização social, e em função disso, seus bandos adquiriram uma melhor capacidade organizacional em relação às outras espécies de homens então existentes levando-os a atuar de forma mais eficiente e em maior número no meio ambiente como caçadores coletores afirmam os estudiosos.


A dificuldade das demais espécies humanas em acompanhar este desenvolvimento, entre outros fatores climáticos e de meio ambiente, acabou levando-os à extinção deixando apenas uma indelével herança genética no DNA da humanidade. Não só foram extintas as outras espécies humanas existentes, mas várias outras espécies de animais da chamada megafauna também deixaram de existir no mesmo período, a partir expansão da introdução e do contato dos Homo sapiens, nas várias regiões do planeta onde seus grupos de caçadores coletores foram se introduzindo, conforme os vestígios arqueológicos de ossadas encontradas nos últimos tempos pelos pesquisadores do passado.

Comparação entre cranio de Homo Sapiens e Neanderthal 


Entre 70 a 30 mil anos atrás o Homo sapiens adotou um novo aliado interespecífico com quem desenvolveu uma alta capacidade de comunicação e sinergia na sua busca constante de proteína animal estabelecendo uma inusitada simbiose de sucesso entre duas espécies diferentes de mamíferos sociais e que igualmente vivem em bandos ou matilhas, que funciona até hoje. Com sons guturais, assobios e gestos produzidos pelos humanos estabeleceu-se um relacionamento, um processo de comunicação, entre os dois tipos de animais, para atingir seus objetivos comuns de caça, num tipo de relação, com certeza, em seus primórdios, igualitária, de respeito mútuo, e até mesmo temor místico, por parte dos Homo sapiens, relação que posteriormente evoluiu no sentido de impor a vassalagem aos canídeos em relação aos seus aliados primatas, de quem passaram a depender para alimentação e reprodução até a época contemporânea. Desta simbiose podemos suspeitar originou-se a domesticação dos demais animais de carga, corte e tração que sofreram o contato direto com confinamento forçado em vales e cânions a partir do pastoreio com a ajuda de cães, utilidade que permanece em muitas culturas.

Podemos estabelecer a hipótese de que as demais espécies humanas existentes que foram extintas não conseguiram desenvolver a mesma ligação interespecífica com estes animais e passaram a ser ou menos eficientes na caça de grandes animais ou presas dos cães, que se tornaram armas táticas extraordinárias para a captura e apresamento dos inimigos do Homo sapiens em sua conquista definitiva do meio, isto é, das linhas de caça de seus vizinhos, competidores de outras espécies humanas de caçadores coletores. Caçar e devorar os vizinhos, primatas também sagazes e que conheciam bem o terreno, exigia o auxílio e a perícia de um aliado que pudesse seguir pistas com precisão a custa de sangrentos prêmios inimagináveis de carne. Até hoje cães têm sido condicionados e utilizados com sucesso nestas atividades humanas de tiro, caça, guerra e apresamento de semelhantes, de forma fiel e eficaz, conforme nos conta a história da expansão humana no planeta. Daí talvez o tabu ou interdito estabelecido pelo costume no Ocidente em relação ao não consumo da carne canina como alimento no cotidiano e a ideia cultural difundida de que eles são nossos melhores amigos.

O conceito de cultura, enquanto processo dinâmico foi forjado pelo Homo sapiens em seus primórdios, dentro das suas comunidades, como fator subjetivo fundamental, de fundo subliminar, que estabelece padrões de comportamento através da linguagem, em sua totalidade, de compreensão de significados, como abstração, e envolve também seu relacionamento interespecífico com outros animais e vegetais do seu meio como ferramenta na luta pela sobrevivência e estabelecimento da predominância do DNA humano desta espécie particular na biosfera.

Esta supremacia foi estabelecida a partir de populações crescentes de Homo sapiens que colonizaram o planeta com sucesso, apesar da baixa expectativa de vida dos seus indivíduos e criaram meios para perpetuar seus conhecimentos através da tradição oral passada de geração para geração e posteriormente através da escrita. Manter bancos de dados e registros de acontecimentos importantes e descobertas provocou um salto exponencial na capacidade do Homo sapiens de aprimoramento tecnológico e proporcionou a invenção de cada vez mais ferramentas para domínio do seu meio dando origem às civilizações.



Cultura, Poder e Comunicação -

John Kenneth Galbraith -
Economista e filósofo do séc. XX de pensamento liberal


Sobre a Corrida Armamentista no séc. XX:

Mesmo nos altos círculos militares, há concordância de que esta competição de armas não pode continuar. Alguns farão a pergunta inevitável e difícil: O que tomará seu lugar? O que será dos muitos empregos que ela cria? O que substituirá o poder aquisitivo que ela gera? John Maynards Keynes propôs que o governo britânico pusesse pacotes de notas de libras em minas de carvão fora de uso até enchê-las. Isso criaria empregos. E muitos outros empregos seriam criados para aqueles que se encarregassem de cavar as minas para tirar o dinheiro de lá, sendo que muita demanda de mercado também seria gerada pelo gasto de todo este dinheiro. A sugestão jamais foi acatada; em vez disso no mundo pós-keynesiano, as despesas com armas - o ciclo de projeto e criação, produção, obsolescência, substituição - é que servem para este fim. Certa feita, eu chamei isso de keynesianismo militar.

Todo o economista franco e sincero reconhece que as despesas militares são para manter a atual economia em pé. Alguns afirmam que as despesas para fins civis - saúde pública, habitação, transporte de massa, impostos menores que levem a um maior consumo privado - também fariam a mesma coisa. A transição seria até bem fácil e simples.

Mas isso desconsidera a armadilha, a arapuca. E menospreza o poder econômico que sustenta o alçapão e o mantém fechado. Por trás de um novo bombardeiro tripulado, está o complexo militar industrial que estivemos examinando. Ele é forte e poderoso na defesa de seus interesses, e podemos supor que seja forte e poderoso também na União Soviètica. Por trás de melhores projetos habitacionais e cidades, não existe um poder semelhante, como também não existe uma competição do mesmo jaez. Só existe, em comparação, um vácuo.

Também se deve observar que existe um problema de grandezas ou proporções. Pelo preço de uma pequena frota de bombardeiros supersônicos tripulados, poder-se-ia construir um moderno sistema de transporte de massa praticamente em toda cidade suficientemente grande para ter importantes linhas de ônibus.

(...) Mas seria estultícia dos homens de responsabilidade e sensatez, tanto nos Estados Unidos como na União Soviética - de ficar de braços cruzados e aquiescer à atual situação de armadilha. É bom que esta situação de armadilha seja enfrentada diretamente (...)

(John Keneth Galbraith - A Era da Incerteza - 1980)     

A maioria das questões levantadas por John Keneth Galbraith, apesar do fim da União Soviética, continuam atuais neste período que inicia o séc. XXI. Vivemos hoje ainda mergulhados, independente de crenças pessoais, em um imenso oceano de informação, como peixes que não percebem a água que nos cerca ao redor, nem a imensa corrente que nos arrasta, ou até mesmo para onde leva a direção de seu fluxo. Nosso comportamento hoje profundamente influenciado pela cultura de massa  na verdade é condicionado pela indústria cultural em todas as camadas da população onde atinge, quase sem exceção, cada qual com seu nicho próprio de consumo de informação conforme sua complexidade ou sofisticação e seu estrato social como público alvo. A mensagem continua ser a do conflito permanente, agora como novos e antigos interlocutores, e da crise constante que subjuga o homem comum urbano como mão de obra excedente.

Dentro de qualquer processo de comunicação humana não existe mensagem sem conteúdo ideológico, viço moral ou religioso que deixe de atender aos anseios culturais do meio onde é veiculada e do seu público alvo. No sistema capitalista isso não poderia ser diferente.

Não só os conteúdos e as escalas de valores estão sendo impostos pelo novo sistema capitalista, mas também influenciam de maneira direta nosso comportamento cotidiano. Nossa proxêmica, isto é, o conjunto ou estruturação do homem em seu micro-espaço, seu comportamento comunicativo baseado em dimensões inter-relacionais de posturas, gestos, olfatos, sensações térmicas, auditivas, de orientação e de tato têm sofrido modificações evolutivas constantes em função da tecnologia de informação que se transforma em velocidade alucinante.

A informação envolve um todo dentro do espectro cultural. Através das mensagens estabelecemos elos com grupos afins e tentamos imitar falas, roupas e comportamentos sociais, como estratégia de camuflagem social, visando sermos aceitos pelo grupo que acreditamos fazer parte, às vezes de forma consciente, outras subliminarmente conforme o tipo de comportamento e da sociedade onde estamos integrados. Mesmo os comportamentos que consideramos singulares ou àqueles que prenunciam uma resistência ao status quo vigente fazem parte do espectro cultural de forma dinâmica. São indissociáveis do grupo social.

Conforme lembrou Malinoswky em relação às suas observações em campo junto aos povos naturais no início do séc. XX, o ser humano em sua condição natural utiliza como ferramenta o processo cultural para desenvolver e manter as práticas inerentes à sua sobrevivência no meio. Isto significa que o aprendizado de técnicas como fazer o fogo, por exemplo, são executadas por estes naturais dentro de um princípio científico pragmático enquanto processo cultural de conhecimento e que detêm todo o aprendizado do processo de sua fabricação visando atender suas condições vitais de sobrevivência e transmitem estas informações para as gerações vindouras para dar continuidade ao processo cultural em questão. Nestes termos o antropólogo é taxativo:

“Se se extinguissem a atitude científica e a estimativa dela mesmo por uma geração, numa comunidade primitiva, tal comunidade descairia para o estado animal ou, mais provavelmente extinguir-se-ia.”

O elevado nível de especialização da sociedade humana atual, que dependente exclusivamente de bancos de dados escritos ou digitalizados, e sua capacidade tecnológica individual declinante parece confirmar a tendência de fragilidade deste comportamento de permanência de longo prazo. Para traçar-se um paralelo significativo do ponto de vista histórico podemos lembrar como os nativos das américas foram subjugados pelos povos europeus de origem ariana. Os invasores ao introduzirem tecnologias desconhecidas, o aço e a pólvora, para os nativos, como as armas de fogo, não só sobrepujaram estes povos militarmente, mas também, apesar da rápida assimilação do manuseio de tais artefatos pelos nativos e sua assimilação e especialização no seu uso com perícia de tiro, seus esforços foram baldados pela dificuldade de copiar e produzir tais artefatos em produção de escala dentro do contexto cultural em que viviam, razão fundamental  de sua derrota final e aculturação.



É evidente que condição semelhante ocorre na atual cultura massificada pós Revolução Industrial. O elevado nível de especialização da sociedade urbana capacita o indivíduo para o uso de tecnologias cada vez mais complexas, mas o homem comum é incapaz de reproduzir tais aparatos sem especialistas e equipamentos apropriados, isto é, não pode apropriar-se da tecnologia que utiliza diuturnamente. Se amanhã ocorresse um colapso na sua produção o homem pós moderno estaria numa condição ainda pior que o nativo norte americano, pois sequer as condições básicas de sobrevivência, como fazer fogo, caçar, plantar a terra e construir abrigos estaria ao alcance dos seus conhecimentos, já que tais necessidades foram banidas de sua cultura eminentemente urbana.

Tal fragilização tem sido explorada pelos que detêm o capital e os meios de produção. Aprofundar esta dependência faz-se míster e assim a concentração de riqueza torna-se um fim em si para manter-se com cada vez mais consumo de itens e com isso intensificar a estratificação do poder entre as minorias que controlam os meios de produção como verdadeiras castas de tecnólogos e tecnocratas.

As consequências diretas desse processo cultural são evidentemente desastrosas e nocivas ao meio ambiente na exploração de recursos não renováveis em escala crescente e por extensão como agressão à biosfera de seus habitantes humanos ou não.

A partir da Revolução Industrial o indivíduo comum passou a ter duas utilidades para as instituições do poder e do capital que controlam os meios de produção: 1) Como mão de obra barata para execução de partes de processos de produção em série. 2) Como soldados infantes para lutar nas guerras de colonização ou disputas entre potências em litígio.

Entretanto com o advento da automação das linhas de produção a partir do final do séc. XX e início do séc. XXI a necessidade relativa à mão de obra barata deixou de ter relevância, do ponto de vista operacional, para as grandes corporações motivando as grandes dispensas verificadas nas plantas industriais e prestadoras de serviços, em seus países de origem.

As doutrinas econômicas elencadas por Adam Smith, Ricardo e outros no alvorecer da Revolução Industrial e posteriormente por Keynes no período entre guerras e no pós-guerra de facilitar o crédito para o grande capital e promover o arrocho salarial dos trabalhadores para evitar-se a inflação vem sendo alterado por uma nova perspectiva ainda mais aterradora com o fracasso dos estados e o abandono de suas responsabilidades sociais históricas inerentes ao cidadão que cada vez mais é marginalizado dentro do processo econômico, fenômeno que tem percorrido todo o mundo dito livre.

O neoliberalismo travestido de Nova Ordem Mundial nega estes direitos básicos como afirmação do velho dogma do poder do capital e da concentração de riqueza nas mãos de uns poucos. Este é o mais novo produto vendido pela indústria cultural como algo razoável. Hoje oito pessoas detêm 50% da riqueza mundial numa concentração de capital sem precedentes. Mas, como sempre, o funcionamento da economia exige a existência de um limiar diferencial. Para termos amos é necessário haver escravos. É exatamente neste ponto que a equação da exploração econômica do séc. XXI não fecha.


Sem a necessidade da mão de obra barata num mercado capitalista onde impera a lei da oferta e da procura estamos prestes a observar um novo fenômeno que já começa a atingir em cheio as sociedades urbanas que é o abandono social. A decretação do fim do “welfare state” e a desvinculação e sucateamento, via obsoletismo forçado, das estruturas previdenciárias existentes, de responsabilidade do estado com o cidadão comum, sela para sempre o fim da utilidade deste como mão de obra barata.

Por outro lado, sem as condições mínimas de moradia, saúde, educação e amparo aos mais velhos entre a maioria de uma população crescente, em escala geométrica, estaremos promovendo um colapso de grandes dimensões a médio e longo prazo onde nem sequer as minorias abastadas vão conseguir sobreviver. Daí a importância do conflito permanente promovido entre os povos e nações, como forma de manter o crescimento econômico da produção em escala.

Os progressos científicos mais relevantes foram sempre desenvolvidos durante e em função de necessidades militares surgidas em conflitos ou guerras, principalmente a partir do séc. XIX até nossos dias. Televisão, internet, sistemas gps, sistemas balísticos, veículos 4x4, ISO e mais uma infinidade de outras descobertas ocorreram por necessidades de uso militar crescente e organização dos contingentes bélicos.  

A forma clássica do consumo é a guerra. Nela temos a utilização de insumos e recursos que são eliminados e a corrida armamentista é a imagem perfeita do obsoletismo forçado na sua acepção mais pura. Produzir ativos para depois destruí-los ou torná-los obsoletos na escala de trilhões de dólares por ano, por enquanto, tem sido a saída dos países do Ocidente para remediar seus problemas econômicos crescentes. O estado absorve o déficit econômico com o esforço de guerra à custa do povo, enquanto as corporações do complexo industrial militar ficam com os lucros.

Para tanto é necessária a manutenção de uma potente indústria cultural que justifique ao homem comum tantos sacrifícios e gastos com estes aparatos bélicos tecnológicos. Produz-se farta cinematografia que explora o mórbido conceito de nacionalismo exacerbado do ser humano onde a bandeira nacional sempre aparece de forma subliminar ao fundo, o estrangeiros é sempre o personagem inimigo, e a causa é a liberdade que deve ser assegurada aos outros, seja lá quem forem.

Os meios de comunicação de massa são hoje centralizados pelas grandes corporações que anunciam não só produtos, mas impõem valores culturais que tornam o espectador, o público alvo, como ser cativo num processo ideológico que justifica o crescente caos, de preferência alhures dos grandes centros do capital, na sua periferia geográfica, onde antes se situavam suas colônias de exploração condenadas ao conflito permanente.

Este conflito permanente ocorre não só em territórios distantes do continente africano e asiático, como também nos arrabaldes dos grandes centros urbanos onde as populações foram migradas no objetivo de esvaziar grandes áreas de plantio para exploração do monopólio da agroindústria e do latifúndio cada vez mais automatizado no mundo todo.

As guerras de facções, o tráfico de drogas e de armas, e os demais comércios colaterais das atividades criminosas são até certo ponto tolerados até o limite de genocídios localizados promovidos pelos agentes da repressão do sistema visando liquidar lideranças incômodas que possam perturbar o “status quo”. Manter os grupos em conflito permanente evita de que algum atinja hegemonia sobre os demais.

A atividade econômica ilegal passa, cada vez mais, a ser integrada pelos meios de comunicação através de franca divulgação e absorvida pela economia formal, com uma tendência cada vez maior de ser integrada pelos estados como parte da geração de riqueza das nações européias e até mesmo nos EUA onde a atividade é crescente e concorre com os índices oficiais de crescimento.

Não existem processos estanques na comunicação do homem enquanto ser biológico. Como disse Macluhan: “O meio é a mensagem”

O Grande Conflito - Corporações X Estados-Nação - A mensagem a serviço do capital.

A evolução das monarquias para estados-nação ocorreu como consequência da ascensão da burguesia plebéia que deu origem ao mundo moderno. O contrato do grande capital com o poder facultou esta relação de dominação da classe trabalhadora nos países onde ocorreu  sujeitos pelo estado e pelo capital em comum acordo.

Para os estados modernos o capital burguês servia para ocupar a mão de obra crescente que abandonava os campos para os centros urbanos em busca de trabalho nas indústrias, depois de serem tangidos pelos grandes proprietários de terras apoiados pelo poder e suas leis de propriedade que favoreciam aos latifundiários. O processo de industrialização completou seu círculo com as linhas de produção e as grandes plantações que tinham o mesmo objetivo de exploração do meio e da mão de obra, bem como o fornecimento de matéria prima  sem limites para manter o funcionamento das máquinas em suas respectivas atividades de produção.

Para os estados este acordo firmou-se e prevaleceu porque as grandes corporações e seus representantes passaram a ter assento privilegiado nas decisões políticas em escala crescente nos últimos duzentos anos. Em todos os eventos históricos deste período o capital atuou como interlocutor e braço econômico do poder, como fiel da balança, nas expansões, guerras e explorações de novos territórios cumprindo seu papel sem necessitar limites éticos como os pretendidos pelos estados em suas proposições políticas nacionais. As corporações sempre fizeram o serviço sujo com o apoio irrestrito de governantes por elas indicados ou que faziam parte das mesas diretoras das mesmas enquanto cumpriam função junto aos governos.

Entretanto muita coisa mudou de lá para cá. Interesses que até então foram comuns passaram a se distanciar logo após a II Guerra Mundial com o ocaso do imperialismo europeu que momentaneamente privou as corporações de sua imensa fonte de matéria prima e mão de obra barata nas colônias e obrigou a criação de novas formas de exploração multinacional através dos grupos financeiros e seus agentes em contato direto com os prepostos que permaneceram no poder nas antigas áreas de exploração iniciando um novo processo de poder que dispensava o uso do estado. O liberalismo econômico veio em socorro e deu respaldo a este novo tipo de exploração. Já não é mais o estado-nação que define o objeto e o projeto desta exploração, mas a corporação que define o estado e seus representantes que são a ela filiados. Um verdadeiros golpe de estado em escala mundial. Grandes somas correm o mundo e estabelecem-se onde as condições de exploração são viáveis e tornam-se voláteis onde a mão de obra é cara ou o governo não é suscetível de cooptação.

Nem mesmo as grandes potências ficaram imunes a esta lógica sinistra. O endividamento dos EUA, índice histórico impagável que vai contra os interesses do próprio povo norte americano é uma evidência cabal da perda de poder real do governo daquele país em relação ao complexo industrial militar. Manter o conflito permanente ainda é o objetivo almejado por esses interesses privados independente da saúde financeira do povo e do país norte americano.

Vivemos hoje em uma encruzilhada enquanto habitantes deste planeta. Nunca os meios de comunicação alcançaram tantas pessoas no mundo todo impondo uma tendência de homogeneização das sociedades humanas em prol dos interesses econômicos de uns poucos.  A democracia como forma de governo do povo e pelo povo sofre um ataque mundial pelos interesses dessas minorias. A ofensiva do capital possui uma primeira linha crucial de ataque nos meios de comunicação onde se pretende criar um novo tipo de audiência cativa que se auto emula para adquirir bens de consumo em troca da busca da felicidade individual. Uma mensagem pode ser falsa, mas nem sempre o receptor tem capacidade para filtrar seu conteúdo quando produzida de forma altamente técnica e subliminar.

A privatização será uma tendência crescente onde as corporações assumiram o controle direto do estado. Isso já ocorre na maioria dos países do primeiro mundo. Todas as instituições políticas podem ser a longo prazo substituídas por Assembléias de acionistas e diretorias  com objetivos claros de exploração comercial e lucros em todas as atividades humanas, inclusive a guerra. Num futuro não muito distante poderemos antever exércitos controlados e comandados por empresas com objetivos coloniais, como já ocorreu nos séculos da exploração mercantilista da expansão européia, com uma diferença fundamental e terrível. Da mesma forma que nas linhas de produção paulatinamente não serão mais necessárias as massas humanas com sua mão de obra barata substituídas pela automação. Também as forças controladas pelas minorias que detém o capital poderão ser automatizadas ao ponto de criarem drones de todos os tipos para manter seu crescente poder.


Essa é uma das projeções prováveis para um futuro próximo levando em conta os interesses em ascensão em todo o planeta neste início do século XXI. A consequente e mundial perda de direitos, o abandono do welfare state pelos países europeus já não mais atemorizados com o perigo da expansão comunista, a despersonalização dos governos enquanto entidades democráticas segue sua marcha veloz em direção ao escravização de uma população crescente de forma gradual e constante através dos meios de comunicação controlados pela indústria cultural patrocinada pelas corporações e uma precarização da classe média que não possui mais utilidade como fiel da balança no controle e organização das massas mais pobres, nem como agente de informação, nem como formador de opinião. O curral urbano se materializa como realidade cada vez mais presente. Estamos vivendo hoje o limiar dessa nova revolução tecnológica, que substitui em todos os níveis homens por máquinas, e concentra cada vez mais a riqueza nas mãos de uns poucos privilegiados. A tecnologia de informação segue à serviço da tirania definitiva em busca de um Reich Milenar.



Dedico este curto ensaio ao meu filho Pedro Kling, o Pedro ALEM que no presente ano está cursando comunicação social. Que seja sua herança para a criação de um mundo diferente desta profecia distópica.

Bibliografia: 

1) Uma Breve História da Humanidade - Sapiens - Yuval Noah Harari - L&PM - 2016

2)Uma Teoria Científica da Cultura - B. Malinowsky - Edit Zahar - 1962

3) A Era da Incerteza - John Keneth Galbraith - Liv. Pioneira - 1980

      

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Pedra Filosofal - Wendelstein 7-X

A Fusão Nuclear vai mudar o mundo nos próximos anos.

Wendelstein 7-X (2011)

Uma das maiores descobertas da ciência recente foi conseguir colocar, pela primeira vez, uma máquina de fusão nuclear funcional. Na Alemanha a máquina Wendelstein 7-X foi capaz de confirmar tal feito.


Como funciona? A máquina tem o mesmo principio do sol: funde átomos para gerar energia. Ela é o oposto da energia nuclear que temos hoje, que funciona através da fissão. Por 30 anos, a humanidade esteve pesquisando a fusão nuclear na esperança que isso se transformasse em uma fonte inesgotável de energia.

Ao dominar a fusão nuclear, vamos estar perto de uma fonte de energia inesgotável, e isso deve mudar o planeta para sempre: vamos poder dessalinizar água salgada, um dos exemplo, e transformar desertos em grandes fazendas – eliminando a fome -, podemos fazer o custo do transporte cair também.

O Wendelstain 7-X é uma máquina com de 16 metros de diâmetro, que tenta imitar as condições das estrelas para fundir átomos e produzir energia, produzindo assim um campo magnético para segurar o plasma gerado no processo. E tudo isso foi conseguido, com um campo magnético 3D que conseguiu fazer o processo sem destruir a máquina.

A priori, a máquina vai gerar energia apenas para si. Depois, poderemos começar a usar essa tecnologia para gerar uma enorme quantidade de energia de maneira barata e limpa, já que o produto da reação é água.

Entrada do complexo de pesquisas do Wendelstein 7-X em Greifswald.


O Processo - 

A máquina, instalada no Instituto Max Planck para Física do Plasma, em Garching, perto de Munique, é um empreendimento científico multinacional.

Seu propósito, alcançado em princípio, é fundir átomos leves (o do Hidrogênio tem massa molecular redutível a 1) em átomos pesados (como os de urânio), reproduzindo um processo que ocorre no centro das estrelas vivas, como o sol.

É o contrário da fissão nuclear, que ocorre nas explosões atômicas e produz energia em reatores nucleares. A diferença é que não há radiação, e a energia produzida é virtualmente inesgotável; a dificuldade consiste na alta temperatura necessária, que derreteria qualquer material existente.

A Wendelstein 7-X funde átomos de hidrogênio em um ambiente gasoso de alta sensibilidade eletromagnética (o plasma), confinado em um campo magnético gerado por supercondutores congelados ao zero absoluto, de modo a obter total isolamento térmico.

Wendelstein 7-X (W7-X) é um stellarator (reator a fusão nuclear) experimental que foi construido em Greifswald, Alemanha, pelo Instituto Max Planck de Física do Plasma. É um aprimoramento do Wendelstein 7-AS. O propósito do Wendelstein 7-X é avaliar os principais componentes de um futuro reator a fusão nuclear usando a tecnologia do stellarator, apesar de o próprio Wendelstein 7-X não ser uma usina de geração de energia economicamente viável.

Atualmente o Wendelstein 7-X é o maior dispositivo de fusão já criado usando o conceito do stellarator. Ele está planejado para operar com uma descarga de plasma de até 30 minutos de continuidade, demonstrando uma característica essencial de uma futura usina geradora de energia: operação contínua.

O suporte para a pesquisa é um projeto de parceria independente com a Universidade de Greifswald.


Linhas de alimentação supercondutoras
sendo conectadas às bobinas planares supercondutoras.


O Wendelstein 7-X é principalmente um toroide, consistindo de 50 bobinas magnéticas supercondutoras não-planares e 20 planares, com 3,5 metros de altura, que induzem um campo magnético que impede que o plasma colida com as paredes do reator. As 50 bobinas não-planares são usadas para ajustar o campo magnético.

Os principais componentes são bobinas magnéticas, criostatos, vasos de plasma, diversores e sistemas de aquecimento.

As bobinas são arranjadas em torno de um revestimento termo-isolante com diâmetro de 16 metros, denominado criostato. Um sistema de arrefecimento produz suficiente hélio líquido para absorver 5 mil watts de potência de aquecimento, a fim de resfriar as bobinas e seu envoltório (cerca de 425 toneladas) à temperatura de supercondutividade. O vaso de plasma, construído em 20 partes, tem seu interior ajustado à forma complexa do campo magnético. Tem 299 orifícios para aquecimento do plasma e diagnósticos de observação. A usina completa é constituída de 5 módulos aproximadamente iguais, que são montados no hall de experiências.



terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A Extrema Direita no Poder


Piketty: como colocar a extrema direita no poder

Economista adverte: taxar Marine Le Pen de “populista”, tentando deslegitimar suas críticas a uma globalização devastadora, só irá jogá-lo nos braços dos eleitores


Por Thomas Piketty, com tradução do IHU

Em menos de quatro meses, a França terá um novo presidente. Ou uma presidente: depois de Trump e do Brexit, não se pode excluir que as pesquisas, mais uma vez, estejam erradas, e que a direita nacionalista de Marine Le Pen esteja se aproximando da vitória. E, mesmo que se conseguisse evitar o cataclismo, existe um risco real. O risco Le Pen é capaz de se posicionar como a única oposição credível para a direita liberal para a rodada posterior.

No lado da esquerda radical, espera-se, naturalmente, no sucesso de Jean-Luc Mélenchon, mas, infelizmente, não é o cenário mais provável.

Essas duas candidaturas têm um ponto em comum: põem novamente em discussão os tratados europeus e o regime atual de concorrência exacerbada entre países e territórios, e isso atrai muitos daqueles que a globalização deixou para trás. Há também diferenças substanciais: apesar de uma retórica destrutiva e de um imaginário geopolítico às vezes inquietante, Mélenchon conserva, apesar de tudo, uma certa inspiração internacionalista e progressista.

O risco desta eleição presidencial é que todas as outras forças políticas – e a grande mídia – se contentem em fustigar essas duas candidaturas e em colocar ambas no mesmo saco, definindo-as como “populistas”. Esse novo insulto supremo da política, já utilizado nos Estados Unidos com Sanders, com o resultado que sabemos, corre o risco, mais uma vez, de ocultar a questão de fundo.

O populismo nada mais é do que uma resposta, confusa mas legítima, ao sentimento de abandono das classes populares dos países desenvolvidos diante da globalização e da ascensão da desigualdade. É preciso confiar nos elementos populistas mais internacionalistas (e, portanto, na esquerda radical, encarnada nos diversos países pelo Podemos, pelo Syriza, por Sanders ou porMélenchon, independentemente dos seus limites) para construir respostas precisas a esses desafios: caso contrário, o encurvamento nacionalista e xenófobo acabará por abalar tudo.



Infelizmente, é a estratégia da negação que os candidatos da direita liberal (Fillon) e do centro (Macron), estão se preparando para seguir, determinados, ambos, a defender o status quo integral sobre o fiscal compact, o pacto de orçamento europeu assinado em 2012. Não que isso chame a atenção, já que um o negociou, e o outro o aplicou. Todas as pesquisas confirmam isto: esses dois candidatos seduzem, acima de tudo, os vencedores da globalização com nuances interessantes (os católicos com o primeiro, e os burgueses radical-chic com o segundo), mas, em última análise, secundárias em relação à questão social. Eles pretendem encarnar o perímetro da razão: quando a França tiver reconquistado a confiança da Alemanha, de Bruxelas e dos mercados, liberando o mercado de trabalho, reduzindo os gastos públicos e os déficits, eliminando o imposto patrimonial e aumentando o IVA, então finalmente será possível pedir que os nossos parceiros venham ao nosso encontro a respeito da austeridade e da dívida.

O problema desse discurso que parece ser razoável é que ele não o é de todo. O tratado de 2012 é um erro monumental, que aprisiona a zona do euro em uma armadilha mortífera, impedindo-a de investir no futuro. A experiência histórica mostra que é impossível reduzir uma dívida pública desse nível sem recorrer a medidas excepcionais. A menos que se condenem a registrar superávits primários durante décadas, sobrecarregando no longo prazo qualquer capacidade de investimento.

De 1815 a 1914, o Reino Unido passou um século registrando excedentes orçamentais enormes para reembolsar os seus rentistas e reduzir a dívida exorbitante produzida pelas guerras napoleônicas. Essa escolha nefasta produziu investimentos em formação inadequados e um novo impasse do país. Entre 1945 e 1955, ao contrário, Alemanha e França conseguiram se desembaraçar rapidamente de uma dívida de proporções semelhantes com uma combinação de medidas de cancelamento da dívida, inflação e saques excepcionais sobre o capital privado, colocando-se em condições de investir no crescimento.

Seria preciso fazer o mesmo hoje, impondo à Alemanha um Parlamento da zona do euro para aliviar as dívidas com toda a legitimidade democrática necessária. Se não for assim, o atraso nos investimentos e a estagnação da produtividade já observados na Itália acabarão por se estender para a França e para toda a zona do euro (já há sinais nesse sentido).

É mergulhando novamente na história que conseguiremos sair do impasse atual, como acabaram de recordar os autores da magnífica Histoire mondiale de la France, ótimo antídoto aos encurvamentos identitários tricolores. De maneira mais prosaica e menos divertida, é preciso aceitar também mergulhar nas primárias organizadas pela esquerda de “governo” (chamamo-la assim, pois não conseguiu organizar primárias com a esquerda radical, algo que corre o risco, em primeiro lugar, de afastá-la de modo estável justamente do governo).

É essencial que essas primárias designem um candidato decidido a colocar drasticamente em discussão novamente as regras europeias. Hamon e Montebourg parecem mais próximos dessa linha do que Valls ou Peillon, mas com a condição de que superem as suas posições sobre a renda universal e o made in France e, finalmente, formulem propostas específicas para substituir o pacto fiscal de 2012 (mencionado apenas de passagem no primeiro debate da televisão, talvez porque, há cinco anos, todos votaram nele: mas é precisamente por isso que é ainda mais urgente esclarecer as coisas, apresentando uma alternativa detalhada) [Benoit Hamon, o candidato mais à esquerda do Partido Socialista, venceu o primeiro turno das “primárias cidadãs”, em 22/1. Ele enfrentará o candidato neoliberal Manuel Valls no segundo turno destas primárias (Nota de “Outras Palavras”)].

Nem tudo está perdido, mas é preciso agir com pressa, se se quiser evitar colocar a Frente Nacional em uma posição de força.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

COMO SERÁ A VIDA NO FUTURO: A MEDICINA GANANCIA, A ELIMINAÇÃO DOS IDOSOS, A EUTANÁSIA E A PILULA DA MORTE.



8 de janeiro de 2017

As mudanças anunciadas pelo Dr. Dunegan na conferencia de Pittsburg são aterrorizantes, contudo, a maioria dessas mudanças já faz parte do cotidiano e, embora muitos já se tenham acostumado a algumas delas como previam os planejadores, nada mudou quanto ao planejamento da vida e da morte para os seres humanos no século 21.

Na sequência estão os temas tratados por Dr. Richard Day numa conferência de medicina em 1969, que revelam as mudanças já planejadas há muito tempo atingindo todos os aspectos da vida das pessoas no Século 21. Esta matéria é a continuação de Como será a vida no futuro: as armas para a aniquilação das pessoas – da liberalidade à submissão, das gravações do Dr. Lawrence Dunegan e relacionadas com uma conferência que ele participou em 20 de março de 1969 ministrada pelo Dr. Richard Day em Pittsburg, nos Estados Unidos a um auditório de 80 médicos presentes.

A eutanásia e a “pílula da morte”.

Todos têm o direito de viver apenas uma certa quantidade de tempo limitado. Os velhos já não serão mais úteis, se tornarão um fardo… preparem-se para aceitar a morte. A maioria das pessoas já são velhas. Um limite de idade arbitrário pode ser estabelecido. Afinal, você tem direito apenas a um certo número de jantares com carne grelhada, uma certa quantidade de orgasmos e atingiu muitos dos grandes prazeres da vida. Depois de ter tido o suficiente e não ser mais profissionalmente produtivo e contribuir, então você deverá preparar-se para sair da frente e abrir caminho para a nova geração. Algumas coisas que irão ajudar as pessoas a perceber que eles já viveram o suficiente, e ele mencionou várias, mas não me lembro de todas elas, é o uso de tinta mais leve nos formatos que devem preencher os idosos para que eles tenham que ir a uma pessoa mais jovem para ajudá-los a ler. Padrões de tráfego de automóvel – haverá mais padrões de alta velocidade que fazem as pessoas mais velhas com menos reflexo tenham necessidade de evitar e, assim, perder parte da sua independência.

Limitar o acesso aos cuidados de saúde facilita a eliminação dos mais adultos.

Um grande problema foi que os cuidados de saúde em algum momento tornaria-se demasiado caro. O cuidado de saúde estará ligado intimamente ao emprego das pessoas, mas ele vai ter um custo proibitivo para que não seja acessível a pessoas depois de uma certa idade. A menos que eles tenham algumas famílias muito ricas e parceiros terão de viver sem cuidados de saúde. A idéia é que se todos dizem “Basta! que terrível fardo é para os jovens tentar manter os velhos”, então, os jovens tratariam de ajudar seus pais e suas mães ao longo do caminho assumindo as coisas de uma forma humana e com dignidade. O exemplo foi – as crianças poderiam fazer uma festa de despedida maravilhosa, uma celebração. Mamãe e papai fez um ótimo trabalho. No final da festa, ambos tomam a “pílula da morte”.

Planificação do controle sobre a medicina

O tema seguinte foi a medicina. Alterações profundas serão apresentadas no campo da medicina. Em geral, o medicamento seria mais estritamente controlado. A seguinte observação foi feita: “O Congresso não vai concordar com o seguro nacional de saúde. É bastante evidente já (em 1969). Mas isso não é necessário. Nós temos outras maneiras de controlar a cuidados de saúde “. Eles se apresentarão de forma mais gradual. Mas todos os serviços de cuidados de saúde serão fornecidos com um controle mais rigoroso. Os serviços médicos vão ser muito conectados com o trabalho. Se uma pessoa não trabalha ou não pode trabalhar não vai a ter acesso aos cuidados de saúde. Os dias de prestação de serviços de cuidados de saúde gratuitos em hospitais serão extintos gradualmente até se tornarem praticamente inexistentes. Os custos serão aumentados a força de uma maneira que as pessoas não poderão pagá-los a menos que tenham seguro de saúde. As pessoas pagam, você paga pelo serviço, você tem direito ao serviço. Foi somente depois que comecei a perceber na medida em que não estaria pagando por serviços. Seu seguro de saúde será pago por outras pessoas. Portanto, as pessoas vão aceitar essa proposta muito agradecida, de joelhos, pois será oferecido como um privilégio. O seu papel sendo responsável por seus próprios cuidados para a sua saúde seria reduzido significativamente. Como um inciso; isso é algo que não foi desenvolvido naquela época… Eu não fui capaz de entender naquela época como um inciso, a forma como ele funciona, porque todo mundo está dependente do seguro. Se você não tem seguro paga diretamente; os custos dos seus cuidados de saúde são enormes. A companhia de seguros, no entanto, não paga pelos mesmos serviços as mesmas cifras.

O custo dos cuidados de saúde vão ser extremamente altos. Os serviços médicos estarão ligados intimamente com o trabalho, mas será muito alto para que eles não estejam disponíveis para as pessoas depois de uma certa idade… poderia ter uma festa de despedida maravilhosa, uma celebração. Mamãe e papai fez um ótimo trabalho. No final da festa, ambos tomam a “pílula da morte”. O medicamento será monitorado com mais cuidado. Nós temos outras maneiras de controlar a cuidados de saúde. Todos os serviços de saúde será estritamente controlada. Os custos será aumentado dramaticamente para que as pessoas não podem pagar por eles sem seguro de saúde. Todo mundo vai depender de seguros. Se um não é certeza que será para pagar diretamente para serviços a preços proibitivos.

Se a você lhe cobram digamos US$ 600 pelo uso de uma sala de operação, a empresa de seguros não pagará US$ 600 para o seu serviço. Ela paga US$ 300 ou US$ 400. Esse diferencial no faturamento tem o efeito desejado: isso permite à empresa de seguros pagar pelo que você nunca poderia por conta própria. Eles obtêm um desconto que nunca estaria disponível para você. Quando você vê a conta você se sente agradecido que a empresa de seguros pagou por ela. Desta maneira você depende deles e é praticamente necessário para você ter um seguro de saúde. O faturamento é completamente fraudulento. De todas formas, continuando com nosso tema, o acesso aos hospitais será estritamente controlado. Será solicitado documento de identificação para entrar às edificações. A segurança em hospitais e na área circundante será estabelecida e gradualmente aumentada de modo que ninguém possa entrar sem identificação ou passear no interior do hospital. Roubo de equipamento de hospitais, coisas como máquinas de escrever e microscópios, será “permitido” e exagerado. Os relatórios desses roubos vai ser inflado de tal forma que servem como a desculpa necessária para aumentar a segurança até que as pessoas se acostumarem com isso. Qualquer um que vagueiam dentro do hospital terá que levar uma identificação de crachá foto ou de outra forma que explica por que ele está no hospital, um empregado, técnico de laboratório, visitante ou quem quer seja. Isto vai ser implementado gradualmente fazendo que todo o mundo se acostume à idéia de que têm que se identificar, até que simplemente seja uma prática aceitada. Esta necessidade de portar crachás de identificação para circular vai ser iniciada aos poucos: hospitais e algumas clínicas mas gradualmente se incrementará para incluir todos em toda parte! Foi observou também que os hospitais podiam ser usados para confinar as pessoas… para o tratamento de criminosos. Isto não significava tratamento médico, necessariamente. Nessa época eu não conhecia o termo “hospital psiquiátrico” – da maneira como é usado na União Soviética, mas sem ter necessidade de recordar todos os detalhes, basicamente, ele estava descrevendo o uso de hospitais tanto para tratar as pessoas doentes como para confinar criminosos por razões diferentes ao bem-estar médico do criminoso. A definição de criminoso não foi estabelecida.

Eliminação dos médicos particulares

A imagem do doutor irá mudar. Eles não serão mais vistos como profissionais médicos individuais que atendem a pacientes particulares. O médico vai ser cada vez mais reconhecido como um técnico altamente qualificado e a natureza do seu trabalho será diferente. As suas atividades incluem coisas como as execuções por injeção letal. A imagem desse doutor poderoso e independente terá que ser mudada. E ele continuou: “Os médicos estão fazendo muito dinheiro. Eles devem comercializar os seus serviços como qualquer outra pessoa ou produto”. Os advogados também vão ter que comercializar. Tenha em mente que o público à que ele se dirigia era conformado por médicos e ele mesmo era um médico.

Era interesante ver que ele fazia comentários um tanto insultantes ao seu público sem sentir temor de que o contrariassem. O médico independente será coisa do passado. Uns quantos obstinados tratarão de se manter, mas a maior parte dos médicos trabalharão para instituções de diferentes tipos. A prática profissional de grupo vai ser motivada, as corporações serão motivadas e, uma vez que a imagem corporativa dos cuidados para a saúde mudem, a medida que este esquema se torne mais e mais aceitável, os médicos cada vez se converterão mais em empregados em vez de contratistas independentes. De acordo com isso, é claro, não é necessaário dizer que um empregado atende a seu chefe, não a seu paciente. Já temos visto suficientemente isso durante os últimos vinte anos. E no horizonte mais coisas estão por vir. O termo HMO[1] não se usava nessa época e é o sistema para o cuidado de saúde que está sendo usado desde que o sistema de National Health Insurance (Seguro Nacional de Saúde) deixou de ser aprovado no Congreso. Alguns médicos teimosos podem tentar fugir disso permanecendo independente, entre outras coisas, sou um deles, mas vai sofrer grandes perdas de rendimento. Eles podem ser capazes de sobreviver, talvez, mas nunca viver em confortavelmente como se aqueles que estão dispostos a tornar-se a funcionários do sistema. Finalmente, não haverá lugar em tudo para os independentes depois que o sistema esteja consolidado. Casos que não foram vistos nunca antes serão apresentados. Eles serão difíceis de diagnosticar e são considerados incuráveis ​​por muito tempo. Ele não desenvolveu muito este tema, mas recordo não muito depois de haver assistido a esta conferência que cada um tinha um caso raro que eu me perguntava: “Será que isso é o que ele estava falando?”. Alguns anos depois se apresentou a AIDS e verdadeiramente creio que a AIDS era ao menos um exemplo do que ele estava falando. Eu agora penso que a AIDS é uma doença fabricada.

O faturamento é completamente fraudulento. O acesso aos hospitais será rigorosamente controlado. Esta necessidade de transportar crachá de identificação para circular serão iniciadas aos poucos: hospitais e algumas clínicas, mas aumentará gradualmente para incluir todos em toda parte! O médico independente vai ser uma coisa do passado. Alguns tentarão de forma obstinada se manter, mas a maioria dos médicos trabalharão para instituições de diferentes tipos. O termo HMO não foi usado naquela época, mas dê uma olhada no HMO, é assim que a saúde está sendo manipulada. Finalmente, não haverá lugar para os independentes depois que o sistema esteja consolidado.

Desordem Mundial - A Presença dos EUA na Segunda Guerra Fria


Convulsões capitalistas - Entrevista exclusiva com Moniz Bandeira

19 JANEIRO 2017



Historiador analisa crises, guerras e golpes na "desordem mundial" promovida pelo velho imperialismo, mas com novos métodos e roupagens

Por Aray Nabuco e Nina Fideles

O historiador e cientista político Moniz Bandeira amalgama em suas análises os cenários atuais sob as asas do velho imperialismo, porém com novos modus operandi. Crise econômica, guerras, crise humanitária, terrorismo, primaveras, golpes. A esse contexto, que emerge no noticiário todos os dias, erguendo no horizonte a sombra da barbárie no avanço da direita, Moniz Bandeira batiza de “desordem mundial”, produto de ações de uma política imperialista bombada nos métodos e nas tecnologias. No seu mais recente livro, A Desordem Mundial, que se soma à sua profícua bibliografia onde está obras como A Presença dos Estados Unidos no Brasil ou a A Segunda Guerra Fria, Moniz Bandeira explica como chegamos a isso, empurrados pelo neoliberalismo e suas pautas ultraconservadoras, pelo capitalismo financeiro, pelo domínio das corporações.



“Você pode imaginar um mundo onde os Estados Unidos querem impor a sua dominação, o full espectrum dominance e o resultado são guerras por procuração, caos, terror, catástrofes humanitárias que afetam não apenas os países onde os conflitos se travam, cada vez maiores e em maior quantidade, mas também os países outros que não têm nada com essa intervenção”, explica ele nesta entrevista, feita desde sua casa na Alemanha, onde vive há vinte anos.

Nessa dominação se encaixam ainda os golpes de estado, sob nova modalidade, como no Brasil, Honduras ou Paraguai, tudo com o concurso sempre prestimoso da mídia conservadora e Judiciário. Dono de uma longa pesquisa sobre o xadrez político nacional ou mundial, expressa nos vários títulos de sua autoria – A Presença dos Estados Unidos no Brasil é campeão de vendas e referência ainda hoje –, Moniz Bandeira acompanha os lances atuais e aponta o rumo da barbárie. Do outro lado, diz ele, que poderia ser um contrapeso, há uma esquerda nanica ou desfigurada. Confira abaixo a entrevista.

Aray Nabuco – Gostaria que o senhor descrevesse o que chama de desordem mundial. Quais elementos (políticos, econômicos, militares, enfim) que o senhor enxerga dessa desordem?

Moniz Bandeira – O desenvolvimento da tecnologia favoreceu a concentração de riqueza e de poder e as disparidades sociais aumentaram ainda mais nos países da periferia do sistema capitalista, alimentando o fundamentalismo religioso, em meio à instabilidade política, que se produziu no sistema internacional após o colapso da União Soviética e do Bloco Socialista. E os Estados Unidos não conseguiram estabelecer a “new world order” que o presidente George H. W. Bush prometeu em setembro de 1991, um mês após o presidente Boris Yeltsin dissolver a União Soviética. Que ocorre no mundo? Guerras na África, Oriente Médio, Ucrânia, turbulência na Ásia, na América Latina, o Brexit, a inquietação social na União Europeia e os Estados Unidos estão financeiramente exauridos, em franco declínio. A América Latina também não escapa. A Venezuela precipitou-se no caos. O Brasil está no limiar. A desordem política aprofunda a recessão econômica e avança no sentido da desestabilização. A superestrutura jurídica está a ruir. Ninguém mais respeita a Constituição, nem juízes, nem procuradores da República nem sequer magistrados da Corte Suprema. O atual e suposto presidente da República, ao que tudo indica, será jogado no lixo da história e conhecido como Michel Temer, o breve.

Nina Fideles – Esse cenário de desordem mundial que o senhor descreve é o que também chamam de “corporocracia”, o governo das corporações?

O domínio das corporações, anulando mais a soberania nacional, está no fundo dos tratados de livre comércio, que constavam da agenda dos Estados Unidos. O Trans-Pacific Partnership (TPP) e outro similar proposto à União Europeia tiram dos tribunais do país a capacidade para decidir sobre qualquer dissídio entre uma corporação e o governo. O Estado nacional perde a jurisdição sobre as corporações. Qualquer disputa seria adjudicada a um tribunal internacional de arbitragem, composto por três membros associados do tratado. Esses tratados contém os preceitos do Investor-State Dispute Settlement (ISDS) que ferem não apenas a soberania dos demais países signatários, mas também dos Estados Unidos, razão pela qual o TPP ainda não foi aprovado pelo Congresso e Donald Trump a ele se opôs durante a campanha para presidente. Quem o defendia era Hilary Clinton, do Partido Democrata

Nina Fideles – Poderíamos comparar a “desordem” atual (conflitos na periferia do capitalismo por interesses econômicos, resumidamente) a uma nova era de “colonização” (ou re-colonização ou renovação do velho colonialismo, a dominação política e do território)?

Ao dizimar gradualmente as economias naturais e pré-capitalistas, o capitalismo vinculou todos os povos em um sistema de vasos comunicantes e tornou as sociedades interdependentes, apesar e/ou em consequência da diversidade de seus níveis de progresso e civilização. As condições históricas são outras, não mais as mesmas do século 19. O capitalismo, como o único modo de produção capaz de envolver todo o planeta, assumiu, na sua evolução, formas diferentes. Os Estados Unidos são um império, mas não como o de Roma ou da Grã-Bretanha e França. Dominam, diretamente, Hawaí, Porto Rico, Guam, Samoa, e as Ilhas Mariana do Norte. E, das 4.999 bases militares que possuem, segundo o inventário do Pentágono, 4.249 estão no seu próprio território, 88 além-mar e 662 em 36 países e territórios estrangeiros, em todas as regiões do mundo. A dominação e exploração se processam de modo diferente, embora similares em alguns aspectos. Para quê? Essas bases militares marcam o espaço do império, com tropas de ocupação, revestidas por tratados militares assimétricos, como no caso da Otan. Os Estados Unidos têm bases militares e aéreas na Alemanha e em vários outros países da União Europeia. Porém qual o país da União Europeia que tem bases militares e aéreas nos Estados Unidos?

Aray Nabuco – A Otan é um dos braços dessa desordem mundial…

Um dos braços não, a Otan é um instrumento de dominação dos Estados Unidos. Aliás, digo isso desde o começo. Desde o primeiro secretário-geral, o general Hastings Lionel Ismay, primeiro Lord Ismay (1887–1965), então secretário-geral da Otan (1952– 1957) declarou explicitamente que a criação dessa aliança encapava o múltiplo propósito de “to keep the americans in, the russians out and the germans down”, isto é, conservar a supremacia dos Estados Unidos, conter a União Soviética e submeter a Alemanha. E é o que os Estados Unidos fazem até hoje.

Aray Nabuco – E acha que eles conseguiram esse objetivo (de manter os russos fora e a Alemanha sob controle)?

Os Estados Unidos temem que a Alemanha, o coração da Europa, se volte para a Rússia. A Rússia é um país eurasiático e essa aliança implicaria um desequilíbrio geoestratégico, ainda mais porque certamente se estenderia à China. Aray Nabuco – Mas é possível haver tal aliança? É uma tendência que sempre existiu desde Bismarck (Otto Von Bismarck, 1815-1898), que defendeu essa aliança. O empresariado alemão tem na Rússia um importante mercado. E quem está mais perdendo com as sanções impostas à Rússia é a Alemanha. Agora, na Alemanha há, assim como no Brasil e em outros países, uma parte da elite, representada sobretudo pela Kanzlerin, que mais se aproxima de Washington, dado haver nascido e crescido na Alemanha Oriental, sob o regime stalinista implantado pela União Soviética, após Segunda Guerra Mundial.

Nina Fideles – O senhor cita o terror, a guerra ao terror, e essa guerra psicológica da mídia, quer dizer, colocar medo nas pessoas se tornou um instrumento da dominação atual?

Sim, disseminar o medo é uma das formas de dominação.

Nina Fideles – Mas tornou-se política de Estado? Quero dizer, os EUA financiaram o terror da Al-Qaeda, por exemplo, e continuam repetindo isso na Síria com o Estado Islâmico.

Da mesma forma que a Alemanha nazista durante os anos 1930, os Estados Unidos encontraram no militarismo, sobretudo com a Segunda Guerra Mundial, um meio de permitir ao Estado sustentar a prosperidade das empresas privadas e reduzir o número de desempregados, consignando-lhes a encomenda de armamentos e outros grandes projetos militares. Daí que, após o esbarrondamento da União Soviética, o Pentágono, à frente do complexo industrial-militar, tratou de elaborar e dimensionar novas ameaças, entre as quais o terrorismo, e pretextos para intervenções militares, dilatação da Otan, dado que não mais havia outro Estado com capacidade de desafiar os Estados Unidos e pôr em risco o sistema econômico capitalista. O terrorismo, porém, sempre ocorrera ao longo da história de modo geral, um ato político, de natureza instrumental, um método de guerra e/ou um crime político, ora praticado tanto por organizações revolucionárias ou contrarrevolucionárias, pelos radicais de esquerda ou de direita, ou fundamentalistas religiosos e grupos étnicos, quanto pelos serviços de inteligência de quase todos os Estados, nem sempre com objetivo militar, em tempo de guerra. A CIA executou exaustivamente atentados terroristas contra Cuba, também covert actions no Brasil, a fim de propiciar o clima para o golpe militar de 1964, bem como no Chile contra o governo de Salvador Allende. O terrorismo islâmico foi em larga medida fomentado pela CIA e os serviços de inteligência do Paquistão e da Arábia Saudita, desde o final dos anos 1970, não somente no Afeganistão, como também com o objetivo de desintegrar a União Soviética a partir das repúblicas da periferia asiática, onde o Islã predominava. E, atualmente, as ONGs executam, no mais das vezes, o trabalho que antes a CIA diretamente realizava.

Aray Nabuco – Retomando a “corporocracia”, e como o senhor já citou, nesse momento a Europa vive um dilema sobre os tratados transatlânticos e de serviços, que podem acabar com o estado de bem-estar social. Esse ataque é parte dessa desordem mundial?

Há um ataque ao Estado de bem-estar social, que começou desde o colapso da União Soviética. Esse ataque reflete a crise sistêmica do sistema capitalista, que se manifestou e se agravou no epicentro de sua expansão, Wall Street, com a explosão do mercado imobiliário, no primeiro semestre de 2007, quando grandes corretoras, como Merrill Lynch e Lehman Brothers, suspenderam a venda de colaterais, e em julho do mesmo ano, bancos europeus registraram prejuízos com contratos baseados em hipotecas sub-prime. A erupção da crise econômica e financeira, que abalou e ainda ameaça a Grécia, Portugal, Espanha e toda a Eurozona – dezesseis dos 27 estados-membros da União Europeia e outros nove não-membros da UE que adotam o euro –, constituiu um desdobramento, a terceira etapa da crise econômica e financeira deflagrada nos Estados Unidos, cujo déficit fiscal era de US$ 5,7 trilhões e a dívida pública atingia cerca de US$ 20 trilhões, a ultrapassar em mais de 104% o seu Produto Interno Bruto, em meados de dezembro de 2016. Os custos a longo prazo dos Estados Unidos, cujo problema fiscal é extremamente grave, tornaram-se progressivamente explosivos, a evoluir como espiral, em que o crescente pagamento dos juros tende a aumentar o déficit fiscal e a dívida pública, gerando novo aumento e assim por diante. E a elite financeira dominante intenta lançar o peso da crise, compensar a taxa média de lucros, em queda, sobre os ombros da classe trabalhadora, dos assalariados. Esse problema, inter alia, constitui um dos fatores da desordem mundial, dentro de um contexto em que os Estados Unidos trataram de impor a full spectrum dominance (dominação de espectro total), mas não têm meios de escalar as guerras e estão a defrontar-se com a Rússia e a China.

Aray Nabuco – O senhor acredita, diante dessa ascensão da direita e do fascismo, que caminhamos para uma nova conflagração entre potências, uma nova “guerra mundial”?

Não creio em uma conflagração direta entre as potências. Não me parece provável que as contradições internacionais cheguem a tal ponto. O desenvolvimento tecnológico, com as armas nucleares, afastou, virtualmente, a possibilidade de um confronto direto entre as grandes potências. O cartel ultraimperialista, formado pelos Estados Unidos e a União Europeia, não ousaria investir diretamente contra a Rússia ou a China. A guerra não seria um jogo de soma zero. Todos seriam destruídos.

Nina Fideles – Dentro dessa desordem mundial, como o senhor vê o papel das forças progressistas de esquerda? Como poderiam reagir ou enfrentar?

Primeiro é necessário definir o que são forças progressistas de esquerda, onde e quando, qual o contexto, a conjuntura etc. Muitas vezes forças que se dizem progressistas e de esquerda, com políticas erráticas, favorecem a ascensão da direita, do fascismo, como ocorreu na Alemanha, no início dos anos 1930, em que o Partido Comunista, por entender que a vitória de Hitler precipitaria a revolução socialista, rechaçou a aliança com a social-democracia, apelidando-a de social-fascismo. E o fato é que não haveria Hitler sem Stalin. Esquerda ou direita depende do ângulo, da equação política, das circunstâncias e condições.

Aray Nabuco – Há quem, como Eric Hobsbawm, diz que a esquerda acabou aí na Europa (e no mundo todo). O senhor acha isso também?

O que Eric Hobsbawm disse, em entrevista à agência de notícias Télam, da Argentina, foi que “já não existe esquerda tal como era”, seja social-democrata ou comunista. Ou está fragmentada ou desapareceu. Onde está a esquerda, como antes? Eric Hobsbawm está certo.

Aray Nabuco – Ainda há os partidos comunistas, socialistas...

Vim pela primeira vez à Alemanha e França, em 1960. E moro aqui na Europa, permanentemente, há vinte anos. Conheço-a, portanto, há mais de cinquenta anos. Vivi em Londres e Paris na segunda metade dos anos 1970 e também estive em diversas cidades de outros países. E vejo a diferença nos tempos. Os sindicatos não são mais os mesmos, perderam a força, devido a diversos fatores, entre os quais a produção offshore, com a transferência das plantas industriais e, consequentemente, postos de trabalho, para outros países, do Leste Europeu e, sobretudo da Ásia, como a Indonésia, Filipinas, China, onde os custos da mão de obra são muito mais baixos. O poder de negociação dos sindicatos, restrito aos limites de seus respectivos Estados nacionais, não acompanhou o desenvolvimento da organização transnacional capitalista. As grandes corporações, com subsidiárias nos novos países indus trializados, podem contar com amplos recursos para resistir às pressões e anular, virtualmente, os efeitos de qualquer greve. A existência de poderoso exército industrial de reserva igualmente debilitou a força da classe trabalhadora. A produção offshore, em regiões com níveis salariais mais baixos, as diferentes condições sociais, políticas e outros níveis de organização dificultam a coordenação internacional, com o objetivo de paralisar, simultaneamente, todas as unidades de produção da mesma empresa espalhadas por distintos países, onde milhões de pessoas estão dispostas a vender sua força de trabalho por qualquer salário, a fim de ganhar o mínimo necessário para comprar o que comer e renovar sua força de trabalho para novamente revendê-la à empresa capitalista. Daí porque, entre outros fatores, os partidos comunistas e social-democratas perderam força. Os partidos social-democratas são, atualmente, iguais a outros partidos de centro ou centro-direita. O Partido Social-Democrata Alemão está em coligação com a CDU (União Democrata-Cristã). E a democracia cristã faz uma política similar à do Partido Social-Democrata. E a Alemanha é dos poucos países, talvez o único dos países industrializados, onde ainda o setor secundário, a indústria, é mais significativo na sua massa econômica. Nos outros da União Europeia, França e Inglaterra, assim como nos Estados Unidos, o setor terciário, de serviços, é o que mais sustenta a economia. Desde o ano 2000 mais de 5 milhões de postos de trabalho foram exportados, com a instalação das plantas offshore. E assim o sindicato de trabalhadores já não tem mais o peso de antes. E permita-me perguntar: Quem é a direita e quem é a esquerda na França?

Aray Nabuco – Pois é, não dá pra dizer que a esquerda seja o atual presidente, o François Hollande.

As bases sociais podem ser diferentes, mas a política do presidente François Hollande, do Partido Socialista, em nada se diferencia da política de seu antecessor, Nicolas Sarkozy, da Union pour un mouvement populaire (UMP). Não houve diferença fundamental nos governos. O presidente Hollande é tão conservador quanto Sarkozy. É até mais.

Aray Nabuco – Tem o Novo Partido Anticapitalista lá…

Há, mas não é expressivo, como outrora foi o Partido Comunista. Essa é a situação na Europa. E, nos Estados Unidos, a classe operária é altamente conservadora, embora a tendência de contestação ao predomínio de Wall Street esteja a crescer, como o demonstrou a candidatura de Bernie Sanders à presidência do país, dentro do Partido Democrata.

Aray Nabuco – Fica parecendo que a utopia acabou.

Ah, a utopia sim, a utopia sempre existe, mas não nos termos de antigamente. Marx continua. Em dois sentidos. Primeiro, as leis do capitalismo que ele desvendou estão válidas. Naturalmente, é necessário ver a evolução do capitalismo até o presente, uma vez que a mudança quantitativa, com a sua expansão, implicou também a mudança de qualidade. O capitalismo foi o único modo de produção que teve capacidade de expandir-se por todas as regiões, avançou da livre concorrência para o monopólio, com o aparecimentos de novas formas de e da competição interimperialista para o ultraimperialismo, conforme Karl Kautsky previu, já no início da Primeira Guerra Mundial. Após a Segunda Guerra Mundial, as grandes potências capitalistas – Estados Unidos e União Europeia – formaram uma espécie de cartel, para não mais se destruírem com outros conflitos armados. O instrumento militar do ultraimperialista, manejado a partir do Pentágono, é a Otan. A revolução socialista na Alemanha que Lenin ansiava não se efetivou.

Aray Nabuco – Diante desse cenário, com forças da esquerda enfraquecidas e ascensão da direita, o senhor acha que tem como a esquerda se recompor nos moldes, digamos, de antes?

Não entramos no mesmo rio duas vezes.

Nina Fideles – O 1%, o grupo de pessoas mais ricas entre a população mundial, domina as corporações que, por sua vez, dominaram os estados e governos. Há quem enxergue no fim desse movimento uma espécie de plutocracia, o senhor acredita nessa possibilidade?

Não se trata de possibilidade. Trata-se de realidade. A free enterprise e o free market engendraram, como na selva, a acumulação de riqueza e a desigualdade estrutural de poder. A desigualdade de renda atingiu, em 2013, o nível mais elevado desde 1928: 1.645 homens e mulheres controlavam maciça parte do acervo financeiro global, um montante de US$ 6,5 trilhões. E essa elite financeira é que detém o poder mundial.

Nina Fideles – Sobre o Brasil, como o senhor avalia o governo em exercício? Estamos sendo vítimas dessa “desordem mundial”?

Que governo? O que vejo no Brasil é uma tragicomédia, um teatro de marionetes, manejado pelo capital financeiro nacional e internacional, o esforço para aplicar o quanto mais rápido possível um programa econômico elaborado previamente ao golpe parlamentar-judiciário, com o respaldo da mídia corporativa, em meio a uma lawfare (guerra jurídica), cujo objetivo é desmontar alguns andaimes da estrutura econômica e política do Brasil. E por que a força-tarefa da Operação Lava Jato não investiga a corrupção das multinacionais do petróleo e outras no Brasil? Por que não investiga o lobby da Chevron e a razão pela qual o Senado aprovou rapidamente o Projeto n° 131, que retirou da Petrobras a condição de operadora única do petróleo nas camadas pré-sal da costa do Brasil? Serão as multinacionais impolutas? A força-tarefa da Operação Lava Jato, porém, atacou a Petrobras, a Eletronuclear e as grandes empresas construtoras, paralisando toda a sua cadeia produtiva, a contribuir para aumentar ainda mais a recessão e o desemprego. A operação Lava Jato a cumprir seu papel. Aluiu importantes andaimes da estrutura para desenvolvimento econômico do Brasil.

Aray Nabuco – Se for pensar no futuro desse golpe, qual o senhor enxerga?

Nenhum.

Aray Nabuco – Os EUA querem instalar bases na Argentina. Seria este país o braço fiel dos EUA aqui na América Latina?

A situação política na Argentina não está ainda definida.

Nina Fideles – E o que ocorreria com o equilíbrio geopolítico caso os EUA conseguissem instalar de fato uma base na América do Sul? Podemos antever ou fazer um exercício de análise sobre esse cenário?

Não posso fazer análise sobre um cenário que é muito incerto e difuso. Muito depende das diretrizes políticas que Donald Trump adotar, como presidente dos Estados Unidos.

Aray Nabuco – O senhor lançou nos anos 70 o livro Presença dos Estados Unidos no Brasil. De lá para cá, o senhor vê alguma mudança dessa presença? Como é que o senhor vê uma evolução, uma linha de tempo?

Claro que houve mudança. Depois de Presença dos Estados Unidos no Brasil, publiquei Brasil-Estados Unidos: a rivalidade emergente, As relações Perigosas – De Collor a Lula e Brasil, Argentina e Estados Unidos, entre outros. História é movimento, é mudança e permanência na mudança. E mudança na relação do Brasil com os Estados Unidos sempre houve, desde que ocorreu a proclamação da República, mediante um golpe de Estado, desfechado pelo marechal Deodoro da Fonseca, em 1889, tendo por trás o dedo do secretário de Estado americano, James G. Blaine, conforme o visconde de Ouro Preto denunciou no New York World, em 3 de março de 1891. E o jornalista Aristides Lobo, primeiro ministro da Justiça do governo Provisório, disse, em crônica no Diário Popular, de São Paulo, que “o fato (o golpe que derrubou o imperador Dom Pedro II) foi deles (militares) só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu aquilo bestializado, atônito, supresso, sem conhecer o que significava”. E é essa República que está em decomposição.